O preço da fome: a realidade de famílias sem acesso ao gás de cozinha

Na casa da dona Lídia, no conjunto Augusto Franco, na zona Sul de Aracaju, como se diz no popular, são ‘23 bocas para alimentar’ na hora do almoço. Ela convida a reportagem do Jornal Fan F1 para entrar na sua residência. Entre os corredores da casa, os netos da idosa fazem uma folia danada com brincadeiras triviais da infância. No meio de todo esse rebuliço, um novo elemento da cozinha da matriarca da casa chama a atenção: um fogão alimentado a carvão, improvisado em uma lata de tinta e cerzido com barro internamente. “Um saco de carvão tá bem mais barato que o botijão de gás”, anuncia Lídia.

Por coincidência, durante a visita da nossa reportagem, dona Lídia preparava uma remessa de milho cozido na panela de pressão, utilizando o fogão artesanal. Dali também são preparados alimentos como feijão, arroz, carne, e até um simples cafezinho que não pode faltar na mesa da matriarca. “Já testei até comida em frigideiras. Dá para fazer de tudo aqui. O bom do carvão, se comparado ao forno de lenha, é que não faz fumaça”, destaca.

Dona Lídia cozinha milho no momento da entrevista

No outro extremo da cozinha da dona Lídia, com um olhar um tanto enciumado, o fogão convencional, à base de botijão de gás, vai se tornando cada vez mais ocioso. Embora a modernização dos lares e móveis indiquem que os fogões metálicos são os mais apropriados para o uso doméstico, a realidade social de muitas famílias permite que métodos alternativos de preparo dos alimentos voltem à tona como nunca, como o uso de fornos à base de carvão e lenha. “Como minha casa tem muita gente para comer, a gente chegava a usar dois botijões de gás por mês. Desde que o meu filho preparou o fogão a carvão, estamos economizando um botijão no mês”, conta dona Lídia, que pretende adotar de vez o novo elemento da cozinha.

A fuga do método tradicional de cozimento dos alimentos é reflexo de uma alta do preço do gás de cozinha, que já chega a 50% somente em 2021. Um botijão convencional de 13 kg tem custado em torno de R$ 100 nas revendedoras. “A Petrobras enche um botijão por cerca de R$ 40, mas tem o frete, tem o lucro da revendedora e outros custos que incidem sobre o valor. O botijão chega a cerca de R$ 100 porque o ICMS do Governo (Estadual) é de 50%, e é sempre muito difícil o Governo rever esse percentual, porque esse é um dinheiro que entra no livre no Governo para gastar com o que bem entender”, explica o economista sergipano Neidázio Rabelo.

Assim como outros produtos derivados do petróleo, a exemplo da gasolina e diesel, o gás de cozinha vem acumulando altas no seu preço nos últimos anos, seguindo parâmetros do mercado internacional. A conta tem pesado com mais vigor na ponta dessa cadeia, em consumidores de baixa renda, muitas vezes assalariados que não viram seu orçamento acompanhar os reajustes do gás e de tantos outros produtos da cozinha. “O pobre hoje não consegue comprar um botijão de gás, porque custa 10% do salário mínimo. Poderia custar metade disso, por causa do ICMS. Então a atual situação obriga as pessoas se arriscarem fazendo comida com lenha, álcool, carvão. O cozimento não sai de maneira correta, prejudica a alimentação, além do risco de se queimar gravemente, incluindo casas com presença de crianças”, alerta Neidázio.

Essa realidade se comprova a alguns quilômetros da casa da dona Lídia. Ainda na zona Sul de Aracaju, só que agora no bairro Santa Maria, o próprio acesso à ocupação Valdice Teles, do MTST, já é um prenúncio dos inúmeros problemas estruturais em que as 300 famílias que fazem parte da ocupação convivem ali. Por lá, botijão de gás é elemento de luxo e há meses não aparece na comunidade.

Na ocupação, o fogão tem a função de armário

“Aqui somos todas famílias carentes, não temos condições de comprar um gás hoje. O auxílio que a gente recebe hoje já não vale mais nada. Se fosse para comprar (o botijão), teríamos que escolher entre comida ou o gás. Eu não trabalho, não tenho quem me ajude, dependo desse auxílio, e é muito pouco, passamos muita necessidade. A alternativa é cozinhar com lenha aqui”, conta Ana Maria, mãe de dois filhos e moradora da ocupação.

O lugar onde crianças disputam uma improvisada partida de futebol, em alguns momentos do dia vira uma grande cozinha a céu aberto. Um grupo de moradores ajuda na separação de madeiras secas, para usar como lenha, enquanto outro grupo se debruça no preparo das refeições. Com auxílio de pedras e blocos, eles fazem um grande fogo para cozinhar os alimentos. As chamas do fogão improvisado ficam próximas aos barracos e de materiais inflamáveis, mas a fome é maior do que qualquer medo.

A realidade social dentro da ocupação também não permite às famílias um cardápio variado. “Eu não sei o que é comer uma carne há meses. O que a gente mais come é ovo, um salame, uma salsicha, essas coisas. Quando dá, a gente come uma galinha. Quando não dá, é ovo mesmo. A parte boa é essa que vocês tão vendo, todos se ajudam na cozinha coletiva, na montagem do fogo a lenha, para que toda população da ocupação possa comer”, conta a moradora.

O coordenador da ocupação, Diego Teles, que mora com os filhos em um barraco no local, mostra preocupação com o acesso a alimentos básicos. “A dificuldade só tem piorado. Não foi só o gás que subiu bastante, os alimentos também estão muito caros. O jeito é cozinhar de lenha. Definitivamente é um ano muito difícil. O que nos salva são as doações, porque sempre têm pessoas com sensibilidade, que fortalecem a gente com algum tipo de ajuda”, comenta.

Enquanto a realidade dos preços de produtos básicos não vislumbra dias mais tranquilos, um alerta já se acende nos hospitais públicos. Na Unidade de Tratamento de Queimados (UTQ) do Hospital de Urgência Governador João Alves Filho (Huse), já há casos de pessoas gravemente feridas durante o preparo de alimentos com métodos alternativos de cozimento. “O que mais tem me preocupado é a junção da cozinha e o álcool. Na semana passada, uma mulher grávida de sete meses se queimou cozinhando com álcool. Houve outro caso de uma mãe e filho que ficaram feridos. Sempre são queimaduras graves, já tive caso de um homem que praticamente perdeu a mão”, relata a médica Moema Santana.

Em muitos casos, algumas famílias têm usado pequenos fogareiros, com álcool, para preparar alimentos e economizar no gás de cozinha. O método artesanal carrega uma série de riscos como explosão, acidentes com queimaduras e até o preparo irregular do alimento. Mas, como dizer não, quando a fome fala mais alto?

Por Ícaro Novaes

https://fanf1.com.br/cidades/2021/08/22538/o-preco-da-fome-a-realidade-de-familias-sem-acesso-ao-gas-d.html

 

 

Home

Deixe uma resposta