Quem observa o palco Luiz Gonzaga, que embeleza a praça Hilton Lopes, nos mercados centrais, durante o Forró Caju 2025, encontra muito mais do que apresentações que exaltam a essência dos festejos juninos. Ao lado dos artistas, intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) desempenham um papel fundamental, garantindo que o evento seja inclusivo para a comunidade surda.
A iniciativa reflete o compromisso da gestão municipal em promover uma festa acessível e representativa para todos os públicos. Além de valorizar o trabalho dos intérpretes, a ação ressalta o impacto social da Língua Brasileira de Sinais.
Entre os profissionais que integram esse trabalho está Raquel Silveira, intérprete de Libras com mais de 30 anos de experiência, que atuará no circuito mercados do Forró Caju 2025, que segue até 29 de junho.
Raquel explica que, durante as noites de celebração, a atuação será conduzida por uma equipe composta por quatro profissionais. Dentre eles, três intérpretes que se revezam entre os shows e uma pessoa surda, que assume o papel de consultor, auxiliando na validação dos sinais transmitidos.
“A gente vai dando todo esse apoio linguístico para o consultor com o espelhamento, e ele vai dando apoio pra gente avaliando se o sinal está bom, se dá pra entender e o que a gente precisa ir melhorando de acordo com o show”, explica Raquel.
Ela ressalta que o trabalho exige atenção, dedicação e sintonia com o repertório de cada artista, permitindo que a energia e o clima de cada apresentação sejam transmitidos ao público de forma fiel.
“Nós buscamos entender o que está sendo dito para fazer essa construção, não só da língua, mas também da performance, utilizando o corpo, a expressão facial e a própria Libras para dar um entendimento do que está sendo cantado, não levando ao pé da letra como português sinalizado, mas sim o que a música quer dizer naquele momento”, afirma.
Raquel também celebra o impacto positivo da iniciativa, destacando seu valor para a inclusão social e cultural. “É uma porta sendo aberta. Está acontecendo em vários locais, e Sergipe está de parabéns por se preocupar em ter acessibilidade para as pessoas surdas, e a gente fica feliz de participar porque é uma experiência muito rica. É um desafio, não é fácil, mas a gente sempre está pronto, não só eu como o grupo em si, para dar o melhor, para que a comunidade surda se sinta representada”, destaca.
Segundo José Ferreira, intérprete com 16 anos de trajetória, o trabalho realizado vai além da tradução, buscando conectar a comunidade surda à essência das apresentações.
“A gente percebe e entende que a comunidade surda está tendo visibilidade. Antes eles reclamavam muito que vinham para o show e só sentiam a vibração. Tinham que olhar para as pessoas dançando para só copiar o movimento. Hoje não, hoje o surdo pode ver e entender o que estão falando, cantando, e pode acompanhar o ritmo sabendo o que está sendo feito”, diz ele.
Essa transformação, segundo José, reflete diretamente no sentimento de pertencimento e no reconhecimento da identidade sergipana entre os participantes, corrigindo um desequilíbrio histórico.
“Quando a gente fala de sergipanidade, de que amamos nosso povo, e ao mesmo tempo excluímos uma parcela desse povo, é como se estivéssemos falando de uma utopia, de um conceito que ainda faltava chegar. E agora a prefeitura está fazendo isso, está dando esse pontapé”, celebra.




