Céu com nuvens esparsas

Ernestina dificilmente seria classificada como bonita.

Criança alegre, foi perdendo o sorriso com a adolescência, no mesmo ritmo em que os comentários sobre sua falta de atributos físicos cresceram. Enquanto as demais pequenas damas eram frágeis como as bonecas de porcelana com que brincavam, Ernestina possuía ossos largos e modos desastrados. A voz de timbre alto a impedia de ser discreta e de participar de conversas sussurradas, sendo sempre preterida nos jogos.

A baronesa não admitiria, mas tem medo de que sua filha não case. Com essa idade, ela já possuía pretendentes e seu pai negociava o casamento mais afortunado. Sua beleza conquistou um título, terras e a liberação do dote. Já Ernestina desabrochou e começa a murchar sem despertar o interesse de ninguém, seu semblante tristonho esconde o cansaço de não compreender a insistência de sua mãe para que se produza tanto todas as manhãs.

Não foi por falta de educação domiciliar e esforço que a jovem ainda continuava solteira. A baronesa tentou de todos os modos ensinar boas maneira à filha: como falar, como se sentar durante a janta, a correta forma de segurar o talher e até a maneira decorosa de olhar para um cavalheiro. Ela passou adiante todas as regras que aprendeu, incluindo àquelas que observou ao ser inserida na nata da aristocracia da região, mas Ernestina, simplesmente, não se interessava.

A baronesa pediu para que eu representasse a jovem, em suas palavras, de forma mais cativante. Todos os dias então ela senta nessa mesma posição, conforme solicitado pela mãe, para que eu possa pintá-la. Nitidamente o vestido azul não foi uma escolha sua, muito menos o laço no pescoço. Seu espírito é livre e aquelas roupas parecem aprisionar suas ideias. A única coisa que pôde levar para a cena idilicamente construída foi um livro, folheado de tempos em tempos.

Foi por conta desse livro de capa dura e vermelha que iniciamos nossas conversas. Busquei deixá-la confortável para conseguir captar além das suas rugas de sofrimento e uma forma de fazê-la relaxar foi perguntar sobre o conteúdo daquelas páginas. Acabei por saber que se tratava, na verdade, do seu diário. Ernestina confessou que levava consigo para todos os lugares por receio de que a baronesa lesse sem sua permissão.

Naquele diário surrado, relatava suas angústias e sua sensação de não pertencimento. Nele, dividia sua vida como faria com um amigo, na verdade, ele era o único que ela tinha. O folhear de páginas era como se fosse uma conversa com esse amigo imaginário, como se ela ouvisse as respostas às suas confissões. Isso se tornou um hábito para que não se sentisse só nos momentos de desconforto, como aquele em era observada durante horas por um homem a quem não conhecia.

Era também no diário onde registrava seus sonhos, como o de ser pintora. Essa paixão em comum passou a ser tema das nossas conversas todas as tardes. Começamos com pequenas observações sobre possíveis pinturas, ela dividindo seus gostos sobre paisagens bucólicas e eu indicando quais seriam as melhores cores para representar esses ambientes. Timidamente, um dia Ernestina me pediu para ensiná-la como segurar o pincel e pintar um céu com nuvens esparsas. Quando aceitei seu pedido, vi, pela primeira vez, seu sorriso.

A partir desse dia passei a ter duas telas apoiadas no meu cavalete: uma usada nas aulas e outra na qual eu pinto a jovem que perde aos poucos a vergonha de sentar ao meu lado. Agora, observo Ernestina contemplar o nada, posição necessária para que eu possa terminar o meu trabalho, cujo prazo estipulado para finalização já foi ultrapassado. Ainda não preenchi nem metade da tela e já tenho um cliente me pressionando para que eu comece uma nova pintura, mas não lembro a última vez que senti tamanho prazer em retratar alguém. Atraso as atividades de forma deliberada e feliz.

Não permito que ninguém veja minha obra, digo que como pintor prezo pela minha liberdade artística e que somente quando finalizada ela poderá ser vista por outros olhos além dos meus. Falo de forma eloquente para dar ênfase ao meu discurso, mas a verdade é que sei que a baronesa não aprovará meu trabalho. Pinto Ernestina da forma que a vejo: uma garota tentando se enquadrar num mundo que não compreende, esgotada de tentar ser aceita pela mãe e aborrecida por não permitirem se dedicar ao que gosta. A verdade é que me cativa.


Luara Batalha
@_virandopaginas
Com sangue sergipano, sotaque baiano e mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Apaixonada pelas letras, é colunista semanal dos sites Fala Barreiras e Folha de Sergipe. Teve seus contos “Invasão de território” publicado na antologia Soteropolitanos, “Momento não esquecido” publicado na antologia Feminismos, “Terapia” selecionado para a antologia Brasil, mostra a tua cara e “Para o porteiro” selecionado para o Prêmio OFF FLIP de Literatura. Atualmente trabalha no seu primeiro romance.

 

3 respostas

  1. todo mundo já foi um pouco Ernestina, as pressões estéticas não deixam mulher nenhuma em paz apesar de atingir mais as mulheres gordas e/ou negras

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