A Conta ainda não chegou: As incertezas da privatização da água em Sergipe
O futuro dirá se a venda foi fonte de progresso… ou só mais um negócio com sede de lucro.
Num estado onde as torneiras já rangem de desigualdade, a venda da água — que deveria ser bem comum e direito universal — saiu do campo das discussões e virou fato consumado. Sergipe entregou à iniciativa privada o serviço de abastecimento e saneamento.
Vieram as promessas de sempre: mais investimentos, melhoria na qualidade, expansão dos serviços, modernização. Palavras conhecidas, embaladas em discursos que misturam desenvolvimento com eficiência, como se lucro e direito pudessem andar sempre de mãos dadas.
Mas, antes mesmo de o contrato completar seus primeiros meses, as reclamações já ecoam nas rádios, nos programas de TV e nas redes sociais. A população já sente na pele o impacto da transição: falta de água, problemas no esgotamento sanitário e tantos outros transtornos que, na prática, desmontam o discurso de que tudo seria modernizado de forma rápida e eficiente.
O futuro dirá se, além dos problemas já sentidos, o consumidor também pagará mais. Porque uma coisa é certa: empresa privada não entra em negócio para perder.

Em breve saberemos se o povo de Sergipe conquistou um avanço… ou apenas recebeu um presente de grego — desses que chegam embalados em laços bonitos, mas escondem problemas dentro.
E assim seguimos, olhando para a torneira, para o céu, para o hidrômetro e para o contrato assinado… sem saber se dali sairá a água que mata a sede ou só o gosto amargo de mais uma promessa que evapora.
Só o tempo dirá. Ou talvez… nem ele.
Como nas “Águas de Março”, que vêm trazendo vida e incertezas, fechamos o ciclo, sabendo que a chuva carrega tanto a esperança quanto o desafio.
“É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol…”
E assim seguimos, sabendo que, se essa água nos faltar, ficaremos à mercê do deserto da sede e da esperança vazia — sem saber se um dia ela voltará a ser fonte de vida ou se permanecerá apenas um produto vendido, um negócio feito às pressas, cheio de promessas e dúvidas que ainda não sabemos se terão resposta.
No fim das contas, só o tempo vai mostrar — com a força da correnteza ou o silêncio da seca — para quem, de fato, essa privatização foi boa.
.Emanuel Rocha é historiador, coautor dos livros Bacias Hidrográficas de Sergipe, Unidades de Conservação de Sergipe e Bairro América: A saga de uma comunidade. Também atua como repórter fotográfico e poeta popular.




