A Praça Esquecida Diante dos Olhos do Poder Público

Emanuel Rocha*

No coração de Aracaju, a poucos passos da Câmara Municipal de Aracaju, a Praça Olímpio Campos revela que o abandono também pode morar ao lado do poder

 

No centro de Aracaju, a Praça Olímpio Campos segue como um dos espaços mais simbólicos da cidade. Em frente à imponente Catedral Metropolitana de Aracaju, ela ainda pulsa com a presença diária de trabalhadores, fiéis, ambulantes e transeuntes que mantêm viva sua importância histórica e social. Mas por trás desse movimento constante, há um cenário que já não pode ser tratado com indiferença.

A praça apresenta sinais claros de desgaste. O piso, visivelmente irregular e gasto, compromete a circulação, sobretudo de idosos e pessoas com mobilidade reduzida. Caminhar por ali exige atenção redobrada, como se o simples ato de atravessar o espaço já não fosse mais algo natural. Os bancos, que deveriam convidar ao descanso, estão deteriorados, enquanto os pontos de ônibus carecem de reparos, oferecendo pouca ou nenhuma estrutura adequada para quem depende do transporte público. São problemas que, somados, revelam a ausência de manutenção contínua.

Entre os símbolos que ajudam a contar a história local, o monumento dedicado ao Índio Serigy encontra-se danificado. E quando um monumento se deteriora, não é apenas a estrutura física que se perde, mas também parte da memória coletiva que ele representa. Preservar esses marcos não é um luxo, é um dever.

A Praça Olímpio Campos possui árvores e áreas verdes, mas isso, por si só, não significa que haja cuidado. Cuidar da vegetação não é apenas molhar. Exige manejo técnico, podas regulares, avaliação da saúde das árvores e organização dos arbustos. Sem isso, o que deveria ser sombra acolhedora e paisagem harmoniosa se transforma em descuido visível. Em vários pontos, a vegetação cresce sem orientação, sem função estética ou ambiental clara, perdendo seu potencial de qualificar o espaço.

Há ainda uma questão que afasta e incomoda, o cheiro de urina em determinadas áreas da praça. Trata-se de um problema grave, que envolve tanto a ausência de banheiros públicos quanto a falta de manutenção e fiscalização adequadas. Esse cenário não apenas compromete a experiência de quem passa, mas também fere a dignidade de um dos locais mais importantes da cidade.

A presença de ambulantes continua sendo parte da identidade da praça, mas a falta de ordenamento contribui para a desorganização do espaço. É possível conciliar trabalho e organização, desde que haja planejamento, diálogo e ação do poder público.

E diante de tudo isso, surge uma constatação que beira o irônico. A poucos passos dali está a Câmara Municipal de Aracaju. Tão perto que se vê, tão próxima que se atravessa a rua. E ainda assim, para a realidade da praça, parece um lugar distante, quase inalcançável.

Talvez não seja apenas uma questão de distância. Fica a sensação de que falta presença. Que falta caminhar pelo centro, olhar nos olhos de quem vive a cidade e ouvir o que há muito tempo vem sendo dito. Porque quem anda por ali percebe, sente e convive com problemas que não cabem mais no silêncio.

Há quem diga, com certa ironia, que talvez o maior desafio não seja atravessar a rua, mas enfrentar o encontro com o cidadão atento, aquele que observa, questiona e cobra. O cidadão que não aceita mais ausência disfarçada de rotina, nem descuido tratado como normalidade.

O que se vê é um espaço que clama por atenção, enquanto o tema parece não ocupar o centro das discussões. Fica a impressão de que, para quem decide, a praça está sempre um pouco mais distante do que realmente está. E isso levanta um questionamento inevitável, será que é falta de tempo, de prioridade ou de disposição para encarar a cidade como ela realmente se apresenta?

Não se trata apenas de quem mora em Aracaju. Turistas que visitam a cidade frequentemente passam e permanecem nessa região, atraídos pela beleza e pela importância histórica da Catedral Metropolitana de Aracaju. E o que encontram pode não refletir o verdadeiro potencial da capital sergipana. A falta de cuidado, os problemas estruturais e a desorganização acabam construindo uma impressão negativa, justamente em um dos pontos mais visitados da cidade.

A Praça Olímpio Campos não precisa de soluções superficiais. Precisa de uma intervenção séria que envolva requalificação completa do piso, recuperação de bancos e pontos de ônibus, restauração de monumentos históricos, manejo adequado da vegetação, ordenamento do comércio ambulante e soluções efetivas para a questão da higiene. Mais do que isso, precisa de presença constante do poder público e de cobrança firme por parte do Legislativo.

Diante desse cenário, é inevitável cobrar uma posição clara da Prefeitura de Aracaju. A cidade espera mais do que silêncio ou promessas, espera ação, planejamento e compromisso com seus espaços públicos. Da mesma forma, é preciso que a Câmara Municipal de Aracaju assuma seu papel fiscalizador com seriedade, presença e, acima de tudo, respeito à população.

Porque governar uma cidade também é ter a sensibilidade de enxergar o óbvio e a coragem de agir diante dele. E quando até o que está à porta deixa de ser prioridade, o que falta não é apenas gestão, é atitude. É ação. E, sobretudo, vergonha.

 

* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor  e repórter fotográfico

 

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