Por Emanuel Rocha: “ A Fabricação do Herói e o Alvo de Sempre”!

Emanuel Rocha

Um herói que faz fama esmagando o fraco, foge dos poderosos e ainda é aplaudido por quem pode ser a próxima vítima

De tempos em tempos, ele aparece, não surge do nada, vem do cansaço de uma sociedade machucada, do medo nas ruas, da sensação de que tudo está fora de controle. Chega com fala firme, prometendo ordem, segurança e justiça, e em momentos assim muita gente acredita, porque quando o medo cresce qualquer promessa de controle parece solução.

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Esse herói aponta o dedo, manda prender e, muitas vezes, ele mesmo puxa o gatilho, sempre sob aplausos de parte da população, vendendo a ideia de que está limpando o mal e colocando tudo no lugar.

Mas esse herói não é exatamente o que parece, ele é mais imagem do que coragem, mais atuação do que justiça, um personagem bem montado que fala duro, mas segue uma lógica antiga, a de escolher quem pode ser alvo e quem deve ser poupado. Basta olhar com atenção e o padrão aparece, as pessoas atingidas quase sempre são as mesmas, moradores da periferia, negros, pobres, rostos que se repetem nas notícias, nas prisões e nas mortes.

Na periferia ele age rápido, entra, prende, aponta, atira. Tudo vira espetáculo, cada ação vira manchete e reforça a imagem de que algo está sendo feito. Mas quando o caminho leva até gente poderosa, tudo muda, a ação fica lenta, a coragem diminui. Os grandes nomes e os crimes de quem tem dinheiro e influência quase nunca aparecem, porque não dão o mesmo retorno nem o mesmo aplauso.

Esse herói escolhe o alvo mais fácil porque ali tem menos risco e mais visibilidade, enquanto quem tem dinheiro, bons advogados e poder consegue escapar. E isso não acontece por acaso, esse tipo de herói também age por interesse próprio, cada ação ajuda a construir sua imagem, a ganhar espaço e crescer politicamente. A luta contra o crime vira vitrine e a dor dos outros vira degrau.

E o mais preocupante é quem aplaude. Muitos dos que defendem esse tipo de herói vivem na mesma realidade de quem sofre com essas ações. São trabalhadores, moradores da periferia, gente que conhece de perto a vulnerabilidade, mas, ainda assim, acredita que está protegida. Acham que nunca serão confundidos, que nunca estarão no lugar errado, que o alvo é sempre o outro. Não percebem que, dentro dessa lógica, basta estar no lugar certo, na hora errada, para também virar número, virar manchete, virar mais uma peça no mesmo roteiro.

Só que essa segurança é frágil. Quando se aceita uma justiça sem regra, se fortalece um sistema que não diferencia aliado de alvo. Hoje é o vizinho, o jovem da rua, alguém da comunidade. Amanhã pode ser qualquer um que não tenha dinheiro, nome forte ou defesa.

Esse salvador da pátria não resolve os problemas de verdade, ele cria uma aparência de solução, faz barulho, chama atenção, mas não muda a raiz das coisas. E enquanto a sociedade continuar esperando por heróis, em vez de cobrar justiça de verdade, ele vai continuar aparecendo, sempre pronto para o aplauso, sempre atrás do alvo mais fácil, mantendo o palco aceso enquanto a vida real segue no escuro.

E no fim, quando a luz do palco se apaga e o barulho dos aplausos some, sobra a pergunta que ninguém quer encarar, quem é o próximo? Porque esse herói não protege, ele escolhe, e quem acha que está do lado seguro talvez só ainda não tenha sido escolhido. A plateia de hoje pode ser a vítima de amanhã. E quando isso acontecer, talvez seja tarde demais para perceber que nunca houve salvador, só um herói de pano sustentado pelo medo, pelo silêncio e pela ilusão.

 

* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor  e repórter fotográfico

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