“É um amor que superava as dificuldades e cada um dava seu jeito, porque faltava tudo. Por exemplo, eu mesmo que trabalho na lavanderia tinha momentos que não tinha nem roupa para lavar, porque não tinha enxoval, além de faltar material. Tinha uma senhora que era da Nutrição, muitas vezes ia comprar tempero, tipo cebola, para fazer a comida. Às vezes tinha as outras coisas, mas não tinha o tempero, e ela mandava comprar do próprio bolso. Nós, do nosso setor, a gente, às vezes, tinha que emendar pano para fazer uma roupa privativa e não suspender cirurgias”.

O relato acima é de Antônia Josefa Santos, que há 26 anos trabalha na lavanderia do Hospital de Cirurgia. Casada e mãe de uma filha, a funcionária tem no hospital a sua segunda casa, pois foi lá onde viveu e vive grande parte da sua vida, inclusive, foi lá a primeira e única vez em que a sua carteira de trabalho foi assinada.
É a partir desse depoimento, que o Portal Fan F1 contará uma história de sucesso e superação, onde o principal ingrediente ao longo de quase 95 anos foi, sem sombra de dúvida, o amor. Aliás, no Hospital de Cirurgia desistir nunca foi uma opção.

Fundada em abril de 1926 por um grupo de médicos capitaneados pelo Dr. Augusto Leite, um dos mais brilhantes profissionais do Estado, a Fundação de Beneficência Hospital de Cirurgia tornou-se o principal hospital de Sergipe e foi responsável por mudar paradigmas desde a sua fundação, dando, inclusive, nome ao bairro onde se encontra. Sua criação baseou-se em sólidos fundamentos de amor ao próximo, respeito à vida e confiança no conhecimento científico. Prova disso é a história do seu idealizador, que dedicou toda a sua vida para ajudar aos mais necessitados, propagar o saber e enobrecer a ciência médica.
Quem atesta essa vocação de Dr. Augusto Leite é o seu neto, o empresário Walter Franco. “Meu avô era um médico exemplar, humanitário e foi um homem com H maiúsculo. Foi o primeiro sergipano a ter busto em vida. A cirurgia em Sergipe nasceu com Dr. Augusto Leite”, disse Walter.

Suas palavras foram ratificadas pela sua esposa, Sonia Franco. Ela trabalhou diretamente com Dr. Augusto e pôde acompanhar de perto a sua dedicação quando o assunto era servir ao próximo.
“Convivi muito com ele, nós éramos vizinhos, então ia muito a casa dele. Fora isso, trabalhei muito com ele na Casa Maternal Amélia Leite, que foi fundada por ele e beneficiava as mães solteiras. Era escolinha para as crianças e ajudava aquelas mães até ganhar o bebê, dava enxoval, dava tudo. Isso era um gesto muito bonito dele. No Hospital Cirurgia, ele sempre cuidou, e muito bem cuidado, era a segunda casa dele. De madrugada, ele já ia para lá trabalhar. Era sempre de terno, todo arrumadinho, uma graça. Era um amor incondicional pelo hospital, era lindo”, conta Sonia.
Com um idealizador do nível de Dr. Augusto Leite, o Hospital de Cirurgia caminhava a passos largos rumo ao ápice na assistência aos que mais precisavam e desde a sua fundação foi destaque pela dedicação às áreas mais complexas da Medicina, a exemplo das cirurgias e das áreas médicas nascentes, como a radiologia e a eletrofisiologia. Pode-se dizer que o hospital sempre esteve à frente do seu tempo e foi motivo de orgulho para os sergipanos.
Foi lá onde funcionou o hospital escola da primeira Faculdade de Medicina de Sergipe, fundada em 1961, permanecendo até 1989 e retomando nessa função em 2014 com um convênio com a Universidade Tiradentes (Unit). Vale ressaltar que foi dentro do Hospital Cirurgia que aconteceram as primeiras inovações médicas do Estado, entre elas a primeira transfusão sanguínea, a primeira radioterapia, a primeira cirurgia cardíaca, o primeiro transplante cardíaco, sendo este o primeiro de todo o Norte/Nordeste.
Com a chegada de novos hospitais em Sergipe e com o fatiamento da assistência de saúde pública, o Hospital de Cirurgia passou uma forte crise no ano de 2000, sofrendo intervenção em 2001 e conseguindo seguir com brilhantismo no seu trabalho. Inclusive, naquela época, toda a sociedade se uniu em prol do hospital numa campanha intitulada: “O Cirurgia está no coração da gente”.
“Nós, como funcionários, sofremos juntos e tivemos muitas dificuldades. Mas, mesmo nas dificuldades, o Hospital Cirurgia tem uma característica marcante que é a união dos funcionários. Eu passei por duas intervenções, uma foi em 2001 e essa outra agora. Graças a Deus superamos. Essa intervenção foi bem diferente da outra, foi mais eficaz, os resultados foram melhores. Eu sempre digo: “antes a gente queria um pedaço de pano para cobrir um paciente, hoje nós estamos atrás de melhorar a nossa qualidade no atender” e, aos poucos, a gente está conseguindo. Só temos que agradecer, a palavra certa é gratidão por tudo o que estamos conquistando no dia a dia”, relata a funcionária Antônia.

