“Temos 200 anos de história da renda irlandesa por aqui. No Brasil, ela passou por um processo de tropicalização”
5/7/2026-8h
De uns tempos pra cá, os sergipanos têm se acostumado a ver um incessante desfilar de ideias e de entusiasmo do advogado Jorge Teles, 46 anos, enquanto defensor do emprego, da empregabilidade de pessoas e o desempenho do setor público nessa esfera.
Jorge Teles faz isso inclusive na escrita – ele é um dos articulistas deste Portal JLPolítica & Negócio e tem publicado textos muito e seguros e significativos na grade deste veículo.
Tudo isso soa mais do que natural, sendo ele um secretário de Estado do Trabalho, Emprego e Empreendedorismo – que é a função atual de Jorge em Sergipe.
Esse entusiasmo de Jorge Teles, no entanto, tem vazado para algo bem sensível e ele tem se convertido num padrinho produtivo de uma categoria profissional importante em Sergipe, mas que estava abandonada: a dos mestres artesãos. Que ele os vê naturalmente como trabalhadores.
Na verdade, Jorge tem sido o fiel representante de uma política de Estado que decidiu potencializar esses profissionais e seu produto – o artesanato. E aí Jorge Teles tem seu DNA bem impresso na belíssima publicação “O Sublime Ofício das Mãos, Mestres e Mestras do Artesanato Sergipano”, um livro de quase 200 páginas, de capa dura, todo em cores e com texto bilingue publicado neste mês de junho.
Numa tiragem bem caprichosa, ali estão bem capturadas e editadas a vida e a obra de 15 das mais expressivas figuras do artesanato de Sergipe. É um trabalho feito em mutirão, do qual Jorge não é o autor. Mas um entusiasta crônico.
“O grande objetivo desse trabalho é garantir que o sergipano tenha uma fonte de pesquisa para conhecer os seus heróis numa área importante e injustiçada”, garante Jorge Teles.
“Estamos homenageando neste livro 15 mestres artesãos, reconhecendo suas histórias, a ancestralidade, toda a cultura que existe materializada nas peças por eles produzidas, e que representam o que Sergipe produz de melhor. Estamos garantindo a difusão desse conhecimento e homenageando mestres enquanto estão vivos e podemos nos dirigir diretamente a eles”, reforça.
O bom é que “O Sublime Ofício das Mãos, Mestres e Mestres do Artesanato Sergipano” não é uma inciativa única ou algo que vem sozinho. Ele faz parte de um movimento que quer ser duradouro e causar impactos positivos.
“Isso faz parte de um projeto muito maior. O governador Fábio Mitidieri assinou na semana passada a ordem de serviço para a construção da primeira Casa do Artesanato Sergipano, que vai ser na Orla de Atalaia, num investimento de mais de R$ 10 milhões entre construção e estruturação do espaço”, informa Jorge.
“Nós vamos fazer todo um processo de curadoria, vamos receber essas peças e vamos comercializar para o artesão para que ele possa focar no que ele faz de melhor, que é produzir. Ele não precisará se deslocar diariamente para comercializar suas peças. Nós teremos também Casas do Artesanato em todas as oito regiões do Estado do Sergipe. Precisamos reconhecer e proteger nossos mestres artesãos”, diz.
“O sergipano está aprendendo a respeitar a sua história e a ser mais barrista a partir dessas intervenções continuadas que o governador Fábio Mitidieri vem fazendo com a realização de grandes eventos, com a valorização dos artistas locais, com o fortalecimento de todo esse processo da economia criativa que envolve os artistas musicais, os artistas visuais”, diz o secretário.
Por falta de uma maternidade em Areia Branca, Jorge Elias Menezes Teles nasceu em Aracaju no dia 14 de dezembro de 1979. Mas todos os laços familiares e a criação dele foram em Areia Branca. Já foi secretário municipal por lá.
Ele é filho de Luiz Gonzaga da Silva Teles e de Maria Lúcia de Menezes Teles e é casado com a advogada Tiana Figueiredo Teles. Jorge é pai de Nina Figueiredo Teles, 12 anos, e de Bento Figueiredo Teles, 6 anos.
Jorge Teles é formado em Direito pela Faculdade Estácio/Fase, em 2014, é secretário de Estado do Trabalho, Emprego e Empreendedorismo de Sergipe, mestre em Administração Pública pela FGV, doutorando em Administração Pública pelo IDP.

