O consumo de bebidas alcoólicas, cigarro e outras drogas, está começando cada vez mais cedo entre a população sergipana. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 13,7% dos estudantes afirmaram ter utilizado cigarro uma vez, sendo 14,6% vinculados à escola pública, e 10,2% na privada. Destes, 6,9% fizeram isso pela primeira vez com 13 anos ou menos.
Além disso, o estado registra o maior índice do Nordeste com relação a estudantes nesta faixa etária que já experimentaram bebida alcoólica alguma vez, com 62,7%, quando a média da região é de 56,2%. Neste aspecto, 62,5% estão vinculados à escola pública e 63,6%, à escola privada.
De acordo com a psicóloga e referência técnica da Linha de Cuidado de Álcool e Outras Drogas da Rede de Atenção Psicossocial (REAPS) da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Camilla Martins Albuquerque, as causas para experimentação e uso de álcool e outras drogas são variadas e complexas, no entanto, uma delas pode estar relacionada ao pertencimento a um grupo onde o uso é entendido como um rito de passagem.
“Observando mais atentamente o perfil em questão, sabemos que a adolescência é um período de diferenciação do outro onde, muitas vezes, existe a necessidade de aderência ao grupo de iguais”, aponta a especialista.
Na pesquisa do IBGE, os adolescentes da rede pública de ensino são apontados como o maior público que utiliza bebidas e cigarros. No entanto, segundo Camilla, esse dado é controverso, já que outras pesquisas indicam uma maior experimentação entre jovens de escolas particulares, e outras, com incidência equivalente.
“Independente deste fator, e pensando no público dos adolescentes de maneira geral, é essencial que ações de prevenção, educação em saúde e redução de danos e riscos sejam articuladas entre educação e saúde, para que possamos levar a discussão acessível onde os jovens estão”, reforça a psicóloga.
Dentro desse processo, muitos fatores podem influenciar no comportamento dos adolescentes quanto ao interesse por cigarro, álcool e outras drogas. A profissional destaca que a socialização perpassa pela naturalização do uso, principalmente nos jovens do gênero masculino, que associa à capacidade de consumo de álcool.
“É curioso percebermos que as substâncias mais utilizadas entre os jovens são o tabaco e o álcool, ambas substâncias lícitas, com propagandas e ações de marketing difundidas e consumidas por décadas. Agora, o que está em voga para uma parcela dos jovens com poder aquisitivo, que proporciona facilidade de acesso, são os cigarros eletrônicos. O uso abusivo de substâncias é, antes de tudo, uma questão de saúde pública. Os reflexos serão percebidos, prioritariamente, no aumento das questões de saúde psicossocial e de comorbidades associados ao uso”, afirma Camilla.
De acordo com o médico pneumologista Saulo Maia, pessoas que experimentam tabaco de maneira precoce têm maiores probabilidades de se tornarem dependentes e sujeitos a desenvolver doenças conhecidas como tabaco-dependentes.
“São doenças que envolvem desde o aparelho respiratório, com infecções respiratórias, bronquite, asma, sinusite, enfisema, bronquite crônica, câncer de pulmão, como o aparelho cardiovascular, com a parte do enfarte do miocárdio, pressão alta, acidente vascular cerebral, além de problema de gastrite, úlcera, pancreatite, infertilidade, impotência sexual e diversos cânceres”, destaca o médico.
Doenças psicossomáticas também podem estar associadas ao uso de cigarro e outras drogas, a exemplo de ansiedade ou até mesmo depressão. “Quanto mais jovem se fuma, maior a dependência da nicotina. E os problemas podem aparecer a curto prazo, com alterações do paladar, do olfato, além de ansiedade, depressão, traqueobronquite, amigdalite, alterações de pele, como também a médio e longo prazo vem as doenças cardiovasculares e cânceres no corpo todo”, ressalta Saulo Maia.
Ainda conforme o médico, cigarro eletrônico também causa dependência, por possuir nicotina, e pode ser a porta de entrada para a pessoa fumar cigarro tradicional. No caso do uso de narguilé, a preocupação é ainda maior, já que traz risco de doenças infecciosas, por ser um objeto compartilhado.
Na análise da psicóloga Camilla, nem sempre a tendência a permanecer fumante na vida adulta está associada a um uso pontual na adolescência. No entanto, são os fatores sociais que podem indicar essa permanência ou não de uso. Entre esses fatores, ela cita: manutenção da situação de vulnerabilidade, falta de acesso à informação de qualidade, falta de acesso à educação, lazer, cultura; intrafamiliares, como situação de violência doméstica, violências de outra natureza, existência de sofrimento psíquico; e fatores relacionados ao desenvolvimento do sujeito, como um todo”..
No âmbito social e cultural brasileiro, há ainda uma pressão social para que as pessoas sejam usuárias casuais de bebidas alcoólicas. “É um fenômeno nomeado como “cultura do álcool”, muito perceptível na sociedade brasileira. O consumo abusivo de bebidas alcoólicas é naturalizado e incentivado, principalmente entre os jovens. Se observarmos a história do consumo de álcool, este sempre esteve associado a datas comemorativas, a ritos de passagem, ou como estratégia para lidar com questões psicossociais e de vulnerabilidade”, explica Camila ao F5News.

Sendo assim, o uso abusivo entre jovens pode estar associado a esse processo, pelo qual consumir álcool e outras drogas é normalizado e incentivado. “É comum ouvirmos, nos grupos mais jovens, histórias que obrigatoriamente têm como protagonista não as pessoas, mas a bebida alcoólica. O “Dar PT”, expressão associada à “perda total” de consciência, virou condição para que um evento social seja prazeroso. Tal exemplo demonstra, de maneira objetiva, que a relação que se tem com a substância de uso é que precisa ser observada, junto aos demais fatores”, acrescenta.
Orientação aos pais
Os pais, muitas vezes, são os últimos a saberem da condição de consumo de bebidas alcoólicas e cigarro dos filhos adolescentes. De acordo com a psicóloga Camilla, isso ocorre porque não se trata de um assunto que os jovens queiram compartilhar com os genitores.
“Por este motivo, o trabalho precisa ocorrer, prioritariamente, na direção do fortalecimento do acesso à informação e educação em saúde de qualidade, tanto para o jovem como para toda a família. Há de se observar a dinâmica relacional do sujeito, o que o uso pode significar enquanto estratégia do sujeito, mudanças relevantes de hábitos, fatores de risco, como a vulnerabilidade social, e de proteção, como o suporte familiar e comunitário”, aponta.
E acrescenta: “Em Aracaju, a Rede de Atenção Psicossocial oferta cuidado voltado às demandas de álcool e outras drogas, para o público infantojuvenil e familiares, no CAPS AD III Vida. É um serviço de portas abertas, onde o jovem e os familiares poderão ser acolhidos em suas demandas, com avaliação de equipe multidisciplinar e oferta de atividades voltadas para o cuidado de tais demandas”.
Edição de texto: Monica Pinto
https://www.f5news.com.br/cotidiano/em-sergipe-seis-em-cada-dez-adolescentes-consomem-alcool.html




