Esses dias me peguei pensando sobre a minha primeira memória relacionada a livros. Como forma de incentivar o hábito da leitura, minha mãe nos obrigava a escolher um livro para ler durante as férias escolares. Naquele verão, a obra da vez era O menino do dedo verde[1]. Não lembro do enredo, mas a frustração de ter sido obrigada a lê-lo ainda é palpável. Recordo de pedir repetidamente para trocar de leitura e da resposta padrão que eu recebia: “a escolha foi sua”. E o pior que sim, a escolha realmente foi minha.
Apesar disto parecer uma memória embaçada pelo olhar infantil, este episódio foi marcante por ter me ensinado duas coisas: o gosto por virar páginas (depois de ter superado o tal menino do dedo verde) e a responsabilidade que precisamos carregar por conta de nossas escolhas. Sem estes ensinamentos (thanks, mamis), não teria aprendido tanto ao longo dos anos.
Como fã de carteirinha de romances históricos, muito do que sei sobre o tema veio de livros “devorados” em horário extraclasse, na recepção de consultórios médicos e no intervalo das aulas. Isto só foi possível devido a minha situação financeira familiar, que permitia a aquisição desse material. Não vou mentir que me angustio sempre que lembro da possibilidade iminente destas obras ficarem ainda mais inacessíveis[2].
É sabido que livros são base para o desenvolvimento intelectual e crítico da população, o que permite o questionamento das condutas da sociedade, as de seus líderes e as suas crenças pessoais. Estas crenças, sejam políticas ou religiosas, interferem no comportamento humano a ponto de influenciar na derrubada, ou formação, de países.
A força dessas convicções, das escolhas e da resiliência quanto aos resultados são notórias na vida de Uhtred de Bebbanburg, personagem principal da série literária Crônicas Saxônicas. Ao longo dos diversos livros (11 publicados até o momento) acompanhamos o crescimento deste jovem saxão, criado por dinamarqueses, cuja lealdade é sempre posta em jogo devido ao seu temperamento arredio e a sua religião. As suas escolhas, inclusive a crença no seu líder, contribuíram significativamente na formação do que hoje chamamos Inglaterra.
Infelizmente, Uhtred é um personagem fictício criado pelo magnífico Bernard Cornwell[3], mas, ao lado dele vivemos as guerras do século IX, as lutas na Mércia, em Wessex e na Nortúmbria, a formação correta de uma parede de escudos e ouvimos a batida dos tambores no início das batalhas; aprendemos sobre a história do Rei Alfredo, O Grande, a dos seus descendentes e a dos seus inimigos, os viking (dinamarqueses); e vemos também a disputa entre o paganismo e o cristianismo, o tratamento dado as mulheres da época e a importância da existência de um primogênito para garantir a sucessão nos reinos.
Se mesmo com tudo isso, você ainda não tiver decidido dar uma chance aos livros, apesar da minha insistência de que vale a pena, você pode assistir uma parte desta história na série O Último Reino[4]na Netflix. A troca compensa? Para mim não, mas a escolha é sempre sua.
[1] O Menino Do Dedo Verde de Maurice Druon
[2] Proposta de retirada de isenção tributária na comercialização de livros
[3] Escritor britânico com mais de 50 obras publicadas. A maioria possui momentos históricos como pano de fundo
[4] Primeiro livro da série literária As Crônicas Saxônicas
Luara Batalha
@_virandopaginas
Com sangue sergipano, sotaque baiano e mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é engenheira civil, mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Sempre dedicou parte do seu tempo a expressões artísticas e desde cedo se descobriu uma leitora voraz, mergulhando em leituras de diversos estilos. Apaixonada pelas letras, atualmente trabalha no seu primeiro romance.





3 respostas
Maravilha de coluna
Amei! Muito pertinente o texto! Falar de um assunto tão sério como a possível taxação dos livros de forma lúdica é realmente inovador! Precisamos achar outras formas de lidar com essa realidade, nunca esquecendo que temos que lutar para que o livro não seja colocado nesse lugar de “produto de luxo” e sim de cultura, como realmente é!
O ato da leitura é uma das ações mais democráticas de desenvolvimento pessoal, e temos que lutar para que o acesso aos livros seja universal.
Sua reflexão é muito importante, sobretudo nesse momento. Parabéns, Luara!
Não à tributação de livros!