Seán Hoy, embaixador da Irlanda para o Brasil e a América Latina em visita a Divina Pastora em busca do elo perdido com a renda originada em seu país
Atua nas áreas de desenvolvimento econômico, mercado de trabalho, políticas públicas, governança e inclusão produtiva e é um camarada bem relacionado na estrutura do Governo.
“O livro homenageia 15 mestres e mestras do artesanato de diversas tipologias, passando pela renda irlandesa, pela arte em pedra, em madeira, em couro, tecelagem de redes, a renda de bilro também e pelo artesanato de barro de Santana de São Francisco”, diz.
A Entrevista com Jorge Teles merece ser lida.
JLPolítica & Negócio – O que é que o sergipano recebe de importante neste “O Sublime Ofício das Mãos, Mestres e Mestres do Artesanato Sergipano?”. A que se destina esse trabalho?
Jorge Teles – O grande objetivo desse trabalho é garantir que o sergipano tenha uma fonte de pesquisa para conhecer os seus heróis numa área importante e injustiçada. Estamos homenageando neste livro 15 mestres artesãos, reconhecendo suas histórias, a ancestralidade, toda a cultura que existe materializada nas peças por eles produzidas, e que representam o que Sergipe produz de melhor. Então, estamos reconhecendo o passado, garantindo a difusão desse conhecimento e homenageando mestres enquanto estão vivos e podemos nos dirigir diretamente a eles, cada um com sua obra que demonstra toda a grandiosidade da vida que eles tiveram em favor da manutenção do nosso artesanato.JLPolítica & Negócio – Mas o “O Sublime Ofício Das Mãos” resgata somente gente contemporânea?
JT – Sim. “O Sublime Ofício Das Mãos” busca os nossos mestres artesãos históricos. Estão todos vivos e temos nesse bloco uma artesã com 28 anos, que é rendeira de Divina Pastora e uma das lideranças femininas que mantêm viva essa tradição e tem levado a renda irlandesa para todo o mundo. Nós reconhecemos também a importância dela como mestre artesanato, apesar de ser tão jovem.

Mestre Zeus, de notável saber, esculpindo uma obra viva: ele é um dos 15 referendados no livro
JLPolítica & Negócio – Quantas figuras do artesanato o livro captura?
JT –O livro homenageia 15 mestres e mestras do artesanato de diversas tipologias, passando pela renda irlandesa, pela arte em pedra, em madeira, em couro, tecelagem de redes, a renda de bilro também e pelo artesanato de barro de Santana de São Francisco. Esta obra passeia pelas diversas regiões do Estado do Sergipe, reconhecendo a potencialidade existente em cada uma delas.JLPolítica & Negócio – Esse livro se destina essencialmente sergipano ou tem pretensão de fazer um alcance maior para o mundo?
JT – Veja que ele já foi concebido bilíngue. Ele conta a história do artesão em primeira pessoa. Foram realizadas pesquisas e entrevistas com os próprios artesãos. O objetivo desse livro é levar as histórias desses artesãos para o mundo, fazer com que o turista os reconheça e garantir que nossos artesãos possam ocupar os melhores espaços no Brasil e no mundo. Há exemplo de Véio, que hoje tem exposição permanente na Fundação Cartier, lá em Paris, que tem rodado o Brasil e o mundo com seu artesanato em miniaturas. Ele é um precursor desse movimento e nós estamos abrindo esse mesmo caminho para que outros mestres artesãos possam mostrar como agir e produzir melhor.

Senhoras de Dublin, na Irlanda, se renderam à renda irlandesa feita em Sergipe
JLPolítica & Negócio – De Beto a Zeus, por ordem alfabética e que é a ordem do livro, o que é que as pessoas vão encontrar de novidade nesse livro entre artesão menos falado e o mais propalado?
JT – Nesse livro, o sergipano vai conseguir conhecer, unificadamente, a potência do nosso artesanato. Desde os artesãos mais conhecidos, como Beto Pesão e Zeus, a outros menos conhecidos, mas não menos importantes, como o Mestre Passos, um luthier, que produz os instrumentos da Orquestra Sinfônica de Sergipe e distribui para o Brasil e para o mundo os melhores instrumentos da música clássica, de alta sensibilidade – senhor de uma capacidade reconhecida mundialmente pelo seu talento. Nós temos o Mestre Tonho, que faz um trabalho excepcional de resistência lá no sertão, produzindo arte em madeira, representando o melhor da vida da vida e da resistência do sertanejo. Temos também o Mestre Demar e tantos outros que estão aí mostrando um pouquinho da cultura de cada uma de nossas regiões.JLPolítica & Negócio – Quem é Dona Alzira e o que ela faz?
