Em tempos de crise no turismo, otimizar recursos, avaliar investimentos e, sobretudo, socorrer a engrenagem que faz funcionar o setor são medidas imprescindíveis nos âmbitos público e privado. A pandemia provocada pela Covid-19 tem submetido o trade turístico a uma crise sem precedentes, onde hotéis estão esvaziados, as agências de turismo reduziram sua operação, e tantos outros efeitos cascatas que têm atingido cada um dos empresários e profissionais do setor, como as próprias restrições sanitárias de combate ao vírus.
Mas, a crise no turismo vem antes mesmo da pandemia, numa herança de más gestões do setor turístico no Estado. Nos últimos anos, os pedidos de socorro do trade turístico se sucederam, com apelo para investimento na infraestrutura dos cartões postais sergipanos e, principalmente, na divulgação do destino Sergipe em outros estados e até no exterior.
Apesar do apelo para que houvesse investimentos, o caminho, no entanto, foi inverso. Em 2018, Sergipe ‘enterrou’ a possibilidade de aplicar cerca de R$ 170 milhões no turismo sergipano, quando deixou encerrar o contrato de empréstimo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID, no valor de US$ 60 milhões (R$ 232,8 com a cotação do dólar na época), sem aproveitar a totalidade dos recursos por falta de projetos que atendessem à matriz do contrato.

O Portal Fan F1 foi buscar depoimentos e detalhes desse processo de más gestões e interferências políticas que fizeram Sergipe perder uma fortuna em investimentos – recursos que poderiam ser um alívio para um setor que já agonizava antes mesmo da pandemia. Nossa reportagem conversou com ex-gestores, políticos e técnicos que acompanharam todo processo.
Um contrato para repaginar o Turismo em Sergipe
A candidatura de Sergipe ao contrato de empréstimo com o BID começou ainda em 2007, encabeçada pelo então governador Marcelo Déda, em seu primeiro mandato. Em viagem internacional, acompanhado dos secretários de estado do Desenvolvimento, Jorge Santana, e Turismo, João Augusto Gama, Déda começou a costurar o acordo com a instituição mundial, atendendo aos inúmeros critérios exigidos pelo banco para disponibilizar os recursos.
“O nascedouro do projeto foi nesse primeiro governo de Déda, eu me recordo que foi a primeira viagem internacional dele à frente do Governo. Na época, eu e Gama fomos acompanhando. Agora foi um trâmite que demorou muito, a assinatura (do contrato) só veio no segundo governo de Déda, até porque o projeto era grande e pelo valor que envolvia”, relata o ex-secretário Jorge Santana, em rápido contato com o Portal Fan F1. O contrato só foi finalmente firmado em dezembro de 2013, quando o governador sergipano já era Jackson Barreto (após a morte de Déda), e a pasta do Turismo era comandada por Élber Batalha.
Élber lembra as exigências do banco para poder efetivar o contrato. “O BID é um banco muito técnico. Quando cheguei, eu era secretário do Turismo, e tinha Zé Roberto como adjunto, que é um cara muito técnico, doutor do turismo. Montamos uma equipe técnica muito boa, com o professor Joab, Sergio Oliveira. Para você aprovar um projeto no BID, ele precisa atender ao cunho do desenvolvimento turístico. Se você investir em um turismo milionário, em um local que não tiver fluxo turístico ou for um projeto meramente político, o BID não paga”, comenta.
E foi com essa equipe técnica que, segundo Élber, o contrato com matrizes de desenvolvimento do turismo para Sergipe foi aprovado. Eram US$ 60 milhões em financiamento pelo BID, a juros quase zerados, mais US$ 40 milhões em contrapartida do Governo de Sergipe, dentro do programa Prodetur, para desenvolver o turismo de praias, ecoturismo e o turismo cultural na área da Costa dos Coqueirais e na área do rio São Francisco.
A proposta incluía também investimentos para recuperação e modernização de circuitos culturais, museus, centros de cultura, locais panorâmicos e mercados de artesanato tradicional, além da demarcação e proteção de ecossistemas de dunas e estuários. Todo projeto contemplava uma estratégia de marketing e promoção do turismo, com plano de gestão ambiental para reduzir a erosão na linha costeira estadual e atividades de fortalecimento institucional.
Sucessivas mudanças e más gestões no Turismo ‘deixaram’ projeto de lado
Após a assinatura do contrato, Sergipe tinha cinco anos para dar início às obras dos projetos com matrizes aprovadas pelo BID – mas poucos avançaram e as sucessivas mudanças na gestão do Turismo acabaram prejudicando o andamento dos projetos.
Enquanto vigorava o contrato de empréstimo com o BID, até dezembro de 2018, seis gestores passaram pela pasta do Turismo. Élber Batalha (2013), Adilson Júnior (2014-2016), Saulo Eloy (2016), Fábio Henrique (2017-2018), Cincinato Júnior (2018) e Manelito Franco (2018-2019).
