Quando Derrubam Cercas, Também Derrubam Histórias
Emanuel Rocha
O conflito entre a Prefeitura e as catadoras de mangaba expõe um dilema que ultrapassa a disputa por um terreno e coloca em jogo a preservação de uma das maiores riquezas culturais e ambientais de Sergipe.
Há conflitos que não começam quando uma máquina derruba uma cerca. Eles começam muito antes, quando comunidades tradicionais deixam de ser ouvidas, quando a burocracia fala mais alto que o diálogo e quando o desenvolvimento passa a enxergar a terra apenas como patrimônio, esquecendo que nela também vivem histórias, memórias e identidades.
O episódio envolvendo as catadoras de mangaba da Barra dos Coqueiros é um retrato dessa realidade. De um lado, a Associação das Catadoras denuncia que a Prefeitura derrubou as cercas da área destinada ao projeto sem qualquer aviso prévio, surpreendendo mulheres que há anos lutam para transformar aquele espaço em um centro de preservação das mangabeiras e fortalecimento do extrativismo. Do outro, a administração municipal afirma que apenas cumpriu a legislação, alegando que o terreno permaneceu sem utilização durante aproximadamente nove anos e que, diante da ausência de cumprimento da finalidade prevista na doação, houve a reversão da área ao patrimônio público.
Cada lado apresenta seus argumentos e caberá aos órgãos competentes analisar a legalidade dos atos praticados. Mas existe uma pergunta que deveria preocupar muito mais do que qualquer processo administrativo: por que uma situação como essa precisou chegar ao ponto de ser resolvida com máquinas, decretos e acusações públicas, quando poderia ter sido construída por meio do diálogo?
Segundo as representantes da associação, o terreno foi conquistado depois de uma longa caminhada envolvendo instituições públicas, pesquisadores e entidades parceiras. O objetivo era simples e ao mesmo tempo grandioso: plantar centenas de mudas de mangabeira, preservar uma espécie símbolo dos tabuleiros costeiros e criar condições para que dezenas de famílias continuassem vivendo da coleta da fruta. As catadoras afirmam que estavam reunindo a documentação necessária para acessar recursos e estruturar o projeto quando descobriram que as cercas haviam sido retiradas e que um decreto municipal havia revogado a doação.
Essa história, porém, começou muito antes desse terreno existir.

As catadoras de mangaba carregam consigo um conhecimento construído ao longo de gerações. São mulheres que aprenderam ainda crianças a reconhecer o tempo da floração, o momento certo da colheita, o cuidado necessário para não ferir a árvore e o respeito pelo ciclo da natureza. Não aprenderam isso em livros ou salas de aula. Aprenderam caminhando pelos tabuleiros, acompanhando mães, avós e vizinhas, transformando o saber popular em uma verdadeira ciência da convivência com o meio ambiente.
Durante décadas, foram justamente elas que ajudaram a conservar áreas naturais que hoje despertam o interesse da expansão urbana e da especulação imobiliária. Enquanto muitos enxergavam apenas terrenos vazios, elas enxergavam alimento, renda, biodiversidade e futuro.
Infelizmente, a história das catadoras também é marcada por perdas. Aos poucos, as áreas livres foram sendo cercadas. Condomínios, loteamentos, empreendimentos turísticos e novos projetos reduziram o acesso às mangabeiras nativas. Muitas famílias passaram a caminhar distâncias cada vez maiores para encontrar árvores onde antes bastava atravessar um caminho de areia. O território foi diminuindo, mas a resistência permaneceu.
Por isso, quando uma cerca é derrubada, o sentimento dessas mulheres dificilmente se limita ao valor material da estrutura. O que elas enxergam é a interrupção de um sonho construído lentamente, um projeto pensado para garantir que seus filhos e netos continuem encontrando nas mangabeiras a mesma fonte de dignidade que sustentou tantas gerações.
É evidente que o patrimônio público deve cumprir sua função social e que toda doação precisa observar as exigências legais. Também é legítimo que a administração cobre resultados e acompanhe a utilização de áreas públicas. Mas é igualmente verdadeiro que comunidades tradicionais enfrentam dificuldades que nem sempre cabem dentro dos prazos frios de um processo administrativo. A falta de recursos financeiros, a burocracia para regularização documental e a necessidade de buscar apoio institucional tornam esses processos muito mais lentos do que normalmente se imagina.
Talvez o maior erro desse episódio não esteja apenas em quem tem razão ou em quem interpreta melhor a lei. O verdadeiro fracasso acontece quando o diálogo deixa de existir. Quando máquinas chegam antes das pessoas, quando decretos falam mais alto que os olhos de quem vive da terra e quando a esperança de uma comunidade é interrompida pelo barulho do ferro rompendo cercas.
Porque aquelas cercas nunca serviram apenas para delimitar um terreno. Elas protegiam um sonho. Guardavam o desejo de mulheres que acreditavam estar plantando mais do que mangabeiras. Estavam plantando futuro, dignidade e a certeza de que suas filhas e netas também encontrariam, sob a sombra dessas árvores, uma forma honesta de viver.
A mangabeira ensina uma lição que a pressa dos homens quase sempre esquece. Ela cresce devagar. Precisa do tempo da chuva, do calor do sol e da paciência da natureza para oferecer seus frutos. Talvez os projetos que envolvem comunidades tradicionais também precisem desse mesmo tempo, do cuidado, da escuta e da compreensão de que existem riquezas que não florescem no ritmo dos calendários administrativos.
Como canta Milton Nascimento em Coração de Estudante, “Há que se cuidar do broto.” Talvez seja essa a maior mensagem das catadoras de mangaba. Cuidar do broto é cuidar da árvore antes que ela dê frutos. É proteger a natureza antes que ela desapareça. É valorizar quem preserva antes que o silêncio substitua suas vozes.
Ainda há tempo para reconstruir pontes. Ainda há tempo para que o poder público e as catadoras sentem à mesma mesa, não como adversários, mas como parceiros de uma história que pertence a todos os sergipanos. Nenhuma assinatura em um decreto será capaz de produzir a vida que uma mangabeira produz. Nenhuma máquina será capaz de colher o fruto com o carinho de quem aprendeu, desde menina, que a árvore deve ser respeitada para continuar oferecendo alimento às próximas gerações.
As chuvas voltarão. As mangabeiras florescerão outra vez. Os frutos amadurecerão sob o sol do verão, como fazem há séculos nos tabuleiros sergipanos. Que, quando esse tempo chegar, também floresça a sensatez. Que amadureça o diálogo. Que frutifique o respeito.
Porque uma cerca pode ser refeita. Um terreno pode mudar de destino. Um decreto pode ser revisto. Mas, quando uma tradição desaparece, quando o silêncio ocupa o lugar das vozes das catadoras e quando uma criança deixa de aprender com sua mãe o caminho até a mangabeira, não é apenas um modo de vida que se perde. Perde-se um pedaço da memória de Sergipe.
Que os corações endurecidos pelo concreto, pela burocracia, pela pressa e pela ganância deem lugar a corações floridos de mangabas, onde cada árvore seja vista não como um obstáculo ao progresso, mas como um símbolo de vida, de esperança e de pertencimento. Que cada mangabeira preservada continue oferecendo seus frutos, sua sombra e sua poesia, lembrando que o verdadeiro desenvolvimento não é aquele que substitui a natureza pelo cimento, mas aquele que aprende a caminhar de mãos dadas com ela.
Porque um povo que cuida de suas mangabeiras também cuida de suas raízes. E quem preserva suas raízes jamais deixará de colher frutos para o futuro.
* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor e repórter fotográfico




