A Marcha que Jesus reconhece: Onde a dor grita

A Marcha que Jesus reconhece: Onde a dor grita

Jesus não desfila para aplausos. Ele marcha onde o amor é urgência.

 

Enquanto multidões se reúnem nas ruas e nos estádios para cantos de louvor, a caminhada real de Jesus nunca teve um forte envolvimento em trazer pessoas de fé para as praças. Jesus não desfilou, nem saiu cantando em passeatas. Ele sempre foi, e é, aquele que vai até os perdidos, os machucados e os que foram deixados para trás — nas sombras, nos becos, nos hospitais, nas prisões. Cristo não convocou seus discípulos para festas de adoração, mas para uma revolução de amor prático. Sua caminhada se move em hospitais superlotados, campos de refugiados e prisões esquecidas. É ali, onde os pés descalços sangram, onde as crianças choram com fome e onde os velhos ainda esperam sozinhos pela morte — que está o verdadeiro altar.

Jesus está em Gaza. Nas ruínas, no meio dos escombros, abraçando crianças órfãs, mães que perderam filhos, famílias desfeitas pela guerra. Ele está nas trincheiras da Ucrânia, nas periferias da Síria, nos campos de refugiados da África, nos bairros empobrecidos do Brasil. E também está nas praças de Aracaju, sentado entre os desamparados, secando lágrimas e oferecendo dignidade aos abandonados pela sociedade.

Jesus também está ao lado da comunidade LGBTQIA+ que sofre perseguições, rejeições e violências em nome de uma fé que Ele jamais pregou. Está junto dos que são expulsos de casa, dos que choram sozinhos, dos que oram em silêncio pedindo apenas para serem amados como são.

E muitas vezes — é preciso reconhecer — são aqueles que sequer professam fé alguma que mais se aproximam desse amor ensinado por Jesus. Há ateus, agnósticos, pessoas de outras tradições que, mesmo sem carregar um rótulo religioso, praticam diariamente a compaixão, a solidariedade e o cuidado com o próximo. Enquanto alguns que se dizem discípulos erguem muros de julgamento, esses estendem as mãos. Porque, no fim, a fé verdadeira não se mede pelas palavras que dizemos, mas pelas vidas que tocamos. O amor não é propriedade de uma religião — é essência do próprio Deus.

Ele não pede direção, nem identidade — Ele apenas pergunta: “Você está ferido?” E, se esteja, Ele cuida. Porque o recorte de Jesus sempre foi amor. Quem segue, em nome d’Ele, exclui quem não o conhece. Ele não mantém bandeiras, não dá amparo a governos, não escolhe lados. O único lado de Jesus é o amor, é a vida, é a paz. Ele está onde caem os mísseis, onde cai o sangue, onde grita o desespero — amparando, cuidando, chorando com seus filhos.

“Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro…”

(Belchior – Sujeito de Sorte)

Essa estrofe não aparece aqui por acaso. Ela é quase o esboço da humanidade nos dias atuais. De quem vive na beira do abismo; de quem morre aos poucos a cada dia — seja na explosão de uma guerra, na dor da fome, na solidão de um leito de hospital ou na invisibilidade das ruas. Mas é também grito de resistência. Porque mesmo caminhando para a morte simbólica, a morte física ou emocional, há aqueles que insistem em não morrer. Há quem se levante, mesmo ferido, e declare: “Esse ano não morro”.

Jesus não anseia por nosso reconhecimento — Ele anseia por nossas ações solidárias. Ele não busca multidões entusiasmadas — deseja pessoas prontas a ajudar a carregar o fardo do outro. Enquanto planejamos grandes eventos, Ele questiona:

“Quando me viram com fome e me deram de comer? Com sede e me deram de beber? Doente e me visitaram?” (Mateus 25:37-40).

A verdadeira medida da modernidade cristã não está no número de pessoas, mas sim nas mudanças que ocorreram em suas vidas — aqueles que antes passavam despercebidos e agora são valorizados, os que se encontravam desprovidos e agora estão com roupas, e os que estavam enclausurados e hoje gozam de liberdade.

Para seguir Jesus de verdade, precisamos ter um objetivo claro: ir aos lugares onde há dor. O Reino de Deus aparece nesse tumulto — não com palavras sem sentido, mas sim por meio da comida, dos remédios, do acolhimento e da justiça. A fé que não se conecta com os problemas da humanidade é apenas uma ilusão. “Vamos seguir em frente.” Avançar como Ele fez: com os pés cheios de poeira dos caminhos que as pessoas marginalizadas caminham; com as mãos cansadas de trabalhar; com o coração machucado pelo que também machuca o coração de Deus.

Essa é a única procissão que interessa ao Céu. Porque, no final, Jesus não perguntará quantos eventos fizemos, mas quantos feridos enfaixamos. Não perguntará quantos cânticos entoamos, mas quantos prisioneiros libertamos.

E se a sua fé não for capaz de atravessar fronteiras, romper muros, derrubar bandeiras e abraçar quem sofre — então ela não passa de barulho vazio. Bonita por fora, morta por dentro.

A marcha está convocada. Mas não se iluda: nem todo mundo quer ir. Porque o caminho é estreito, sujo, desconfortável… e o destino é sempre o mesmo: onde quer que um filho de Deus esteja sofrendo.

 

Emanuel Rocha é historiador, coautor dos livros Bacias Hidrográficas de Sergipe, Unidades de Conservação de Sergipe e Bairro América: A Saga de uma Comunidade. Também atua como repórter fotográfico e poeta popular.

 

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