Aliados do Governo, na época, e gestores da pasta por indicação política, a maior parte desses secretários foi duramente criticada pelo trade turístico pela falta de ações efetivas que desenvolvessem o setor.
“O problema aqui em Sergipe sempre foi essa falta de continuidade das políticas para o turismo. A Bahia passou 10 anos se planejando, Ceará fez a mesma coisa, e tantos outros estados aqui do Nordeste que respiram o turismo. O que a gente sempre enalteceu aqui é a importância de ter um turismólogo na Secretaria. Na maioria das vezes se coloca pessoas de indicação politica que não sabe fazer a captação ou não entende as necessidades do setor”, critica Irma Karla, que representa o sindicato dos guias de turismo de Sergipe.
O contrato com o BID acabou vencendo em dezembro de 2018. Segundo a Secretaria de Estado do Turismo (Setur), R$ 60 milhões chegaram a ser aplicados em 33 contratos entre obras, consultorias, estudos, capacitação e planejamento de marketing. Cerca de R$ 173 milhões, considerando o câmbio do dólar em 2018, deixaram de ser aproveitados por Sergipe.
De acordo com uma fonte ouvida pelo Fan F1, das obras que foram executadas, apenas três se destacam: a Orlinha do município de Canindé do São Francisco, o atracadouro da Ilha de Mem de Sá, em Itaporanga D’Ajuda, e o esgotamento sanitário do povoado Castro, em Santa Luzia do Itanhy.
A insatisfação com o desempenho no turismo chegou a estourar dentro da administração pública, embora apenas no governo de Belivaldo Chagas, em 2019, quando o gestor decidiu demitir Manelito Franco e apostar em Sales Neto, então Secretário de Comunicação. Desde então Sales comanda a pasta do Turismo.
Questionado por que Sergipe não aproveitou a totalidade dos recursos disponibilizados pelo BID, Sales disse que a atual gestão até tentou novo prazo para aproveitar os recursos. “Quando eu cheguei na Secretaria de Turismo, foi praticamente para prestar contas, não poderia mais aplicar os recursos. Em 2018, logo após assumir o Governo, Belivaldo tentou estender o prazo com o presidente do BID, em Brasília, mas ele disse que não seria possível porque o recurso já estava disponível há cinco anos. Então tanto Belivaldo quanto eu não, não tivemos a possibilidade de executar esses recursos”, explica Sales.
O atual gestor do Turismo de Sergipe disse ainda que desconhece os motivos que levaram os antigos gestores da pasta não aplicarem os recursos. “É uma questão que eu não tenho conhecimento. É preciso perguntar a eles”, pontua Sales.
Interferência política e lobby com os recursos do BID
“A politização do negócio atrapalhou os projetos”. Foi com essa frase que uma fonte do Fan F1 categorizou o desandar do programa em Sergipe, durante o governo de Jackson Barreto. Na iminência de disputar a reeleição, Jackson Barreto teria tentado alterar a matriz de alguns projetos do programa para atender obras a pedidos de prefeitos. “Jackson começou a vincular as obras à reeleição dele, atender prefeitos com dinheiro do Prodetur. Fizeram política com o Prodetur”, relata.
Um desses ‘projetos políticos’ seria a tentativa de construir uma estrada em Nossa Senhora de Lourdes, cidade fora do eixo turístico do estado. Com essas investidas que fugiam da matriz original do contrato, o BID começou a travar os recursos para Sergipe e, a partir desse momento, se desenhava o declínio do projeto.
“Pediram mudanças nos projetos que o próprio banco percebeu que tinha cunho político-eleitoral. O BID pediu dados de fluxo turístico de locais como Nossa Senhora de Lourdes, e simplesmente eles não tinham”, revela.
As auditorias externas e o rigor do BID para critérios do contrato também acabaram afastando o interesse nos projetos do Prodetur.
Recursos que fazem falta
Enquanto Sergipe só conseguiu aproveitar 25% do recurso disponibilizado no contrato com o BID, o estado do Ceará, que fez um empréstimo no mesmo valor com o BID, em 2005, em cinco anos de contrato, conseguiu aproveitar 91% dos recursos, criando novas rotas turísticas e modernizando às rodovias que levam a destinos turísticos no interior cearense.
Para Irma Karla, os recursos farão falta em áreas com potencial, mas com o turismo em situação de precariedade. “Teríamos muitos locais para investimento. Cito os atracadouros do litoral, como o do Iate Clube, que continua abandonado e já virou até abrigo para morador de rua. Poderíamos ter investimento na Ilha do Ouro, em Poço Redondo, na Rota do Cangaço, no próprio município de Pirambu, que está abandonado. Para o turismo, não resta duvidas, a gente vive sendo patinho feio do Nordeste”, critica.




