Assédio moral no trabalho: o desafio de enfrentar uma violência sutil, persistente e devastadora.
“Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado.”
— Chico Buarque e Gilberto Gil, Cálice
Composta durante a ditadura, a música Cálice ilustra o silenciamento de quem é impedido de se expressar, carregando a dor em silêncio. Mesmo em outro contexto, esses versos espelham o sentimento de diversos empregados que sofrem assédio moral no trabalho: a dor abafada, o acúmulo de aflição e o desejo urgente de serem ouvidos.

No cotidiano laboral, o assédio moral raramente se mostra abertamente. Em geral, manifesta-se em pequenas agressões diárias: uma repreensão humilhante perante os colegas, uma meta impossível que se torna ferramenta de punição, brincadeiras constantes que machucam mais do que divertem, o isolamento sutil, o desprezo mascarado de exigência.
Consiste numa ação contínua e planejada, que visa desestabilizar o trabalhador emocionalmente, minar sua autoconfiança e, gradualmente, conduzi-lo ao adoecimento. O impacto é considerável: ansiedade, depressão, crises de pânico, insônia e até ideações suicidas estão entre as consequências mais comuns.
Na busca incessante por alta performance, essa violência ganhou novas roupagens. A cultura do “entregue ou vá embora” transformou as metas em armas, e os líderes em agressores. Em muitos casos, chefes tóxicos e empresas obcecadas por resultados se esquecem que por trás dos números existem pessoas — com limites, sentimentos e dignidade.
Apesar da seriedade do problema, o combate ao assédio moral ainda encontra obstáculos, principalmente quando a vítima não tem apoio para denunciar. Contudo, a responsabilização do agressor é viável e prevista em lei. Nas empresas, a investigação de denúncias pode resultar em advertências, suspensões e até demissão por justa causa. Juridicamente, o agressor pode ser obrigado a pagar indenizações por danos morais e, dependendo da situação, responder criminalmente por injúria, difamação, perseguição ou constrangimento ilegal.
Ademais, a trajetória profissional também sofre. Empresas com cultura organizacional mais forte e políticas de complacência rigorosas têm sido mais seletivas na contratação e manutenção de funcionários. Cada vez mais, atitudes abusivas deixam rastros que comprometem carreiras.
Em Sergipe, a luta contra o assédio moral é amparada legalmente desde 2004, com a aprovação da Lei Estadual nº 5.420, do então deputado Francisco Gualberto. A lei prevê medidas e punição para essas práticas no serviço público estadual, reconhecendo que o dano não afeta apenas o indivíduo, mas prejudica o funcionamento das instituições.
É fundamental que esse tema seja tratado com a seriedade que exige. Assédio moral não é “mimimi”, nem “falta de preparo emocional”. É uma forma de violência que precisa ser reconhecida, enfrentada e punida.
Porque quem assedia não lidera, não instrui, não inspira ninguém.
Sua atitude é de puro ataque.
Movido por vaidade, insegurança ou puro abuso de poder, o assediador transforma o sofrimento do outro em ferramenta de dominação.
Mas os tempos mudaram — e continuam mudando.
O silêncio que antes sufocava começa a ser rompido.
Ambientes tóxicos estão sendo expostos.
As vítimas estão encontrando espaço, coragem e escuta.
E para quem ainda se esconde atrás de cargos e portas fechadas, fica o recado:
O que hoje é praticado no silêncio, amanhã poderá ser julgado à luz do dia.
Emanuel Rocha é historiador, coautor dos livros Bacias Hidrográficas de Sergipe, Unidades de Conservação de Sergipe e Bairro América: A saga de uma comunidade. Também atua como repórter fotográfico e poeta popular.




