Alegando ser vítima de fraude processual, major nega acusações e aponta desencontro de versões por parte dos policiais

Após o Jornal impresso Fan F1 divulgar uma matéria sobre a suposta participação de um caseiro de chácara em uma organização criminosa de tráfico de drogas e que ele utilizava um aparelho celular funcional pertencente à Polícia Militar de Sergipe (PM/SE), o major Carlos Eduardo Vieira Barreto, destacado no 9º Batalhão da PM, citado na matéria como o dono da propriedade, falou com exclusividade ao Fan F1 e narrou a sua versão para os fatos. O fato se deu em 22 de fevereiro deste ano.

Segundo ele, está sendo vítima de fraude processual, tendo os policiais apresentado, até o momento, três versões para o fato.

“Aquilo não aconteceu daquela forma. Eu estava em casa e recebi uma ligação do meu funcionário dizendo “olhe Seu Eduardo, teve uma guarnição da Polícia Militar aqui, revistou tudo, levou aqueles R$ 800 que o senhor me pagou, ameaçou Nane, meu filho que estava no colo com ela e levou um celular”. Ele não me disse qual era o celular. Eu disse que ia lá para ver como estava a situação. Cheguei lá, vi tudo bagunçado, ela muito nervosa, chorando. Ele disse que não sabia o que tinha acontecido porque não estava lá na hora. Peguei o telefone e liguei para a Companhia de São Cristóvão, os policiais nos conhecem, temos a propriedade há 20 anos. Pedi o número do sargento que atendeu a ocorrência para me explicar o que aconteceu e o oficial me disse que não poderia sem a autorização dele. Eu fiz 25 anos de polícia hoje e essa matéria foi o meu presente”, disse o major.

Segundo ele, foi naquele dia, após confissão do seu caseiro, que teve ciência de que o mesmo utilizava drogas. “Chamei meu funcionário e disse a ele que eu precisava saber o que ele tinha a ver com tudo aquilo. Ele me disse que foi na padaria comprar pão, viu a abordagem, inclusive ele conhece os presos que são moradores de lá. Ele confessou que estava usando maconha e que comprava a eles. Eu fiquei sabendo disso naquele dia. Eu indaguei se ele estava usando droga na minha propriedade e ele disse que usava fora de lá e nas folgas. Chamei a atenção e disse que ia tirar a história a limpo e que ia conversar com os policiais para escutar a versão deles”, acrescentou.

Segundo relatos do oficial, foi nesse momento que ele decidiu ir em busca de informações que levassem à verdade dos fatos, indo até a Central de Flagrantes, para onde teria sido levada a ocorrência, atendida pela delegada plantonista, Danielle Garcia.

“Me dirigi até a delegacia, os policiais não estavam mais lá. A delegada me mostrou um dos presos, eu tirei a máscara e perguntei se ele me conhecia. Ele respondeu que eu era dono da Fazenda Ouro Verde e que não tinha visto nada, só que o meu caseiro tinha corrido e caiu alguma coisa dele. A delegada me disse que a versão dos policiais dava conta de que o meu funcionário vinha a cavalo, viu a abordagem, fugiu e os policiais correram atrás dele até a minha propriedade. Só que, da entrada da minha propriedade até a casa do caseiro tem cerca de 300 metros. Ele correu montado num cavalo e os policiais em uma viatura. Ele desceu do cavalo e abriu o portão e continuou correndo. Segundo os militares, eles viram a arma cair e por isso que invadiram. Ele não estava em investigação, não tinham mandado de busca e apreensão. Foi isso que a delegada me passou e que estava no depoimento deles. Eu informei que não tinha como apresentar ele naquele momento porque eu ainda não sabia o que tinha acontecido. Dei boa noite e saí, a delegada não me colocou para fora da delegacia”, revelou Carlos Eduardo.

Casa do caseiro foi totalmente revirada pelos policiais

Em relação à utilização de um aparelho celular funcional para a intermediação do tráfico de drogas na região de Rita Cacete, em São Cristóvão, o major desmente a versão dada pelos policiais na delegacia.

“Na delegacia, a delegada me falou que o telefone que estava lá era funcional e eu voltei para conversar com o meu caseiro novamente. Ele é caseiro e tem a chave da minha casa. O celular funcional estava na gaveta da minha casa, ele pegou o aparelho, colocou para carregar na casa dele. Segundo a esposa dele, no momento que os policiais pegaram o celular, estava carregando no sofá da sala da casa dele. Esse celular é apenas o aparelho, não tem chip funcional, eles nos dão um aparelho ruim para trabalhar e a gente tem que utilizar o WhatsApp, então a gente tira o chip e coloca em outro aparelho, todos os policiais fazem isso. O aparelho estava guardado em minha casa, do jeito que está escrito aparenta ter sido pego com os traficantes”, pontuou o oficial.

Com o intuito de tirar a limpo a história narrada pelo funcionário, o major Carlos Eduardo esteve na padaria onde o mesmo informou que teria ido comprar pão e que fica ao lado de onde aconteceu a abordagem e prisão dos dois envolvidos na operação. Lá, a proprietária confirmou a versão do caseiro e entregou imagens da câmera de segurança que confirmava a situação.

