Uma arma chamada livro

Logo mais completamos um ano de distanciamento social devido à pandemia e, durante esse período, mais do que nunca, recorri à literatura para me distrair. Agora, com o toque de recolher e o iminente fechamento do comércio, passei a me perguntar como esse momento será retratado daqui a um tempo e se alguém, anos atrás, imaginou esses acontecimentos. O que temos presenciado me parece cada vez mais uma distopia, que, por sinal, nunca foi meu estilo de livro preferido, por geralmente representar sociedades piores que a nossa.

Uma famosa distopia é Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, que narra a história de um local em que é proibido ler ou possuir livros. Ao ler a sinopse fiquei bastante curiosa sobre o motivo dessa proibição e a forma como as pessoas reagiam à essa regra. Imaginei que teria ocorrido alguma guerra ou manifestação ou algo extremo que justificasse essa decisão tão controversa. Contudo, com o passar das páginas, percebi as semelhanças entre este mundo irreal e o que vivemos.

O personagem principal do livro, Guy Montag, é um bombeiro cuja missão é queimar livros e casas, inclusive com os proprietários dentro, caso optem por não abandonar as suas residências. E, numa passagem específica, quando Montag começa a se questionar sobre o que sabe da história do mundo, seu chefe explica o início de tudo: a população passou a buscar informações rápidas, optou por não ler notícias longas, somente as manchetes, e perdeu o interesse em se aprofundar em qualquer tema. Com isso, todos passaram a ter opiniões rasas sobre tudo.

O chefe de Montag continua sua narrativa enfatizando a dificuldade que se tinha de agradar a todos, principalmente na escrita, e como as críticas existiam apesar do esforço empregado no desenvolvimento dos livros. Por fim, as mensagens começaram a ser cada vez mais diretas, facilmente compreendidas e pouco questionáveis e a sociedade passou a se organizar de forma a satisfazer a população nos seus desejos simplórios. Os livros foram abolidos – porque poderiam instigar perguntas e insatisfações – e todos os lares se viram mergulhados em telas, cores, ruído e iteratividade.

A cada linha me surpreendia com a similaridade do que vivemos, visto que atualmente notícias são dadas em 280 caracteres e que, a partir de uma diminuta quantidade de palavras, cancelamos celebridades e elegemos presidentes.  No mundo de Fahrenheit 451, por preguiça, vontade de evitar qualquer tipo atrito e busca por um permanente contentamento, a população escolheu abandonar os livros por reconhecer que eles são uma arma – bastante acessível – que estimula o pensamento crítico. Uma história contemporânea? Não, escrita em 1953. Mas acho que chegamos lá com um volume dois.


Luara Batalha
@_virandopaginas
Com sangue sergipano, sotaque baiano e mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é engenheira civil, mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Sempre dedicou parte do seu tempo a expressões artísticas e desde cedo se descobriu uma leitora voraz, mergulhando em obras de diversos estilos. Apaixonada pelas letras, teve seu conto “Invasão de território” publicado na antologia Soteropolitanos e atualmente trabalha no seu primeiro romance.

 

Fonte: Fala Barreiras

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