Por Emanuel Rocha
Nos últimos anos, tem se tornado cada vez mais comum que gestores públicos destinem verbas para clubes de futebol profissional. No entanto, essa prática levanta questionamentos sobre o verdadeiro papel do investimento público e se ele está, de fato, sendo utilizado para beneficiar a sociedade de maneira justa.

Um ponto central da crítica é que clubes profissionais de futebol são, antes de tudo, empresas. Estas entidades geram lucro, possuem contratos milionários de patrocinadores, venda de ingressos e merchandising, além de uma enorme exposição midiática. Quando bem geridos, os lucros ficam com os investidores ou donos. Quando enfrentam dificuldades financeiras, o socorro vem do bolso do contribuinte.
Porém, o problema maior é que, ao destinar verbas para times já estabelecidos, os gestores públicos deixam de investir onde o esporte realmente precisa: nas periferias.
Em diversas comunidades, falta o mínimo para a prática esportiva: quadras cobertas, campos de futebol em bom estado, e espaços recreativos adequados. E o que mais preocupa é que, muitas vezes, o dinheiro destinado a clubes profissionais não é devidamente fiscalizado ou acompanhado. A falta de transparência e a ausência de prestação de contas tornam o processo ainda mais obscuro, com recursos que poderiam ser usados para transformar a vida de jovens e comunidades sendo jogados em um universo privado e sem retorno social direto.
É urgente que o foco da gestão pública mude. O investimento público em esporte deve priorizar a criação de espaços e infraestrutura nos bairros carentes, onde a prática esportiva pode, de fato, mudar vidas, promover inclusão e ser uma alternativa para a violência. Ao invés de promover eventos para poucos, é necessário oferecer a todos a chance de praticar esportes, revelar novos talentos e criar oportunidades para que a juventude se desenvolva de forma saudável.
Investir no esporte é um dever do Estado, mas não no esporte de elite, que já possui um vasto mercado. O verdadeiro papel do dinheiro público é promover o acesso à prática esportiva para todos, principalmente para aqueles que vivem nas áreas mais carentes, onde o apoio ao esporte pode ser uma ferramenta de transformação social.
A falta de transparência sobre como os recursos são aplicados em clubes de futebol e a contínua negligência com as periferias são um reflexo de uma gestão pública que não prioriza o que realmente importa. O esporte, quando bem utilizado, é uma poderosa ferramenta de inclusão, mas não deve servir para alimentar interesses privados à custa do dinheiro do contribuinte.
Emanuel Rocha é historiador, coautor do livro Bairro América: A Saga de uma Comunidade, poeta popular e repórter fotográfico




