Se as mais de três mil vítimas da covid-19 em Sergipe tivessem um rosto, seria de um homem pardo com mais de 70 anos de idade, morador da região metropolitana de Aracaju, com alguma comorbidade. Ao completar um ano desde a detecção do primeiro caso da doença, levantamento do F5 News, revela o perfil dos sergipanos que perderam a vida em decorrência da infecção.
Esse retrato foi construído a partir da maior incidência de óbitos dentre os dados coletados e divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde (SES), ou seja, isso não quer dizer que a maioria das três mil vítimas seja de pessoas que se enquadram em todos os traços desse perfil. Confira o infográfico:
O trabalhador autônomo José Alves Neto, 79 anos, era carinhosamente chamado de Zé Gordurinha pela família e amigos por conta da sua barriga acentuada. Pai de seis filhos, sendo dois homens e quatro mulheres, o aracajuano faleceu no final do ano passado vítima da covid-19. Segundo sua filha, a paixão pelo canal de animais e a tradição de vestir-se de Papai Noel em todo Natal eram suas marcas registradas. “Cheio de vida, estava sempre sorrindo, andando ligeirinho por aí e gozando de uma saúde maravilhosa. Não tinha preguiça de fazer nada”, conta Josilene Oliveira.
O sancristovense Alfredo Corrêa perdeu a batalha contra o coronavírus aos 83 anos, assim como sua esposa dona Maria dos Santos Corrêa. Cristão evangélico, costumava fazer os outros rirem com suas histórias do tempo em que serviu ao Exército e, mesmo na velhice, tinha uma vitalidade de dar inveja. Moisés Santos Corrêa, penúltimo filho de seu Alfredo, lembra quando o pai lhe ajudou a construir sua casa, já aos 66 anos: “Eu disse a ele que não precisava ficar pra me ajudar, e ele me respondeu com certa emoção: ‘Se eu pudesse e tivesse dinheiro, dava uma casa a cada um dos filhos; mas como não posso, venho para ajudar com mão de obra’”.
O mundo podia estar se acabando que o seu José da Conceição Góes não sairia da cadeira de balanço. É o que conta o seu filho, Cristian Góes, ao lembrar o homem silencioso, tímido, tranquilo, mas não menos afetuoso que fora seu pai, morto aos 80 anos em decorrência da covid-19. “Em abril, já na pandemia, completou 80 anos. Não teve festa. Um bolinho lembrou a data. Ele estava com uma felicidade doída pelas restrições, mas seu amor era tanto que ele rompeu as regras e me deu o maior e mais profundo abraço. A gente não sabia que era nossa despedida”, relata.
Embora nesta segunda onda da covid-19, pesquisadores sergipanos tenham notado um aumento na demanda de internação de pacientes com menos de 60 anos, os idosos continuam liderando a incidência de casos graves da doença.
Segundo especialistas, a influência de alguma comorbidade é determinante para a sobrevivência ou não do paciente infectado. As doenças mais associadas às mortes não mudaram ao longo do ano. Hipertensão, diabetes e doença cardiovascular estão desde o início da pandemia no topo da estatística.
Por essa razão, esse grupo encabeça a campanha de imunização em todo o país. Conforme o balanço mais recente da SES, mais de 40 mil idosos já receberam ao menos uma dose da vacina contra covid-19 em Sergipe.
Os relatos reproduzidos nesta reportagem foram extraídos do site Inumeráveis, que reúne histórias de vítimas da covid-19 em todo o país.





