Sergipe: O país do forró — Arrocha, aguarde sua vez!
O título nos pertence. Nossas raízes são profundas. A tradição não se abandona por modismos passageiros.
Como Rogério canta em “Chamego Só”:
“Sergipe é o país do forró,
Tem milho, canjica e quentão…”

Essa música é um hino à nossa terra, celebrando tradições, festejos e o orgulho sergipano. É com essa convicção que defendemos o forró autêntico e a preservação de nossa cultura.
O forró nasceu no coração do Nordeste. Criado no sertão, floresceu nas festas populares, se expandiu pelo Brasil e se estabeleceu em Sergipe. Aqui, o forró transcende a trilha sonora do São João: é cultura, memória e identidade. Assim, Sergipe conquistou — merecidamente — o título de País do Forró.
Não foi simples. Décadas de artistas, poetas e sanfoneiros impulsionaram o ritmo do povo. Como Rogério, que eternizou em “Chamego Só” a frase que se tornou nosso lema. Rogério partiu, mas sua voz permanece viva em cada sanfoneiro e quadrilha do interior.
Nos últimos anos, contudo, o cenário musical tem se transformado. O arrocha, ritmo baiano surgido nos anos 90, com influências da seresta e do bolero, tem ganhado espaço nas festas sergipanas. Com ritmo envolvente e letras românticas, conquistou fãs e palcos — o que é justo. Toda cultura merece espaço. Mas crescer é diferente de tomar o lugar de quem já reina.
A tentativa de associar Sergipe ao arrocha — como o “novo país do arrocha” — parece prematura. O forró construiu essa história com esforço, tradição e representatividade. O arrocha precisa trabalhar muito para alcançar esse status. Tem um longo caminho a percorrer. E, com respeito: Sergipe já tem dono no quesito identidade musical.
A situação se agrava quando vemos as festas juninas, patrimônio cultural, virando vitrines de tudo — menos forró. A Vila do Forró, na Orla de Atalaia, já não honra seu nome. O Forró Caju, antes templo de trios autênticos, hoje abre espaço demais para estilos que pouco se conectam com a raiz. Os artistas do forró tradicional são relegados enquanto os holofotes miram outros gêneros.
O que defendemos é simples: valorizamos o arrocha, o sertanejo e o forró eletrônico, cada qual com seu mérito. Acreditamos que cada estilo musical deve ter seu palco e seu momento adequados. Apoiamos a criação de festivais dedicados ao arrocha, com a devida organização, atenção e reconhecimento ao seu público, mas sem que isso signifique o esquecimento daqueles que construíram a tradição da festa desde o princípio. As raízes não devem ser obscurecidas por tendências passageiras.
Cuidar do forró é zelar pela nossa identidade. É manter pulsante a essência de um Sergipe que conhece suas origens e que se recusa a ver sua cultura enfraquecida por mero oportunismo. O título de País do Forró não é uma estratégia de publicidade, mas sim uma herança cultural, uma base sólida e uma manifestação popular.
Portanto, a mensagem é clara: Sergipe é o País do Forró, e o arrocha deve aguardar sua vez. Afinal, para conquistar esse lugar de destaque, não basta apenas o sucesso momentâneo, é preciso ter paixão, autenticidade, o som da sanfona no coração e a história na ponta dos pés.
Emanuel Rocha é historiador, coautor dos livros Bacias Hidrográficas de Sergipe, Unidades de Conservação de Sergipe e Bairro América: A Saga de uma Comunidade. Também atua como repórter fotográfico e poeta popular.




