Luara Batalha: “O balão mágico do reconhecimento”

Reconhecer: “Conceber a imagem de uma coisa, de uma pessoa que se revê: reconhecer um amigo de infância”
Dicionário Online de Português

Em meados de 2009 foi lançado o filme Os Normais 2 – A noite mais maluca de todas, com Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães. Fui ao cinema assistir a obra tão bem recebida pelo público e, eis que, em determinado momento, apareceu no telão a seguinte pergunta: “Sabe o que dá o cruzamento de um bicho-preguiça com um ser humano?”. Lembro da expectativa de todos para descobrir a resposta, assim como o “oh” generalizado e o ardido silêncio mantido por minutos após a divulgação da resposta “um baiano de suéter”.

Esse tipo de situação está longe de ser pontual e pode ser estendida a diversos seguimentos de nossas vidas. Cresci justificando momentos como esse, sempre os enquadrando nas caixinhas da normalidade. Minha lembrança mais antiga sobre o tema é a de buscar entender o motivo de todas as bonecas interessantes serem loiras.

Este questionamento foi logo desprezado, sendo considerado apenas um aborrecimento infantil. Mais tarde, me perguntei quem seriam os baianos que ensinavam o meu sotaque aos atores globais, já que não falo da forma representada por eles nas novelas, mas, novamente, descartei este incômodo, me forçando a acreditar que, talvez, a emissora não contratasse pessoas capacitadas.

No início dos meus vinte anos, a explicação criada por mim para o comentário de que eu não era baiana porque não sou negra foi a falta de conhecimento do indivíduo que me abordou. Até aquele momento não havia me dado conta de que estava, todo este tempo, lidando com estereótipos.

Esses exemplos são situações em que não me senti representada, apesar de ter crescido vendo mulheres brancas bem posicionadas em novelas e livros. O que me levou à seguinte reflexão: quais foram os personagens negros e não estereotipados que marcaram a minha infância e adolescência? Nenhum, porque todos que me vem a mente são caricaturas depreciativas.

Em seu livro Pequeno Manual Antirracista, Djamila Ribeiro traz exemplos, retirados do livro de Adilson Moreira[1], de personagens negros estereotipados, como o bêbado (Mussum), o homossexual promíscuo (Vera Verão) e o feio (Tião Macalé). Enquanto assistia a nordestinos serem tratados como inferiores nas novelas, o que já é bem ruim, as crianças negras só viam como referência de futuro os párias da sociedade (imagine então ser nordestino e negro). Lázaro Ramos (sim, nosso querido baiano global), em seu livro Na Minha Pele, comenta que seu super-herói preferido na infância era Jairzinho do Balão Mágico, por ser um dos poucos negros que apareciam na TV na época.

Claro que percebemos uma mudança gradual no cenário. Em 2010 foi lançado um novo Karatê Kid, com Jaden Smith, o filho de Will Smith, como principal. Outro exemplo mais atual, de 2019, é o jovem negro Miles Morales, do desenho animado Homem-Aranha no Aranhaverso. Mas, nenhum deles teve tanto impacto como o filme em que o elenco é formado basicamente por pessoas negras e que o personagem principal é um rei, Pantera Negra (2018). Para muitos, foi a oportunidade de ver sua cultura de alguma forma representada, assim como seus semelhantes em posição de destaque. Os personagens eram fortes não pela vida sofrida, mas simplesmente por assim serem e se enxergarem também desta forma.

O falecimento do ator Chadwick Boseman, o Pantera Negra, no dia 28 de agosto, foi uma perda inestimável. Diferente do que ocorre quando pessoas jovens falecem, em que toda a compaixão gira em torno do óbito prematuro, a comoção com a sua partida está bastante pautada em representatividade. Diversos são os relatos do sofrimento dos fãs com a morte do ator, assim como sua influência, e a do seu personagem, na vida de crianças e jovens negros.

Esse é o seu legado, Chadwick Boseman. Wakanda Forever!

[1] Racismo Recreativo de Adilson Moreira. Editora Pólen, 2019.


Luara Batalha
@_virandopaginas
Com sangue sergipano, sotaque baiano e mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é engenheira civil, mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Sempre dedicou parte do seu tempo a expressões artísticas e desde cedo se descobriu uma leitora voraz, mergulhando em leituras de diversos estilos. Apaixonada pelas letras, atualmente trabalha no seu primeiro romance.

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