‘Parcela da população parece insensível à pandemia’, diz Mércia Feitosa

Há dez meses à frente da Secretaria de Estado da Saúde (SES), a enfermeira Mércia Feitosa desperta todos os dias com a missão de proteger-se da covid-19, mas também assegurar os cuidados médicos necessários aos sergipanos acometidos pela doença. Antes mesmo de assumir a pasta, em maio do ano passado, ela já participava da gestão da crise sanitária como diretora de Vigilância em Saúde da SES. Ao longo das mais de duas décadas no serviço público acumula a experiência de outras crises sanitárias e, nesta entrevista exclusiva ao F5News, faz uma avaliação da situação epidemiológica do estado, um ano após a confirmação do primeiro caso, e ainda expõe sua percepção a respeito das principais nuances da pandemia.

F5News – Quando a senhora ouviu falar sobre a covid-19 e em que momento percebeu que se tratava de uma doença grave?

Mércia Feitosa – Desde o final de 2019 a descrição dos casos de Wuhan (China) já trazia uma preocupação, principalmente quando houve a confirmação que essa nova doença tinha como causador um “novo coronavírus”.  Até o século passado, os coronavírus não eram considerados agentes infecciosos importantes para saúde humana, mas em 2002 eles causaram um surto na China de doenças respiratórias graves (SARS) e em 2012 causaram outro surto na Arábia Saudita (síndrome respiratória do Oriente Médio).  Esses dois surtos foram localizados e não houve uma disseminação significativa no mundo. Mas a gravidade da situação e do que viria pela frente ocorreu quando começaram a ser relatados casos na Europa, pois aí já havia uma grande possibilidade de disseminação mundial.

“Parcela da população parece insensível a tudo isso e vive procurando burlar as normas, criando e frequentando aglomerações clandestinas.”

F5 – Com as informações disponíveis hoje sobre a doença, como a senhora avalia a condução da crise sanitária e o que faria diferente? 

Mércia – É importante que todos entendam que as medidas indicadas pela Ciência nunca foram aleatórias, foram baseadas nas experiências com epidemias e pandemias prévias, e no que se conhece de vírus que possuem as mesmas formas de transmissão. Medidas mais enérgicas de distanciamento social e fechamento de fronteiras poderiam ter limitado essa transmissão, pois hoje sabemos que o número de portadores assintomáticos é maior do que os que adoecem, e que a circulação das pessoas favorece a disseminação do vírus. Um fato que aprendemos foi a importância do uso de máscaras pela população, e que no início não recomendávamos de forma ampla, e hoje é um item de primeira necessidade para todos.

 

 

F5 – Como a senhora vê a situação da pandemia hoje no estado e o que pode ser feito?

Mércia  O cenário da pandemia da Covid-19 é bastante dinâmico, no mundo e aqui no estado. Atualmente, quando comparamos com outros estados, apresentamos uma tendência de queda do número de casos, mas depois de quase duas semanas de queda na média móvel dos óbitos, voltamos a apresentar estabilidade. Outro aspecto importante a ser considerado é que o estado tem passado na última semana por aumento dos casos internados, principalmente na rede particular. Enquanto vários estados já têm sua rede do SUS com os leitos de UTI ocupados quase na sua totalidade, essa ocupação está em média de 80% nas últimas semanas. Então, apesar de não estarmos vivendo num cenário explosivo de casos e óbitos, temos uma transmissão ativa da doença, que tem levado à ocorrência de casos graves que precisam de internação, o que tem aumentado a taxa de ocupação hospitalar.

“Em suma, a pandemia não acabou, nem está perto disso, precisamos adotar medidas diárias para manter a taxa de transmissão o mais baixa possível.”

F5 – O quanto a senhora considera que a disseminação de fake news ou de informações distorcidas atrapalhou o combate à pandemia?

Mércia – Se nunca tivemos uma produção científica tão rapidamente divulgada, também tivemos muitas informações equivocadas espalhadas com extrema velocidade. A pandemia de desinformação e falsas informações pode ter causado a perda de muitas pessoas, que se negaram a acreditar que a doença era potencialmente grave, que é importante usar máscara e que não existem tratamentos milagrosos. E ainda hoje sofremos com pessoas que ainda negam a existência da doença e a importância da vacinação.

F5 – Hoje, um ano depois, o que temos, de fato, comprovado sobre o tratamento contra a covid?

Mércia – Hoje, muito se sabe sobre o tratamento da Covid-19, inclusive que nenhum dos considerados “tratamentos precoces” com drogas antiparasitárias mudam o curso da doença. Mas que é importante a identificação precoce da doença e de fatores individuais que possam aumentar o risco de formas graves (como a idade acima de 60 anos, a presença de outras doenças) e o acompanhamento da evolução, da saturação do oxigênio e do aparecimento de infecções secundárias que podem piorar a evolução clínica. Além disso, o uso de antiinflamatórios esteróides para aqueles pacientes que evoluem com necessidade de oxigenioterapia proporciona um aumento da sobrevida.

F5 – Após um ano, o que mais preocupa a senhora em relação a esses próximos meses de pandemia?

Mércia – Alguns fatos preocupam, como a grande capacidade de mutação do vírus e a disseminação de novas variantes, que podem proporcionar novas ondas. Mas ultimamente a falta de envolvimento da sociedade no combate à transmissão do SARS-CoV-2 tem me preocupado bastante, pois apesar dos óbitos diários e da grande crise sanitária mundial, parcela da população parece insensível a tudo isso e vive procurando burlar as normas, criando e frequentando aglomerações clandestinas.

F5 – O que fica de maior aprendizado?

Mércia – O principal aprendizado é que os países que investem na ciência, na educação e na saúde conseguem enfrentar as grandes calamidades de maneira mais efetiva. Outra lição para todos nós é o quanto precisamos investir em sistema de saúde universal, pois o SUS tem demonstrado que, apesar de todas as dificuldades, tem sido fundamental para oferecer assistência à população. Espero que essas lições façam com que nós, os brasileiros, defendamos o investimento na ciência e no SUS.

 

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Edição de texto: Monica Pinto

Por Will Rodriguez

Via F5News

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