“Toda a versão de meu funcionário condiz com o que está nas imagens. Ele compra pão, passa por perto dos policiais, não há perseguição, não há nada. Ele vai embora tranquilamente. Quem passou a denúncia disse que havia uma arma e que essa dupla havia feito disparos por lá. Eu acho que os policiais deram uma prensa e eles disseram que a arma estava dentro da minha propriedade e eles invadiram. A história do meu funcionário é bem convincente, está tudo nas imagens”, informou.

E continuou: “Ele disse que não viu mais os policiais depois dali. Foi quando eles entraram na propriedade, na casa do caseiro bagunçaram e reviraram tudo, ameaçaram a esposa que estava com um bebê de três meses no colo, acharam R$ 822 que foi do dinheiro que eu paguei a ele, cédulas de R$ 50, uma de R$ 20 e outra de R$ 2, isso não é dinheiro de tráfico. Eles procuraram, não encontraram nada. A esposa do caseiro informou que a propriedade era do major Eduardo, foi nesse momento que eles saíram para conversar lá fora. Acho que não entraram em um acordo de ligar para mim, ficaram com medo de dizer que entrou e que estavam errados e inventaram essa história da arma cair”.

A partir daí, surge a primeira versão dada pelos policiais e confirmada no Relatório de Operação Policial (ROP) feito na delegacia.

“Como é que uma guarnição persegue uma pessoa, de viatura, vê uma arma cair, vai até a casa, tem droga e não prende quem estava lá? Na versão dos policiais, eles não falam para onde o meu caseiro foi, para que lado ele fugiu, se ele foi abduzido, ninguém fala mais nada, só diz que a arma caiu. No dia seguinte levei ele à delegacia e apresentei ao delegado Marcelo Paes, que disse que não iria ouvi-lo por que não estava com o inquérito físico. No dia seguinte eu apresentei novamente e o delegado disse de novo que estava sem o processo e disse que a ameaça e a fraude processual eu registrava na Corregedoria”, narra Eduardo.

A segunda versão apresentada para o fato seu deu quatro dias depois, no dia 26 de fevereiro, após o Major Eduardo ter feito denúncia à Corregedoria da Polícia, quando o major comandante da Companhia de São Cristóvão fez um documento dizendo que a descrição do ROP estava errada e que o funcionário não tinha fugido e a arma não tinha caído dele. Ele informou no documento que foi a esposa do caseiro quem tinha dado a arma aos policiais. Inclusive, nesse documento, quem relata o fato é um graduado que não havia assinado o ROP.

“Quando eu apresentei o vídeo, eles mudaram a versão pela terceira vez e disseram que o um dos presos na ocorrência fez a denúncia de que o meu caseiro faz parte da quadrilha e por isso eles invadiram. Eles fizeram uma operação correta, prenderam os traficantes. A parte mal sucedida foi envolver o meu funcionário da forma como fizeram. Eles falam em uma organização criminosa, mas geralmente quando se fala nisso é porque existe uma investigação e nesse caso não tinha. A Polícia Militar não trabalha com investigação, esse é o papel da Polícia Civil. Eles contam várias versões e isso é fraude processual. Não se trata de prevaricar, se o meu funcionário estivesse envolvido, eu mesmo iria prender ele. Tenho 25 anos de polícia e não respondo a um único inquérito”, lamenta o major.

Por fim, Carlos Eduardo afirma que aguarda a conclusão do Inquérito para a tomada de medidas em relação ao seu funcionário.

“Eu não sou traficante, meu funcionário não é traficante, ele confessou no dia que era usuário e se eu soubesse antes não teria contratado, eu não ia querer um usuário de drogas trabalhando para mim. Inclusive o funcionário não foi dispensado do trabalho para não atrapalhar as investigações. Se for aberto um inquérito contra ele e ficar comprovado que ele é traficante, que ele seja preso e demitido da minha propriedade. Se num primeiro momento ele fosse dispensado, eu estaria dizendo realmente que ele era culpado e que eu estaria envolvido. Quem mais quer que isso seja apurado sou eu, é o meu nome que está na matéria que foi colocada”, finaliza o major Carlos Eduardo.

De acordo com a advogada Daiane Rosendo, que responde pela defesa do major, existe um Inquérito Policial Militar e andamento em relação à fraude processual por parte dos policiais.

“O fato de existir mais de uma versão apresentada pelos policiais constitui fraude processual, delito previsto no artigo 347 do Código Penal, que consiste no ato de modificar intencionalmente dados do processo, com intuito de levar o juiz ou perito à erro. Está em andamento um Inquérito Policial Militar, instaurado à época dos fatos e provocado pelo próprio major, a fim de apurar a conduta ilegal dos policiais na sua propriedade, onde adentraram sem investigação prévia, sem flagrante e sem mandado de busca e apreensão, inclusive, não tendo realizado nenhuma prisão no local”, pontuou a advogada.

 

 

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