Quando a mulher vira manchete e o crime um detalhe: o abuso de expor a elas no rastro dos crimes de Daniel Vorcaro

Há algo de muito revelador na forma como parte da cobertura sobre Daniel Vorcaro foi conduzida. Em vez de concentrar a atenção no que realmente interessa à sociedade, que são os indícios de corrupção, lavagem de dinheiro, intimidação e possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional, houve espaço demais para explorar diálogos pessoais com mulheres que, a princípio, não são apontadas como autoras de qualquer crime.

Esse desvio de foco não é apenas um erro editorial. Ele expõe como o machismo estrutural e a misoginia ainda operam entre nós. Quando homens poderosos são envolvidos em escândalos, o debate público muitas vezes deixa de ser sobre os danos institucionais causados por eles e passa a transformar mulheres em vitrine, insinuação ou entretenimento.

A intimidade feminina vira chamariz. O possível crime masculino perde centralidade. Isso não qualifica a informação. Apenas reproduz uma lógica antiga de humilhação, objetificação e rebaixamento da mulher.

É justamente por isso que políticas públicas para as mulheres importam tanto. Elas não são concessão. São correção histórica. São instrumentos concretos para enfrentar desigualdades que foram naturalizadas durante décadas e que, ainda hoje, se manifestam na violência, na exclusão econômica e na dificuldade de acesso aos espaços de poder.

Em Sergipe, o Governo de Fábio Mitidieri tem apresentado avanços concretos nessa agenda. O Estado adotou medidas para ampliar a presença feminina na administração pública, tendo mulheres à frente de 10 das 21 Secretarias Estaduais, fortaleceu ações de proteção às vítimas de violência, apoiou políticas de autonomia econômica e investiu em iniciativas voltadas à equidade.

Trata-se de uma agenda que combina proteção, presença institucional e independência econômica – três dimensões essenciais para romper ciclos históricos de desigualdade. Os reflexos dessa orientação já aparecem em indicadores públicos.

Sergipe foi destacado como primeiro do Nordeste e segundo do Brasil no indicador de equilíbrio de gênero na remuneração pública estadual, segundo o Ranking de Competitividade dos Estados 2025.

Esse reconhecimento não surge por acaso. Ele dialoga com uma estratégia mais ampla de valorização da presença feminina, de promoção da equidade e de fortalecimento do papel das mulheres nos espaços de decisão e no mercado de trabalho.

Os resultados começam a aparecer também na vida real. Em Sergipe, entre o primeiro trimestre de 2023 e o quarto trimestre de 2025, o nível de ocupação feminina subiu de 39,7% para 42,1%, a desocupação caiu de 14,5% para 9,6% e a informalidade feminina recuou de 48,8% para 44,8%.

Na segurança pública, o Estado também reduziu os casos de feminicídio, segundo dados divulgados com base no Mapa da Segurança Pública 2025. Nenhum indicador, por si só, autoriza acomodação. Mas eles mostram que, quando há prioridade política, coordenação institucional e ação continuada, é possível proteger mais, incluir mais e avançar mais.

Esse é o contraste que precisa ser ressaltado. De um lado, uma cultura que ainda transforma mulheres em espetáculo, acessório ou desvio de foco. De outro, políticas públicas que procuram afirmar a mulher como sujeito de direitos, cidadã plena e protagonista de sua própria trajetória.

Enquanto parte da sociedade ainda insiste em olhar para a mulher pelo filtro da curiosidade, do julgamento ou da insinuação, Sergipe aponta para um caminho mais civilizado: o da proteção, da equidade e da autonomia.

Mas os avanços, por mais importantes que sejam, não dispensam vigilância nem compromisso coletivo. O enfrentamento à desigualdade entre homens e mulheres exige permanência, prioridade política e mudança de cultura. Exige que homens revejam comportamentos, rompam com piadas, silêncios e cumplicidades que sustentam a inferiorização feminina.

Exige também que a imprensa compreenda a responsabilidade que tem na formação do olhar social e escolha melhor aquilo que decide destacar.

No fim das contas, o desafio é simples de entender e profundo demais para ser adiado: ou a sociedade enfrenta com seriedade as estruturas que expõem, silenciam e violentam as mulheres, ou continuará fingindo surpresa diante de tragédias que ajuda a normalizar.

Igualdade não é detalhe. É dever moral, social e político. E uma sociedade verdadeiramente justa é aquela que deixa de transformar a mulher em manchete periférica e passa a colocá-la no centro da cidadania, da dignidade e dos direitos.

 

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