A intervenção a que ela se refere aconteceu em novembro de 2018, quando o Tribunal de Justiça de Sergipe (TJ/SE), após pedido do Ministério Público de Sergipe (MP/SE), determinou o afastamento do diretor-presidente do Hospital de Cirurgia, dois tesoureiros e do primeiro secretário.
Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público (Gaeco), durante uma operação denominada “Metástase” foi possível comprovar a existência de irregularidades na instituição que estariam impactando de forma corrosiva na rotina do Hospital de Cirurgia. Desta forma, assumiu o comando do hospital, a co-gestora administrativa financeira da unidade, Márcia de Oliveira Guimarães.
Assim que assumiu, Márcia produziu um vasto relatório sobre toda a problemática enfrentada pelo Hospital de Cirurgia. Foram constatados: sete meses de salários de médicos não pagos; produtividade de cooperativas com vários anos sem pagar; salários de funcionários com atrasos de mais de 40 dias; salários de lideranças (gestores, coordenadores) sem pagar o mês de março. Ou seja, era o mês de novembro e março que não havia sido pago ainda; não pagamento do piso salarial de várias categorias; inexistência de processos de trabalho; padronização de materiais e medicamentos defasada. Outra coisa, não se pagava energia elétrica há mais de 20 anos, acumulando uma dívida exorbitante.
Na área assistencial: vários equipamentos quebrados; o aparelho de Raio-X fixo estava há mais de um ano sem funcionar; estavam parados também os aparelhos de ultrassom e microscópio cirúrgico; cirurgias cardíacas estavam paradas pela primeira vez na história de Sergipe há mais de dois meses; estavam paradas também a neurocirurgia e cirurgias urológicas e vasculares; inexistência de licença sanitária há vários anos. Já na área jurídica, várias ações civis públicas (ACPs) estavam em andamento e diversos processos trabalhistas se acumulavam.

“A situação do Cirurgia era essa. Baixa produção, população mal assistida, com queixas inúmeras. O hospital sofria de falta de lençol a medicamentos e materiais básicos. Tendo essa situação evidenciada através de relatórios da Ouvidoria e, sobre situação assistencial, através de relatórios feitos pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz, fizemos reuniões com as equipes médicas e com as gerências e coordenações.Com a situação mais bem diagnosticada, iniciamos o processo de reestruturação do Hospital de Cirurgia”, explica a interventora Márcia Guimarães.
Quem assumiu a diretoria técnica do hospital a pedido da interventora foi o médico Rilton Morais. Ele reforça a fala de Márcia sobre a situação encontrada por lá.

“Quando assumimos o hospital, encontramos uma completa desordem técnica, administrativa e financeira. Não havia as condições básicas para o funcionamento do hospital, como por exemplo, plantão de médico de intercorrência de 24h, as equipes estavam desestruturadas e insuficientes. Uma UTI que precisava de dois plantonistas, pelo seu número de leitos, só tinha um plantonista. Além de ausência de fluxos, de procedimento padrão. Então, nosso primeiro movimento foi o de organizar o funcionamento do hospital”, lamenta o médico.
E de lá para cá, segundo Dr. Rilton, o trabalho tem sido intensificado. “No segundo momento, nós começamos a atuar nos gargalos de funcionamento, como por exemplo, a UTI, que era um gargalo porque muitas cirurgias eram suspensas porque não tinha vaga de UTI. Antes de ampliarmos as vagas de UTI, começamos a melhorar os fluxos de atendimento, aumentando a rotatividade dos leitos, melhorando o atendimento aos pacientes para que pudessem sair o mais rápido possível e assim termos mais leitos disponíveis”.

