Já falamos aqui há algum tempo sobre a reduflação, aquela prática sutil da indústria que encolhe o tamanho do produto, mas mantém o preço como se nada tivesse mudado. O pacote de biscoitos de 200g virou 160g, depois 120g, e muitos consumidores sequer perceberam. A tática, ainda que legal, passou a ser um truque de sobrevivência das empresas diante da escalada de custos, mas acabou deixando o consumidor em desvantagem: pagando o mesmo, mas levando menos.
Com o tempo, a reduflação ganhou um novo rosto. Se antes a redução estava no peso e na quantidade, em seguida passou para a alteração dos ingredientes, gerando produtos “genéricos”, que parecem ser o que sempre foram, mas na verdade não são. O leite virou bebida láctea, o cream cheese passou a conter soro de leite, e o doce de leite foi transformado em “doce de soro”. Tudo camuflado em embalagens muito parecidas com as originais. O resultado: menos qualidade, menos valor nutricional e mais engano para o consumidor.
Agora, porém, surge uma novidade ainda mais preocupante: discutindo com alguns colegas economistas, encontramos a alterinflação. Não se trata apenas de reduzir peso ou trocar ingredientes, mas de mudar a fórmula dos produtos para baratear custos e proteger margens de lucro, sem que o consumidor perceba. Chocolates, biscoitos, laticínios e outros itens do dia a dia já começam a apresentar mudanças discretas de sabor, textura e composição. A diferença está lá, mas disfarçada.
A estratégia da alterinflação é sofisticada porque trabalha nos detalhes que o consumidor médio não consegue detectar de imediato. O chocolate que antes tinha um percentual mais alto de cacau passa a ter gordura vegetal hidrogenada; o requeijão que carregava o sabor do leite fresco agora vem turbinado de amido; o iogurte, que sempre foi sinônimo de fruta e fermento, de repente tem polpa reduzida e mais xaropes de glicose. Para quem olha rápido no supermercado, tudo parece igual. Para quem consome diariamente, as mudanças são sutis, mas reais: o sabor fica menos marcante, a textura menos consistente, o valor nutricional mais pobre.
Essa prática é ainda mais perversa porque joga com a confiança do consumidor na marca. Diferente da reduflação, em que pelo menos era possível perceber a diminuição da quantidade na embalagem, a alterinflação dissolve a alteração dentro da própria receita. O produto continua sendo vendido como se fosse o mesmo de sempre, mas a experiência de consumo muda. E quando a percepção chega, muitas vezes já é tarde: a fidelidade foi abalada, a sensação de engano se instala.
Outro ponto relevante é que a alterinflação não acontece de forma isolada. Ela surge em meio a um contexto de pressões de custo: energia elétrica mais cara, combustíveis instáveis, variações cambiais que encarecem insumos importados, além da volatilidade do preço de commodities agrícolas. A indústria, em vez de repassar integralmente esses custos para o consumidor em forma de reajuste visível, prefere mexer na composição, porque assim consegue manter o produto competitivo na gôndola. O preço não assusta de imediato, mas quem paga a diferença é a qualidade.
E há um risco maior: a padronização para baixo. Afinal, a indústria deseja elevar seu faturamento, diante do que está colocando nas gôndolas do varejo. Quando as empresas do setor adotam estratégias semelhantes, o mercado passa a trabalhar com referências mais pobres. O que antes era exceção se torna regra. O consumidor perde a noção do que é um bom chocolate, um bom requeijão, um bom iogurte. Aceita o produto diluído como se fosse o normal. E isso abre espaço para uma acomodação perigosa: a baixa qualidade se disfarça de padrão.
O que estamos vendo, portanto, é uma evolução da criatividade corporativa em tempos de inflação: se não dá para subir o preço diretamente, muda-se a fórmula. Só que essa inovação não é neutra. Ela corrói a confiança, empobrece a experiência de consumo e, a longo prazo, pode até prejudicar a própria indústria, porque o consumidor cansado de ser enganado começa a buscar alternativas caseiras, artesanais ou importadas — e o mercado perde força.
Entre reduflação e alterinflação, a conta sempre sobra para quem está no caixa. O consumidor paga mais por menos. Menos quantidade, menos qualidade, menos autenticidade. E só tem uma arma para reagir: informação. Ler rótulos com atenção, comparar ingredientes, desconfiar de mudanças de sabor ou textura e, sobretudo, não se deixar levar apenas pelo preço. A inflação de preços já pesa no bolso. A inflação escondida na embalagem e agora na fórmula pesa ainda mais na mesa.
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