O médico intensivista Luiz Flávio Prado não aguenta mais a atual situação diante do avanço d COVID-19 em Sergipe.
Leia seu desabafo:
Acabei de viver uma situação que é surreal, onde tive que pedir ajuda a colegas de outras UTIs porque eu precisei entubar, simultaneamente, três pacientes, dois deles jovens, um com 31 anos, o outro com 42 anos, e mais um na fila de espera para ser entubado e a gente vai tentar não entubar. Essa é uma situação que para mim é surreal, eu já tenho quase 20 anos de terapia intensiva e nunca passei por uma situação dessas. São pacientes que evoluem muito rapidamente, muito graves.
A gente não vai ter mais vaga. Quando a gente entuba um paciente em UTI, normalmente ele vai ficar 7, às vezes 14, 20 dias ocupando esse leito. Estou verdadeiramente pasmo para entender o que está faltando para as pessoas entenderem o momento que a gente esta vivendo. Temos hospitais fechando as portas e temos bares, restaurantes e shoppingns centers abertos.
Por mais que os hospitais queiram ampliar suas estruturas, ela é finita. Não teremos onde colocar mais pacientes, não teremos como comprar novos ventiladores, eles não se constroem e nem vende na feira, não teremos como ampliar o número de leitos em UTI na velocidade com que os casos estão aparecendo. Isso é um apelo. Não sei a quem pedir, essa é uma situação que a gente esperou que acontecesse lá na primeira onda, mas as coisas foram bem feitas lá. A gente conseguiu isolar, a gente conseguiu achatar a curva, a gente conseguiu reduzir a velocidade de transmissão.
Só existem duas formas de conter a transmissão. Uma delas é você não aproximar o doente do sadio, não aproximar as pessoas. A outra, é que quando essa aproximação exista, um deles esteja vacinado. Só temos duas coisas a fazer: vacinar e isolar as pessoas. Estou verdadeiramente com medo de que a gente comece a ter a situação de pacientes na calçada aguardando uma vaga num hospital com porta fechada. Será que vamos precisar ver gente morrer na calçada para tomar uma atitude?
Alguém tem que fazer alguma coisa, não dá para continuar assim. Se a gente fechar agora, a gente vai ter um reflexo disso talvez daqui a duas semanas. O que está aí, está posto. Se a gente esperar ocupação de UTI para fechar, vai dar errado. A gente não consegue acelerar a criação de UTI na mesma velocidade com que os casos estão aparecendo. Alguém precisa fazer alguma coisa. Isso não vai dar certo.





