A Missa do Cangaço 2025: Quando o Sertão Reza sua Própria História

Memória, Fé e Resistência no Coração do Sertão Sergipano

 

No sertão, a história não é apenas contada — ela é vivida, sentida e celebrada. No próximo 28 de julho de 2025, mais uma vez, romeiros, pesquisadores, sertanejos e curiosos vão se reunir na Grota do Angico, local sagrado da memória nordestina, para participar da tradicional Missa do Cangaço. A cerimônia ocorre dentro do Monumento Natural Grota do Angico, no município de Poço Redondo (SE) — onde, em 1938, tombaram Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros, em uma emboscada conduzida pelas volantes, pondo fim a uma era de fogo e resistência no coração do sertão.

Muito além de uma homenagem, a missa é um ato de memória coletiva, que resiste ao esquecimento e ao julgamento simplista. Organizada com esmero por Vera Ferreira, neta do casal mais famoso do cangaço, e toda uma rede de apoio que faz com que tudo isso aconteça com organização e sensibilidade, a celebração é parte da Rota do Cangaço, uma imersão cultural, histórica e afetiva que percorre cidades marcadas pela presença dos cangaceiros, pelos confrontos e pelas cicatrizes da injustiça social que alimentou esse fenômeno.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA – ROTA DO CANGAÇO 2025

25/07 (Sexta-Feira)

6h – Saída da CCETECA para Porto da Folha/SE;

9h – Visita à fazenda Enxu – local onde Lampião e Maria entregaram a filha, Expedita Ferreira, ao casal de vaqueiros. Bate papo com Expedita Ferreira e Vera Ferreira;

  • Visita ao Povoado Jaciobá – local que a família dos vaqueiros e Expedita passavam o verão.

 13h – Almoço na Cabana do João – Pão de Açúcar/AL; 15h30 – Saída para Piranhas/AL (Hotel DuNem);

  • Noite livre.

26/07 (Sábado)

  • 6h – Café da manhã
  • 8h – Saída para Delmiro Gouveia/AL
  • 9h – Palestra na sala de cinema do Shopping da Vila com o Prof. Edvaldo Nascimento, sobre a história de Delmiro Gouveia e seu envolvimento com Lampião
  • 12h30 – Almoço
  • 15h30 – Retorno para Piranhas/AL
  • Noite livre

27/07 (Domingo)

  • 6h30 – Café da manhã
  • 8h – Saída para os Cânions do São Francisco
  • 12h – Almoço no Restaurante Karranca’s
  • 15h – Retorno para o Hotel DuNem
  • Noite livre

28/07 (Segunda-feira)Dia da Missa do Cangaço

  • 5h – Café da manhã
  • 6h30 – Saída de catamarã rumo ao Cangaço Eco Parque, com destino final à Grota do Angico, localizada dentro do Monumento Natural Grota do Angico, em Poço Redondo/SE
  • 8h – Celebração da Missa do Cangaço
  • 12h – Almoço no Cangaço Eco Parque
  • 15h – Retorno para Piranhas e saída para Aracaju (CCETECA)

Mais do que um roteiro, a Rota do Cangaço é um mergulho em camadas profundas da identidade nordestina. Cada parada carrega símbolos, narrativas e feridas abertas. Mas é na Grota do Angico que tudo se reúne: o sagrado, o trágico, o poético e o político. É lá que o sertão se ajoelha — não por submissão, mas por respeito.

Na Missa do Cangaço, o couro do chapéu se une ao pano do altar. As balas de 1938 viram palavras. E as cruzes fincadas na caatinga lembram que há muito mais humanidade no cangaço do que os livros de história costumam admitir.

E quando o sol começa a se espreguiçar sobre a caatinga e o silêncio da Grota do Angico repousa sobre os ombros dos visitantes, ecoa no imaginário o lamento imortal de Luiz Gonzaga, símbolo maior da alma sertaneja:

“Numa tarde bem tristonha
Gado muge sem parar
Lamentando o seu vaqueiro
Que não vem mais aboiar…”

Assim também o sertão lamenta, lembra e celebra — com sanfona, oração e resistência. Porque enquanto houver fé e memória, o cangaço jamais será apenas uma página virada: será sempre uma história viva, com rosto, voz e coração.

 

Emanuel Rocha

 

Historiador, repórter fotográfico e poeta popular

Fotos: Emanuel Rocha

 

 

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