JT – Dona Alzira é a mestre rendeira irlandesa mais tradicional de Sergipe. Ela aprendeu o ofício com a primeira geração de rendeiras e representa o maior foco de resistência da renda no Estado. Ela aprendeu com as feiras italianas que trouxeram esse ofício, com a geração seguinte evoluiu ao longo dos anos e garantiu que essa tradição se mantivesse de geração em geração, passada de avó para neta, de mãe para filha. Dona Alzira garantiu que se perpetuasse a renda irlandesa aqui no Estado de Sergipe, diferentemente do que aconteceu na Irlanda, país de origem, onde não existe mais.

A artesã Nem da Poxica, produtora da Louça Morena, assim batizada por Cecília Meireles: feliz da vida com os novos rumos da sua atividade
TECENDO UM NOVO ESPÍRITO DE SERGIPANIDADE
“O sergipano está aprendendo a respeitar a sua história e a ser mais barrista a partir dessas intervenções continuadas que o governador Fábio Mitidieri vem fazendo com a realização de grandes eventos, com a valorização dos artistas locais, com o fortalecimento de todo esse processo da economia criativa que envolve os artistas musicais, os artistas visuais”
JLPolítica & Negócio – Pela interlocução com a área, o senhor acha que o registro da renda irlandesa em Sergipe data de quantos anos hoje?
JT – Nós temos 200 anos de história da renda irlandesa por aqui. Ela é uma técnica que nasceu na Irlanda, foi trazida para o Brasil através de freiras italianas que vieram catequizar as mulheres aqui em Sergipe e que, após a grande fome na Irlanda, essa técnica se perdeu. Aqui no Brasil, a renda irlandesa passou por um processo de tropicalização, ganhou a densidade do lacê – fitilho ou cordão -, e criou uma estrutura mais densa e a característica do copiar cotidiano das mulheres. As senhoras de engenho aprenderam esse ofício, que foi passado para suas criadas, passado para a comunidade de Divina Pastora e lá se perpetuou e foi tão bem representado recentemente pela Universidade de Moda do Senai Cetiqt, que passou dois anos qualificando nossas rendeiras e apresentou agora durante os festejos juninos um desfile de moda todo concebido em renda irlandesa de maneira diferente. Eles não vieram pra cá desenhar pra que as rendeiras fizessem a coleção. Eles construíram junto com as rendeiras essa coleção. Eles ensinaram a ela toda a técnica de moda para que elas, com a sua visão de mundo, materializassem essa coleção através do seu ofício.JLPolítica & Negócio – E o que os chefes do Senai acharam delas?
JT – Acharam que elas tinham domínio da confecção da renda, mas não tinham domínio nenhum sobre moda. Então foi um processo transformador que segundo o relato das próprias rendeiras, elas passaram a produzir suas peças com foco nas pessoas que vão consumir, com foco na moda, agregando valor e permitindo a criação de diversos novos produtos, já que o tradicional entre elas era fazer toalhas de mesa, passadeiras, e hoje estão focadas em produzir moda com alto valor agregado.

Mestre Nivaldo: chancela forte na xilogravura sergipana, tem agora o trabalho potencializado com a publicação
O ARTESÃO VÉIO PRECISA SER VISTO MELHOR
“Acreditamos muito nisso. Véio esse ano é homenageado na Vila do Forró. Quem chega na Vila encontra quatro imagens que foram reproduzidas do artesão Véio em escala aumentada. São quatro imagens com quatro metros de altura. Mais de um milhão de visitantes que passarão nos 60 dias pela Vila vão conhecer o trabalho de Véio”
JLPolítica & Negócio – O senhor e algumas rendeiras já estiveram na Irlanda em eventos patrocinados pelo Governo de Sergipe. O que é que os irlandeses disseram do que é feito por aqui?
