O ronco da omissão: o terror das motos barulhentas nas noites de Aracaju
Emanuel Rocha
Em Aracaju, o barulho de motos nas madrugadas expõe comunidades inteiras ao desgaste e levanta uma dúvida constante: onde estão a Guarda Municipal e a Polícia Militar?
Aracaju convive há tempos com um problema que deixou de ser apenas incômodo para se transformar em uma violência cotidiana contra a população: o barulho de motos com escapamentos adulterados, aceleradas em “contra giro” e exibicionismo sonoro praticado principalmente à noite e na madrugada. Para quem mora em bairros da zona Norte e da zona Oeste, isso já virou parte de uma rotina cruel. É o trabalhador que precisa acordar cedo e não consegue dormir, o idoso que passa a noite em claro, a criança que desperta assustada, a família inteira submetida à irresponsabilidade de quem transformou o sossego alheio em diversão.
Em períodos festivos, como Carnaval, São João e fim de ano, o problema se intensifica. Multiplicam-se os grupos de motociclistas que adaptam escapamentos para aumentar o ruído e circulam por bairros populares como se as ruas fossem pista de exibição, ignorando que ali existem lares com crianças pequenas, idosos, enfermos e trabalhadores exaustos.
Nos fins de semana, esse cenário se repete com ainda mais intensidade, e o resultado é sempre o mesmo: o sossego é interrompido, o descanso é negado e a periferia de Aracaju e da Grande Aracaju segue pagando, em silêncio, o preço do desrespeito.
É preciso deixar claro: não se trata de atacar quem usa a moto para trabalhar ou se locomover. A moto é instrumento de sustento para milhares de sergipanos. O problema está em quem faz do veículo uma arma de perturbação, amparado por uma cultura de impunidade e pela falta de fiscalização contínua. A cidade precisa separar o trabalhador do infrator e o uso legítimo da prática covarde de atormentar bairros inteiros durante a madrugada.

Moto com escapamento adulterado não é brincadeira nem gosto pessoal. É perturbação do sossego, desrespeito ao espaço coletivo e, em muitos casos, infração de trânsito. A legislação existe. O que falta, quase sempre, é presença do poder público onde o povo mais precisa dela.
Nos finais de semana, as periferias de Aracaju se tornam um verdadeiro inferno de barulho. Ruas inteiras são tomadas por motos acelerando sem controle, e a comunidade fica completamente desprotegida. Moradores ligam para a Guarda Municipal, acionam a Polícia Militar, fazem denúncias, pedem socorro, e ninguém aparece. A madrugada passa, o barulho continua e a sensação que fica é de abandono total. É como se, nesses territórios, o direito ao descanso fosse opcional e a resposta do poder público nunca chegasse.
A pergunta que surge é dura, mas inevitável: a Polícia Militar é acionada repetidas vezes e, muitas vezes, simplesmente não aparece. A Guarda Municipal também é chamada, e a resposta não vem. A comunidade então fica com a sensação de abandono completo. E a reflexão que nasce desse cenário é ainda mais incômoda: será que esse mesmo descaso aconteceria se essa perturbação estivesse acontecendo nas áreas nobres da cidade? Para quem vive a realidade das periferias, a resposta parece óbvia. Nessas regiões onde moram setores mais influentes da sociedade, onde circulam pessoas com maior poder político e institucional, a sensação é de que a urgência seria outra, e a presença do Estado também.
Quando o problema está na periferia, muitas vezes ele é tratado como algo “normal”, como se o morador de bairro popular tivesse que se acostumar ao desrespeito. Não tem que se acostumar. O sono de uma criança do Bugio, do Lamarão, do Soledade ou do Santos Dumont vale tanto quanto o silêncio de qualquer área valorizada da cidade.
E o mais perverso é que esse tipo de violência não deixa marcas visíveis, mas adoece. O corpo sente, a mente sente, o cansaço se acumula, a irritação aumenta, o bebê acorda, o idoso passa mal, o trabalhador amanhece sem descanso. Quem já convive com insegurança, transporte precário e abandono do poder público ainda precisa suportar madrugadas rasgadas por motores preparados para fazer barulho de propósito.
Aracaju precisa tratar esse problema com seriedade. Não basta operação pontual em época de festa, nem ações esporádicas que desaparecem depois da repercussão. É preciso fiscalização permanente, presença nos bairros, apreensão quando couber, punição para veículos adulterados e resposta rápida aos chamados da população. Se o barulho é previsível, a ação do poder público também precisa ser.
No fim das contas, a discussão sobre motos barulhentas não é só sobre trânsito. É sobre o direito ao descanso, à paz e à dignidade. O que as comunidades de Aracaju pedem não é favor. É respeito. Porque o ronco dessas motos, muitas vezes, não é apenas o som de um escapamento adulterado. É o som da omissão ecoando na madrugada.
* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor e repórter fotográfico




