O Terror Nacional que Conquistou o Exterior e Merece a Sua Atenção

Emanuel Rocha

Enquanto muitos procuram sustos em Hollywood, um curta brasileiro de apenas 18 minutos conquista festivais internacionais e prova que o verdadeiro terror também fala português.

 

Por muito tempo nos acostumamos a acreditar que os grandes filmes de terror vinham sempre de Hollywood. Orçamentos milionários, efeitos especiais impressionantes e campanhas de divulgação gigantescas acabaram criando a falsa impressão de que o medo precisava falar inglês. Felizmente, de vez em quando surge uma produção brasileira para desmontar essa ideia.

É exatamente o caso de Pandemônio, curta-metragem de apenas 18 minutos produzido pela Aratu Filmes e dirigido por Caio dos Santos. Pequeno na duração, mas enorme na capacidade de criar tensão, o filme já começou a chamar atenção além das fronteiras brasileiras. A obra recebeu Menção Honrosa na 10ª edição do Brazil New Visions International Film Festival (BNVIFF), competindo com produções de diversos países e sendo reconhecida por profissionais do setor audiovisual.

O curioso é que, enquanto conquista elogios no exterior, ainda passa despercebido por boa parte do público brasileiro. Talvez porque vivamos um tempo em que o algoritmo decide o que merece ser visto antes mesmo de o espectador descobrir algo novo. Quantos bons filmes nacionais permanecem escondidos simplesmente porque não contam com grandes campanhas de divulgação?

Pandemônio não segue a cartilha dos sustos fáceis. Não há trilhas sonoras anunciando a chegada do perigo nem monstros surgindo a cada cinco minutos para arrancar um grito do espectador. O medo nasce da atmosfera, do silêncio, da fotografia e, principalmente, da sensação constante de que existe algo errado naquele apartamento.

A história acompanha Phantom, um conhecido investigador de fenômenos paranormais que aceita registrar um caso envolvendo uma família atormentada por acontecimentos inexplicáveis. O que parecia apenas mais uma investigação logo se transforma em uma experiência angustiante, construída de forma inteligente e sem recorrer aos clichês que tanto desgastaram o gênero. E fica uma recomendação: quanto menos você souber sobre a história antes de assistir, melhor será a experiência.

Outro aspecto que impressiona é o trabalho sonoro. Em tempos em que muitos filmes apostam apenas em efeitos visuais, Pandemônio entende que o verdadeiro terror também pode ser ouvido. Cada ruído, cada silêncio e cada detalhe da ambientação sonora contribuem para aumentar a tensão.

O influenciador especializado em cinema de terror Film Cat, que analisou a obra, destacou justamente esse aspecto. Segundo ele, a experiência ganha outra dimensão quando assistida com fones de ouvido ou em um bom sistema de som. Em tom bem-humorado, contou que até seus gatos passaram a procurar pela casa a origem dos sons produzidos pelo filme. É uma observação curiosa, mas que traduz perfeitamente a qualidade do desenho de som desenvolvido pela produção.

A avaliação não é isolada. O próprio júri do BNVIFF elogiou a direção de Caio dos Santos, destacando a utilização dos enquadramentos, da iluminação e do desenho de som como elementos fundamentais para construir a sensação de isolamento e medo que acompanha toda a narrativa.

Quem acompanha o terror contemporâneo certamente perceberá uma aproximação com Skinamarink, filme canadense que dividiu opiniões ao apostar em um terror mais contemplativo e psicológico. A diferença é que Pandemônio parece compreender melhor o tempo da própria proposta. Em apenas dezoito minutos, consegue condensar toda essa atmosfera sufocante sem cansar o espectador, mantendo a tensão do início ao fim.

Mas talvez o maior mérito de Pandemônio esteja em outro lugar. O curta mostra que o cinema independente brasileiro continua pulsando, criando e inovando, mesmo sem os recursos financeiros das grandes produções. Em um cenário dominado por franquias milionárias e fórmulas repetidas, é reconfortante perceber que ainda existem realizadores dispostos a apostar na criatividade, na atmosfera e na inteligência do público.

Mais do que recomendar um filme, esta coluna faz um convite para olharmos com mais atenção para o que está sendo produzido no Brasil. Quantas obras de qualidade permanecem escondidas nas plataformas digitais simplesmente porque não recebem o mesmo investimento em divulgação que as produções estrangeiras? Quantos talentos só passam a ser valorizados depois que recebem aplausos lá fora?

Essa lógica precisa mudar. O reconhecimento internacional é motivo de orgulho, mas não deveria ser um requisito para que valorizemos nossos artistas. O Brasil produz cinema de qualidade, e Pandemônio é uma prova de que boas histórias podem surgir muito longe dos grandes estúdios e dos orçamentos milionários.

Se você procura uma experiência diferente, inteligente e realmente inquietante, reserve dezoito minutos da sua noite. Apague as luzes, coloque um bom fone de ouvido e permita que Pandemônio faça o resto.

Há boas chances de que, quando os créditos subirem, você olhe discretamente para a porta da sua casa apenas para confirmar que ela continua fechada.

Screenshot

Filme: Pandemônio (Versão Estendida)

Duração: 18 minutos

Onde assistir: gratuitamente no canal oficial da Aratu Filmes, no YouTube.

Canal: https://www.youtube.com/@AratuFilmes

Dica da coluna: assista à noite, com as luzes apagadas e, principalmente, usando fones de ouvido. Nesse filme, o silêncio também faz parte do roteiro.

 

* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor e repórter fotográfico

 

 

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