Quando o Povo Não se Cala, a Cidade Acontece

Emanuel Rocha

A obra começou, mas a iniciativa veio das ruas, não dos gabinetes.

Há uma velha frase que diz que “quem não é visto, não é lembrado”. Nos bairros América e Novo Paraíso, ela ganhou uma nova versão: quem não reclama, continua convivendo com o abandono.

Durante anos, o Canal da Avenida Brasil permaneceu sem qualquer reforma, sem projetos anunciados e sem uma solução definitiva por parte do poder público. Enquanto o tempo passava, a situação apenas se agravava. A antiga mureta de proteção foi completamente destruída em diversos trechos, deixando o canal totalmente exposto. O que antes já exigia cuidados transformou-se em um sério risco para a população. Motoristas passaram a conviver diariamente com o perigo de perder o controle do veículo e cair no canal, principalmente durante a noite ou nos períodos de chuva. Houve danos materiais, acidentes e situações em que vidas estiveram em risco. Pedestres, ciclistas e crianças passaram a circular ao lado de um canal sem qualquer proteção. Nem os animais escaparam. Diversas vezes, cães e outros animais caíram no canal, sendo resgatados pelos próprios moradores, cenas que se repetiam e evidenciavam o abandono de uma estrutura localizada em uma das avenidas mais movimentadas da região.

Diante desse cenário, a comunidade decidiu que não permaneceria em silêncio. Vieram as denúncias, as entrevistas para emissoras de televisão, rádios, jornais e sites de notícias, os registros fotográficos, os vídeos e as cobranças constantes às autoridades. Não foi uma reclamação isolada, mas uma mobilização coletiva de moradores cansados de esperar por uma solução para um problema que colocava em risco a segurança de todos.

A persistência deu resultado. Finalmente, a Prefeitura instalou uma placa informando o início das obras de recuperação do Canal da Avenida Brasil, com início em 2 de julho e prazo previsto de 210 dias para a conclusão. A notícia merece ser comemorada, afinal, qualquer investimento que devolva segurança à população é sempre bem-vindo. No entanto, é importante registrar uma verdade que muitas vezes fica de fora dos discursos oficiais.

Essa obra não nasceu por iniciativa espontânea da administração pública. Ela é consequência direta da mobilização dos moradores dos bairros América e Novo Paraíso. Foi a comunidade que denunciou, cobrou, procurou a imprensa, chamou a atenção das autoridades e se recusou a aceitar que o abandono continuasse sendo tratado como algo normal. Se hoje existe um cronograma para recuperar o canal, isso também é mérito da população que exerceu seu direito de cobrar providências.

Esse episódio deixa uma lição que vale para qualquer bairro de Aracaju e de qualquer outra cidade. Nenhuma comunidade deve desistir de reivindicar melhorias. Reclamar, denunciar, registrar os problemas e buscar os meios de comunicação não significa criar dificuldades para o poder público. Significa exercer a cidadania. Muitas das conquistas coletivas surgem justamente porque alguém decidiu não aceitar o descaso como algo inevitável.

Que a recuperação do Canal da Avenida Brasil seja lembrada não apenas como uma obra de infraestrutura, mas como um exemplo de que a participação popular continua sendo uma das maiores forças de transformação da sociedade. Quando a comunidade se une, faz sua voz ser ouvida e cobra seus direitos com firmeza e responsabilidade, o poder público se movimenta. Que essa vitória inspire outras comunidades a nunca deixarem de denunciar os problemas de seus bairros e a continuarem acreditando que uma cidade melhor também é construída pela coragem de seus moradores.

  • Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor e repórter fotográfico

 

 

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