JT – No início da gestão do governador Fábio Mitidieri, quando nós identificamos a importância dessa tipologia, de onde ela vinha e toda a sua história, trouxemos a visitar Divina Pastora o embaixador irlandês para o Brasil e para a América Latina. Depois ele nos convidou para ir junto com a delegação sergipana para a Irlanda. Lá, fomos recebidos com toda a honra de Estado, como a melhor e mais qualificada delegação brasileira que visitou a Irlanda. Fizemos exposição na Prefeitura de Dublin, que é a capital da Irlanda e exposição em mais cinco espaços. Recebemos rendeiras de todo o país que foram lá reconhecer e conhecer a técnica que se perpetua aqui no Estado de Sergipe. Os principais museus irlandeses visitaram também as exposições, adquiriram peças para trazer de volta esse elo perdido que no passado se deixou de fazer na Irlanda e que se preservou aqui em Sergipe.JLPolítica & Negócio – Mas dá pra dizer que eles se identificaram com eles próprios no que é feito no Brasil?
JT – Sem dúvida nenhuma. Eles conheceram esse processo de tropicalização pelo qual passou a renda irlandesa aqui no Estado de Sergipe com a adesão do lacê ao processo de produção. Eles ficaram muito encantados. Posso dizer que todas as peças que levamos para a Irlanda foram comercializadas- o Governo Irlandês adquiriu, museus adquiriram e sem dúvida nenhuma essas peças fazem parte hoje do acervo do Governo Irlandês como uma técnica irlandesa que se espalhou pelo mundo e que permaneceu apenas no Estado de Sergipe. Essa é uma técnica que no mundo inteiro apenas 150 mulheres fazem, e todas estão aqui no Estado de Sergipe.

Governador Fábio Mitidieri e Jorge Teles abrem alas para o trabalho de Beto Pezão na Vila do Forró: visualização de mais de um milhão de pessoas
IRLANDESES SE IDENTIFICARAM COM O QUE É FEITO NO BRASIL
“Eles conheceram esse processo de tropicalização pelo qual passou a renda irlandesa aqui no Estado de Sergipe com a adesão do lacê ao processo de produção. Eles ficaram muito encantados. Posso dizer que todas as peças que levamos para a Irlanda foram comercializadas”
JLPolítica & Negócio – O senhor diria que “O Sublime Ofício das Mãos” resgata uma perspectiva de política de Estado para com a atividade do artesanato sergipano?
JT – Sem dúvida nenhuma, e isso faz parte de um projeto muito maior. Veja: o governador Fábio Mitidieri assinou na semana passada a ordem de serviço para a construção da primeira Casa do Artesanato Sergipano, que vai ser na Orla de Atalaia, num investimento de mais de R$ 10 milhões entre construção e estruturação do espaço. Vai ser o espaço para onde vai convergir todo o artesanato sergipano – espaço de comercialização que traz uma governança diferente. Nós vamos fazer todo um processo de curadoria, vamos receber essas peças e vamos comercializar para o artesão para que ele possa focar no que ele faz de melhor, que é produzir. Ele não precisará se deslocar diariamente para comercializar suas peças. Nós teremos também Casas do Artesanato em todas as oito regiões do Estado do Sergipe. Serão 14 casas containers espalhadas pelo Estado do Sergipe também, sendo um espaço de propagação da nossa arte, da nossa cultura, mas também fonte geradora de renda para esses artesãos. Então esse é um processo muito maior que passa pela construção das Casas do Artesanato, que passa pela construção do primeiro catálogo e também por um processo de pesquisa, de qualificação e de catalogação de tudo que o sergipano produz de melhor e através de várias colaborações que temos construído, exemplo da parceria com a CasaCor, para que o artesanato possa agregar mais valor e possa ocupar os melhores espaços de decoração e de arte que existem hoje no Brasil e no mundo. Precisamos reconhecer e proteger nossos mestres artesãosJLPolítica & Negócio – O senhor não acha que o município de Santana do São Francisco poderia ser convertido numa espécie de Alto do Moura nordestino, de Caruaru, em Pernambuco, um marco do artesanato das Américas?
