Rede de Vaidades

Quem já frequentou pequenas cidades sabe o poder que o disse me disse tem. Todo mundo adora saber e comentar sobre a vida do outro, mas ninguém quer ser o tema da vez. Passei férias num lugar assim, onde havia um local na praça principal que chamávamos de banco da fofoca e muitas foram as vítimas do famigerado repasse de informações daquele banco. Hoje, há uma maneira muito mais simples de acompanhar os passos alheios em tempo real: as redes sociais.

Para alguns, as redes sociais atuam como um escapismo. Ficamos absorvidos por aquele mundo e quando nos damos conta, passamos horas rolando a tela, muitas vezes sem pensar em nada. O hábito é tão grande que, automaticamente, conferimos a vida online sempre que estamos numa fila, no elevador ou em qualquer outra situação de “tempo livre”. No final do dia, quando o celular apita e informa quanto tempo gastamos com as redes sociais, sempre fica aquela sensação de que não foram tantas horas assim. A questão é que, como traz o documentário Dilema das Redes, disponível na Netflix, as redes sociais foram programadas para nos absorver, para nos manter conectados.

Por si só, esse já é um problema, mas quero trazer mais uma função das redes sociais: uma forma de comparar nossa vida e nossas conquistas com as dos outros, apesar de não conseguirmos distinguir o que é autêntico nesses perfis virtuais. Podemos criar um personagem com status, hábitos e gostos especificamente definidos para provocar admiração nos seguidores. Ao mesmo tempo que o ego é massageado por todas as curtidas, comentários e views, sabemos que aquilo não é para nós mesmos, mas para a persona, o que não nos impede de continuar alimentando aquele perfil. Entramos, assim, num ciclo vicioso que pode ser bastante destrutivo.

Segundo o mesmo documentário, a geração Z[1], formada pelos nascidos a partir de 1996, começou a utilizar as redes sociais ainda na pré-adolescência e hoje se observa uma mudança de comportamento nessa parcela da população. Esse grupo se mostra mais inseguro e receoso de arriscar, o que influencia a vida como um todo, como pode ser observado na reduzida quantidade de encontros amorosos, se comparada a gerações anteriores, e até o número inferior de habilitados (CNH). Outro dado alarmante é que a taxa de suicídios, nos Estados Unidos, cresceu vertiginosamente a partir de 2009, quando as redes sociais foram disponibilizadas nos aparelhos celulares. Em números, foi registrado um aumento de 70% no índice de suicídios de garotas entre 15 e 19 anos durante 2010 e 2019. Se consideradas as garotas de 10 a 14 anos, esse valor se elevou em – pasmem – 151% no mesmo período.

Podemos relacionar esses dados a um outro tema – este não abordado diretamente pelo documentário – o cyberbullying. Muitos de nós fomos ridicularizados por algum motivo durante a infância e a adolescência, e talvez até não percebamos o impacto disso nas nossas vidas, mas, como comentei no início desse texto, a quantidade de pessoas envolvidas era reduzida a um nicho específico. Agora, qualquer pequena coisinha – inclusive uma mentira – pode ser espalhada nas redes sociais, fazendo com o que o bullying, que antes era restrito, muitas vezes, ao ambiente escolar, nos acompanhe até em casa.

A série 13 reasons why, também da Netflix, mostra muito bem isso. Um rapaz fotografa uma jovem brincando num parquinho – especificamente descendo no escorregador usando saia -, envia a foto de forma descontextualizada aos amigos, que acreditam e divulgam que eles tiveram relações íntimas, já que era possível ver a calcinha da garota na foto. Sabemos que nada disso aconteceu, mas a mentira já havia sido lançada no World Wide Web[2], e assim acompanhamos o impacto disso na vida da adolescente, os comentários depreciativos que ela recebia simplesmente ao abrir o celular, a forma distinta com que os colegas passaram a tratá-la por conta dessa foto, o seu sofrimento e, por fim, o seu suicídio.

Seguindo um padrão similar, A playlist de Hayden, de Michelle Falkoff, é uma versão literária e musical de 13 reasons why: jovem se suicida e deixa um pendrive com diversas músicas para seu melhor amigo, Sam, que sai em busca de entender os motivos que levaram Hayden a acabar com sua vida. Apesar do estilo da escrita não ter me agradado tanto, trago este livro aqui porque sua história aborda a necessidade dos jovens de se encaixar num padrão social, a tentativa de se alcançar metas inatingíveis e, principalmente, bullying. Este último é bastante discutido ao longo do enredo já́ que a autora mostra como cada pessoa reage a essas situações e como o papel dos pais e da escola influenciam diretamente em sua repercussão.

Então, estou defendendo o fim das redes sociais? Não, acredito que são um excelente meio de comunicação. Mas, no mês de prevenção contra o suicídio, o setembro amarelo, é importante pensarmos sobre de que forma o nosso comportamento contribui com as situações narradas e, claro, o papel das redes sociais perpassa essa análise. Provavelmente, assistir ao documentário e a série e ler o livro indicados aqui não serão suficientes para compreender toda a complexidade dessa rede de vaidades e consumo relacionados ao mundo virtual. Mas, talvez, esse conteúdo já seja o suficiente para estimular a busca por informações verdadeiras e de fontes confiáveis porque cair na teia das fakes news… bem, é um assunto para uma próxima coluna.

[1] Não há consenso em relação aos anos de nascimento de cada geração, portanto, depende da fonte consultada. Segundo estudo do grupo DOT (2020):
– Baby boomers: nascidos entre 1946 e 1964
– Geração X: nascidos entre 1965 e 1980
– Geração Y (ou millennials): nascidos entre 1981 e 1996
– Geração Z (ou centennials): nascidos entre 1997 e 2012 (segundo este material, a geração Z gosta de arriscar, o que contradiz o documentário)
– Geração alpha:  nascidos a partir de 2010
Mais informações: https://dotgroup.com.br/conteudo-util/as-geracoes-e-suas-formas-de-aprender/

[2] O www do início dos sites significa World Wide Web. Em tradução livre: rede de alcance mundial


Luara Batalha
@_virandopaginas
Com sangue sergipano, sotaque baiano e mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é engenheira civil, mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Sempre dedicou parte do seu tempo a expressões artísticas e desde cedo se descobriu uma leitora voraz, mergulhando em obras de diversos estilos. Apaixonada pelas letras, atualmente trabalha no seu primeiro romance.

5 respostas

  1. Como tudo na vida, tudo tem seu lado bom e ruim, não é diferente com as redes sociais. O limite da importância na nossa vida somos nós que decidimos. Parabéns pela coluna.

  2. Chocada com os dados sobre a incidência de suicídios. Embora tenha noção da influência das redes sociais e sobre o quanto esse canal pode ditar comportamentos, não pude deixar de pensar no quanto se tornou essencial, para as pessoas em geral, escancarar uma necessidade absurda de publicar a ideia, verdadeira ou não, de felicidade.

  3. Excelente tema para o setembro amarelo! Ao mesmo tempo que pode ser uma ferramenta incrível e facilitadora nas nossas vidas, a rede social pode nos causas sérios problemas…

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