Tim Maia Sergipano: A Saga de um Autodidata que Conquistou a Boemia Carioca e Renasceu em Aracaju

“Ah! Se o mundo inteiro pudesse me ouvir / Tenho muito pra contar / Dizer que aprendi…” Os versos imortalizados na voz do “Síndico” do Brasil parecem ter sido escritos sob medida para a trajetória de Manuel Silvino da Silva Filho. Em solo sergipano, esse enredo ganha contornos de um soul profundo, banhado pelas águas dos rios e pela poeira das estradas. Manuel não apenas canta Tim; ele o evoca, trazendo para o presente a energia de uma lenda, enquanto escreve, com baquetas e garganta, sua própria história de amor pela música e por Aracaju.

O Eco do Soul entre o Velho Chico e o Rio Sergipe

O destino, por vezes, compõe melodias antes mesmo de as notas tocarem o papel. Em 1957, na ribeirinha Neópolis, a terra sergipana via nascer Manuel Silvino da Silva Filho. Mas o mundo, em sua sabedoria rítmica, já preparava o palco para que ele se tornasse o Tim Maia Sergipano, o fôlego da alma e do soul em terras nordestinas.

A história de Manuel ganha movimento em 1966, quando o menino de nove anos desembarca em Aracaju. Ele vinha na esteira de um sonho esportivo, acompanhando o irmão, o zagueiro Murilo, que chegava para defender o “Dragão” do Bairro Industrial, a Associação Desportiva Confiança. Contudo, se os pés do irmão silenciavam ataques adversários no gramado, as mãos de Manuel buscavam o som. Aos 14 anos, já em Propriá, o chamado da música foi inevitável. Como um autodidata que lê o mundo através do ritmo, ele se integrou à Banda Átomos de Propriá como percussionista e, posteriormente, à Banda Brasas 10. Ali, entre um batuque e outro, a cadência da vida o levou também aos campos, vestindo a camisa do time do Propriá como jogador de futebol, mas o coração já batia em um compasso diferente.

Aos 18 anos, a imensidão do Rio de Janeiro o chamou. Manuel trocou as águas doces do São Francisco pela Baía de Guanabara, trabalhando na força bruta da indústria naval, na fabricação de navios. Entre o aço e as ferragens, sua voz brilhava em festivais estudantis, onde a vitória por duas vezes no concurso de música foi o passaporte definitivo para a boemia carioca. Após esse prêmio, foi convidado para a Banda Avôhai e, logo em seguida, recebeu o convite do pianista Joel para acompanhá-lo, abrindo as portas para as noites do Rio. Por mais de sete anos, acompanhou Borda de Paula e emprestou sua musicalidade a gigantes como Belchior, Paulo Diniz, Agnaldo Timóteo, Carlos Alberto Chorão e Cláudia Barroso, além de marcar presença em vários carnavais cariocas.

Aos 28 anos, o filho pródigo retornou ao solo sergipano. Retornou à Banda Brasas 10 e sentiu o calor das multidões em trios elétricos de campanhas eleitorais. Mas foi ao assumir seu lugar nos palcos da casa de show Paredão que a transformação se completou. Ali, a força com que Manuel comandava a bateria, somada à sua fisionomia física e voz impressionantemente parecidas com as do mestre, não deixou dúvidas: ali renascia o Tim Maia Sergipano. “Descoberto” oficialmente pela jornalista Delma Maria, ele abraçou o apelido com a maestria de quem conhece o ofício.

Ao longo de sua caminhada, dividiu o palco com nomes como Edgar do Acordeon, Luiz Paulo, Patrick Dimon e figuras como o ex-deputado Francisco Gualberto e Bel Miranda, irmã da cantora Gretchen. Em 2002, imortalizou sua trajetória no CD “Lembranças de Tim Maia”, um tributo vivo que une os clássicos do soul brasileiro a duas músicas autorais, que guardam a essência de sua própria luta.

Hoje, Manuel Silvino é mais do que um intérprete; é um artista que adotou Aracaju como sua amada moradia, apaixonado por viver cada amanhecer nesta capital. Sua voz é como o curso das águas: ele deixou para trás o balanço majestoso do Rio São Francisco para se reencontrar na serenidade do Rio Sergipe.

Na vida, ele compreendeu que “não importa se o tempo passa, o que importa é que a gente não esqueça o que passou”. Ele sabe que “na vida a gente tem que entender que um dia se ganha e no outro se perde”, mas sua maior vitória foi fincar raízes onde o coração se sente em casa. Quando olha para o horizonte da Atalaia, Manuel sente que, apesar das correntezas, “no caminho é que se vê a praia de um lugar melhor”.

Como os rios que correm incansáveis para o mar, seu talento flui entre as margens da saudade e da esperança. Ele continua pronto, com a alma tingida pelo azul da cor do mar que banha sua orla favorita, à espera do próximo convite para subir ao palco e mostrar que a música é eterna. Manuel Silvino, o nosso Tim Maia, está aqui — pronto para encantar, mais uma vez, a sua amada Aracaju.

 

  • Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor  e repórter fotográfico

 

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