JT – Pode. Nós temos um trabalho específico no município de Santana do São Francisco que tem um potencial muito grande. Ali é uma população ribeirinha do São Francisco, tradicional, extrativista, que é afetada também pela construção da barragem de Xingó, já que não temos mais a cheia do passado que recompunha o barro das margens do rio São Francisco. Mas uma comunidade que apesar de tudo resiste. Temos ali os artesãos sujeitos a um trabalho degradante, já que as condições de trabalho deles hoje nos fornos que possuem geram diversos problemas de saúde. Eles estão sujeitos ao calor e à fumaça. Normalmente, quando há queima nos fornos, toda a cidade fica recoberta por fumaça, o que prejudica a saúde dos artesãos e de toda a população. Nós temos um projeto já em execução. Já construímos o primeiro forno ecológico que garante o isolamento térmico perfeito, que garante a redução do consumo de lenha, e a redução da fumaça e que sujeita o artesão à condição mais digna de trabalho que precisa para ter salubridade no seu trabalho. Já foi aprovado e vamos construir 130 fornos no município para resolvermos o problema histórico que é essa condição degradante de trabalho. Estamos em parceria com o Senac construindo uma escola de formação e aperfeiçoamento permanente no município de Santana do São Francisco. E estamos abrindo também espaço em todo o Brasil para comercialização desse produto. Então temos em execução hoje uma política pública muito consistente, primeiro de proteção à saúde do artesão, de Santana, e depois para que nós possamos agregar valor ao que ele está produzindo e abrir novos mercados para ele.

Rendeiras de todas as partes da Irlanda e diretores dos principais museus irlandeses foram visitar a exposição da renda irlandesa feita em Sergipe
A RENDA IRLANDESA TROPICALIZADA POR AQUI
“Temos 200 anos de história da renda irlandesa por aqui. Ela é uma técnica que nasceu na Irlanda, foi trazida para o Brasil através de freiras italianas que vieram catequizar as mulheres aqui em Sergipe e que, após a grande fome na Irlanda, essa técnica se perdeu. Aqui no Brasil, a renda irlandesa passou por um processo de tropicalização”
JLPolítica & Negócio – Como é que o Santana do São Francisco foi retratado n“O Sublime Ofício das Mãos?”
JT – Nós temos a representação de Beto Pezão, que é o artesão mais tradicional de Santana do São Francisco, reconhecendo que ele é um precursor desse movimento, que tem aberto portas para que outros artesãos tão talentosos quanto ele possam passar. Beto Pezão está aí representando a cerâmica de Santana do São Francisco com toda a sua genialidade e representatividade da força do povo sertanejo.JLPolítica & Negócio – O senhor não acha que o artesão Véio é subvisto pela cultura canônica sergipana e não somente a do artesanato? Ele não poderia ter uma potencialização maior?
JT – Sem dúvida nenhuma e acreditamos muito nisso. Véio esse ano é homenageado na Vila do Forró. Quem chega na Vila do Forró encontra quatro imagens que foram reproduzidas do artesão Véio em escala aumentada. São quatro imagens com quatro metros de altura. Mais de um milhão de visitantes que passarão nos 60 dias pela Vila do Forró vão conhecer o trabalho de Véio. Como eu disse, o sergipano vai ter a oportunidade com esse catálogo de conhecer os seus heróis. Véio que tem ocupado espaço nas principais galerias do mundo, que é reconhecido lá fora, ainda carece desse reconhecimento no Estado. E como é que nós podemos fortalecer isso? Com a publicação do catálogo dos mestres do artesanato sergipano, contando toda a sua história, com a homenagem na Vila do Forró, com essas imagens que depois serão deslocadas para um espaço público para visitação e fortalecendo essa identidade da sergipanidade, já que veio Nossa Senhora da Glória e traz toda essa força do sertão sergipano, todas as histórias e os causos que ele conta através de suas peças do sertão sergipano.

Modelo usa peça da Coleção Veste Renda Irlandesa na Exporartesanias da Colômbia
“OBJETIVOS DO SUBLIME OFÍCIO DAS MÃOS” II
“O objetivo desse livro é levar as histórias desses artesãos para o mundo, fazer com que o turista os reconheça e garantir que nossos artesãos possam ocupar os melhores espaços no Brasil e no mundo. Veja que ele já foi concebido bilíngue. Ele conta a história do artesão em primeira pessoa”
JLPolítica & Negócio – Para além dos 15 personagens que pontua “O Sublime Ofício das Mãos”, quem são as figuras que estão por trás deste livro e que merecem destaque?
JT – Nós temos uma grande equipe que atuou nesse processo de pesquisa. Temos o professor Dênio Azevedo, que fez a introdução. Nós temos Polyana Bittencourt, que fez toda a pesquisa e construiu os textos. As fotografias são de Arturo Paganini, de Artur Soares, de Igor Matias e Michel de Oliveira. Nós temos o projeto gráfico de Germana, e como não poderia faltar, temos também uma gráfica sergipana, que é a J. Andrade, que fez esse material de belíssima qualidade, bilíngue e que sem dúvida nenhuma vai servir de fonte de pesquisa para o sergipano, e que vai rodar todo mundo, mostrando que o sergipano produz de melhor.JLPolítica & Negócio – O senhor acha que o Sergipe está longe de atingir a máxima que Ézio Déda predica, de que haja o consumo do artesão por fixação no conteúdo técnico dele e não uma mera solidariedade a quem produz?