O ápice do trabalho se deu com a construção e ampliação de novas Unidades de Terapia Intensiva (UTI´s), saindo de 35 leitos para 68. “Fomos ainda corrigindo outros gargalos do hospital, como salas de cirurgia, problemas no centro cirúrgico, começando as cirurgias no horário adequado e terminando no horário adequado, inclusivo provendo os insumos para que a gente não tivesse suspensão de cirurgias, o que era um problema. A redução de suspensão de cirurgia foi drástica. Também fomos melhorando as estruturas acessórias. Descobrimos que tínhamos problemas sérios, como por exemplo, a parte elétrica, de gerador, de subestação, esterilização de materiais, a própria lavanderia existia uma ação do Ministério Público do Trabalho por oferecer risco aos funcionários devido ao maquinário antigo. Trocamos todo o maquinário e fomos melhorando a qualidade da hotelaria para dar um conforto maior aos pacientes”, pontua o gestor.

Aos poucos, a interventora Márcia Guimarães, junto com a sua equipe, tem conseguido recolocar o Hospital de Cirurgia no patamar de solidez que sempre teve em suas contas. Para tanto, a gestora elenca o que já se conseguiu em dois anos de muito trabalho.
“Pagamos os sete meses de salários atrasados dos médicos devidos, estamos há vários meses pagando os salários dos funcionários até o 5º dia útil, reestruturamos a engenharia clínica, compramos equipamentos, e o que não pudemos comprar locamos. Além disso, melhoramos as adequações de cinco alas de internamento e ainda temos sete a serem adequadas. Também reestruturamos as comissões obrigatórias e renovamos a padronização de materiais médicos. Voltamos a produzir ciência e assistência. O contrato de produção com a Secretaria de Estado Saúde (SES), que antes era cumprido em torno de 45%, com baixas de até 30%, hoje executamos em média 98%. Isso reflete na assistência à população. As cirurgias retornaram gradativamente com a melhoria das condições de trabalho (fios de sutura, serras elétricas, focos cirúrgicos, bisturis, entre outros) e pagamento mensal de salários”, comemora Márcia.
Para se ter ideia dos números, o Hospital de Cirurgia realizou de janeiro a outubro deste ano pelo Sistema Único de Saúde (SUS) 3.290 cirurgias em diversas especialidades médicas e destas, 2.007 foram de urgências e 1.283 eletivas. Nesse mesmo período, a unidade hospitalar realizou ainda 1.060 cateterismos (procedimento utilizado para diagnosticar ou tratar doenças do coração), sendo 479 eletivos e 581 de urgências.
Apesar dos excelentes resultados, ainda há muito que se fazer no Hospital de Cirurgia, que, atualmente, possui 16 pontos de obras espalhadas por toda a sua área. Ainda hoje, o montante de dívidas deixadas pela gestão anterior é enorme e vão desde dívidas com impostos, dívidas trabalhistas, FGTS, dívidas com fornecedores e dívidas com equipes médicas, que estão sendo negociadas e pagas de forma parcelada.
“Mesmo com essas dívidas, temos conseguido recursos através de doações, emendas parlamentares para fazer as ampliações que são necessárias para que o hospital continue atendendo as pessoas e aumentando a sua demanda. Os planos futuros do hospital são os de ampliar ainda mais o número de leitos, o número de salas para que a gente consiga atender a população da melhor forma. Temos listas de espera de pacientes e isso é ruim para a sociedade. Nós temos listas de espera de cirurgias cardíacas, de neurocirurgias e lista de espera oncológica. A gente pretende resolver essas listas o quanto antes. Com essa ampliação, também teremos mais recursos para pagar as dívidas que foram deixadas”, ressalta Dr. Rilton Morais.

O médico finaliza informando os avanços conseguidos nesse curto espaço de tempo. “Desde o início da intervenção, tivemos obras de reforma de todos os ambulatórios, com adequação, ambientação e refrigeração de todas as salas. Tivemos a construção de duas novas UTI´s, além de reforma de uma antiga. Tivemos a reforma do Centro de Material de Esterilização (CME), a reforma da subestação de energia, a reforma da lavanderia, almoxarifado, reformas das enfermarias, construção de uma nova rampa de acesso para a segurança dos pacientes, reforma do ‘bunker’ para receber o aparelho de radioterapia, que veio da Suécia, chegou esse ano e já foi instalado. Tivemos a reforma da sala de ressonância magnética, reforma e implantação do aparelho de tomografia, que estava encaixotado havia três anos, tivemos a implantação do aparelho de ressonância que também estava encaixotado havia três anos. Esse aparelho tinha sido perdido completamente e num acordo com a empresa que vendeu, conseguimos um novo aparelho. Iremos começar reformas em outras áreas, no pronto atendimento ortopédico, no pronto atendimento cardiológico e estamos procurando recursos para construir uma UTI pediátrica, construir mais leitos e reformar mais alas”, finaliza o diretor clínico Rilton Morais.




