Influenciadores Digitais: O Canto da Sereia nas Eleições

Influenciadores Digitais: O Canto da Sereia nas Eleições

Quando seguidores parecem votos, mas a urna revela outra realidade

Emanuel Rocha*

As redes sociais transformaram-se no grande palco do nosso tempo. Sob seus refletores, pessoas comuns tornam-se celebridades, opiniões atravessam fronteiras em poucos segundos e um simples vídeo pode alcançar milhões de pessoas. Nunca foi tão fácil conquistar seguidores. Mas será que visibilidade é sinônimo de influência?

Foi justamente esse novo cenário que passou a seduzir empresas, marcas e, mais recentemente, a política. Em muitas campanhas eleitorais, alguns candidatos passaram a acreditar que uma grande audiência digital poderia ser convertida em votos. Como no antigo mito grego, deixaram-se encantar pelo canto da sereia: a sedutora promessa de que milhares de seguidores significam, automaticamente, milhares de eleitores.

Antes, porém, de aceitar essa idéia como verdade, vale uma pergunta: o que significa, de fato, influenciar alguém?

Muito antes das telas e dos algoritmos, todos nós já éramos influenciados. Pais, avós, professores, amigos, escritores, artistas e líderes ajudaram a formar nossa maneira de pensar. Nenhum deles precisou de curtidas ou compartilhamentos para exercer influência. Ela sempre nasceu da confiança, da coerência entre palavras e atitudes e do respeito conquistado ao longo do tempo.

Foi nesse ambiente de profundas transformações que surgiu a figura do influenciador digital. Com um celular nas mãos, qualquer pessoa passou a produzir conteúdo e alcançar milhares, às vezes milhões de pessoas. A internet democratizou a comunicação, abriu espaço para novas vozes e permitiu que muitos profissionais construíssem carreiras relevantes.

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Alguns influenciadores realizam um trabalho sério. Informam, educam, prestam serviços, divulgam conhecimento e enriquecem o debate público. Outros, entretanto, conquistam notoriedade principalmente pelo entretenimento, pela polêmica ou pela exposição da própria vida. Não há problema em utilizar as redes dessa forma. A questão surge quando se confunde audiência com autoridade.

Ter milhões de seguidores significa ter alcance. Não significa, necessariamente, possuir credibilidade, conhecimento ou capacidade de influenciar decisões políticas. Ainda assim, é exatamente nesse ponto que muitos candidatos acabam se deixando seduzir.

A cada eleição, cresce a corrida em busca do apoio de influenciadores digitais. Para alguns candidatos e estrategistas de campanha, um perfil com grande audiência parece representar um atalho para as urnas. Afinal, se uma pessoa consegue mobilizar milhares de seguidores todos os dias, por que não mobilizaria milhares de eleitores?

É justamente aí que mora o verdadeiro canto da sereia das eleições.

Ter audiência, no entanto, não é o mesmo que exercer influência. Uma pessoa pode ser acompanhada por milhões e, ainda assim, não despertar confiança suficiente para influenciar decisões importantes. Popularidade e credibilidade caminham por caminhos diferentes.

Basta observar quem forma o público de um influenciador. Há seguidores interessados em humor, esportes, moda, culinária, música ou entretenimento. Outros acompanham determinado perfil apenas por curiosidade ou até para discordar do que é publicado. Muitos vivem em estados diferentes, alguns sequer têm idade para votar. Transformar essa audiência diversa em uma suposta reserva de votos é ignorar a complexidade do comportamento do eleitor.

É verdade que alguns influenciadores conseguem mobilizar parte de seu público e contribuir para determinadas candidaturas. Isso acontece e seria um erro negar essa realidade. O equívoco está em imaginar que essa seja uma regra ou acreditar que o número de seguidores, por si só, seja capaz de decidir uma eleição.

Mesmo grandes lideranças políticas, com décadas de vida pública, nunca conseguiram transferir integralmente seus votos para candidatos apoiados por elas. Se isso já não ocorre com figuras que construíram uma trajetória política, por que seria diferente apenas porque alguém reúne milhões de seguidores nas redes sociais?

Ainda assim, o fascínio pelos números continua seduzindo muitos candidatos. Curtidas, compartilhamentos, visualizações e seguidores passam a ser vistos como indicadores de força eleitoral. Em algumas campanhas, a preocupação com o alcance nas redes parece superar o debate sobre propostas, projetos e capacidade de governar.

É nesse momento que a política corre um risco: trocar o diálogo pela performance, a liderança pela popularidade e o debate de ideias pela busca incessante de engajamento.

Isso não significa que os influenciadores digitais não tenham importância na política. As redes sociais podem aproximar cidadãos da informação, ampliar debates e estimular a participação de pessoas que antes acompanhavam pouco a vida pública. Uma influência responsável pode contribuir para uma sociedade mais informada.

O problema surge quando a política deixa de ser apresentada como espaço de ideias e passa a ser tratada como uma disputa de imagens. Quando candidatos são transformados em personagens, quando propostas são substituídas por frases de efeito e quando números de seguidores passam a valer mais do que compromisso e preparo, a democracia perde qualidade.

Também é preciso reconhecer que o eleitor vive diferentes realidades. Muitos analisam trajetórias, propostas e compromissos antes de escolher seus representantes. Outros, diante da velocidade das redes sociais e do excesso de informações, podem acabar dando menor importância ao valor do voto e se deixando levar pela popularidade ou pelo apelo emocional.

Mas seria um erro acreditar que toda uma sociedade pode ser conduzida apenas pelos números das redes. A democracia continua sendo formada por pessoas com histórias, valores e escolhas próprias.

No fim, as redes sociais continuarão sendo um grande palco. Nelas, a popularidade pode ser medida por curtidas, compartilhamentos e seguidores. Mas a democracia segue outra lógica.

Quando a porta da cabine de votação se fecha, o algoritmo perde a voz. O influenciador deixa de falar. O candidato deixa de fazer campanha. Resta apenas o eleitor diante da própria consciência.

É nesse instante que o canto da sereia perde a força.

Seguidores podem produzir fama.

Mas é a confiança que conquista votos.

 

  • Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor e repórter fotográfico

 

 

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