JT – Nós já estivemos mais longede que isso acontecesse? Hoje já comercializamos nos espaços do governo mais de R$ 8 milhões em artesanato sergipano. Nesta semana nós estamos indo para a Fenearte, que é a maior feira de artesanato na América Latina. Pela primeira vez na história vamos com dois caminhões cheios de artesanato. Vamos levar 12 artesãos do Estado. Custeamos toda despesa, estruturamos os espaços e devemos comercializar mais de meio milhão de reais em apenas 11 dias. Estamos avançando nesse sentido e reconhecendo a importância do artesanato do sergipano. Estamos conseguindo ocupar os espaços de decoração e construir esse diálogo entre o design, a arquitetura e a ancestralidade presente no artesanato. Conseguimos avançar muito nos últimos anos com políticas públicas, como a que garante que todo espaço que o Governo do Estado promove, vende ou patrocina, há sempre uma reserva para o artesanato sergipano, para o artesão mostrar aquele produto melhor.

Modelo da Casa do Artesanato Sergipano instalado na CasaCor de Sergipe
“OBJETIVOS DO SUBLIME OFÍCIO DAS MÃOS”
“O grande objetivo desse trabalho é garantir que o sergipano tenha uma fonte de pesquisa para conhecer os seus heróis numa área importante e injustiçada. Estamos homenageando neste livro 15 mestres artesãos, reconhecendo suas histórias, a ancestralidade, toda a cultura que existe materializada nas peças por eles produzidas”
JLPolítica & Negócio – Para não fugir a temática da sua Secretaria, que é do Trabalho: um livro como esse ajuda a potencializar mais ainda as condições de trabalho em Sergipe?
JT – Sem dúvida nenhuma. Nós temos aquele trabalhador que busca um emprego formal, mas temos aquele trabalhador que tem um talento especial, que pode sobreviver dignamente a partir de um ofício que aprendeu, a partir de um talento que recebeu através da ancestralidade. Então o objetivo da Secretaria de Trabalho é garantir que todo sergipano tenha a oportunidade de sobreviver a partir do caminho e do talento que ele tem. O artesanato, quando é tratado pela Secretaria de Trabalho, o é por todo o seu valor cultural, por toda a sua importância ancestral, mas principalmente pelo seu potencial econômico. O grande objetivo, portanto, é fazer com que o artesão sobreviva dignamente a partir do seu trabalho. É claro que ele está representando a sergipanidade, é claro que está mantendo viva a nossa história, a nossa cultura, mas ele precisa ter uma remuneração justa por isso. Justamente por esse motivo que buscamos abrir espaços econômicos e temos levado os artesãos para as feiras nacionais – esse ano fomos para Brasília, para São Paulo, para o Rio de Janeiro, iremos para Recife na próxima semana, em seguida para a Fenacce, no Ceará, buscando ocupar esses espaços econômicos para garantir que o artesão realmente leve dignidade para sua família, seja um herói da resistência, da manutenção da nossa cultura, mas que ele também possa sobreviver de maneira digna a partir do que produz e faça melhor o nome de Sergipe também. Eleve a sergipanidade.JLPolítica & Negócio – Então o senhor está vendo resultados no horizonte?
JT – Sim. O sergipano está aprendendo a respeitar a sua história e a ser mais barrista a partir dessas intervenções continuadas que o governador Fábio Mitidieri vem fazendo com a realização de grandes eventos, com a valorização dos artistas locais, com o fortalecimento de todo esse processo da economia criativa que envolve os artistas musicais, os artistas visuais. Que envolve o artesanato e envolve a culinária. Então, temos tido um momento muito oportuno para representar o sergipano e valorizar o que a gente produz, já que nós temos gerado um encantamento muito grande em todos os turistas que visitam o nosso Estado, que ficam apaixonados pela nossa cultura e pelas nossas tradições.

“O Sublime Ofício das Mãos”: obra de bom gosto e à altura dos mestres da artesania sergipana




