Há anos via o mesmo homem, todos os dias, sentado na mureta em frente ao meu restaurante. De blusa regata, bermuda e tênis, com uma vasta cabelereira branca, ele poderia passar por uma pessoa qualquer apreciando o pôr do sol senão fossem os ombros curvados e um porta-retratos que sempre carregava. De longe, imaginava qual seria a sua história e, como sou tímido, nunca me apresentei. Só que, um dia, ao perceber que estava chorando, reuni toda a minha coragem e me aproximei oferecendo água e bombons.

  • Boa tarde, desculpa incomodar, mas o senhor está bem? Posso ajudar com algo?

O senhorzinho me olhou através das lágrimas e dos óculos fundo de garrafa e nada respondeu. Era perceptível que havia nele uma grande tristeza. Repeti a pergunta e não obtive nenhuma resposta além de um movimento discreto com a cabeça em agradecimento. Quando estava me retirando, ele, por fim, reagiu:

  • Pode ficar um pouco comigo?

  • Claro, o tempo que o senhor precisar.

Simplesmente sentei ao seu lado e assisti ao pôr do sol. Em determinado momento, ele segurou minha mão e, apesar do susto com o gesto pouco comum, não retirei. Desfrutada a beleza do fim do dia, ele guardou o porta-retratos em uma mochila e se levantou.

  • Obrigado – disse enquanto partia.

Durante dois anos essa foi nossa rotina. Todos os dias ele sentava na mureta, eu esperava alguns minutos, oferecia água e chocolates, lhe dava a mão e apreciávamos o pôr do sol. Nunca trocamos nenhuma outra palavra.

Sem aviso, ele parou de ir. Fiquei preocupado, mas nunca havia como procurá-lo. Não sabia nem o seu nome, até que fui abordado por um dos fregueses do restaurante:

  • O senhor é o homem que assistia ao pôr do sol todo dia com um senhor idoso aqui na frente? – perguntou uma jovem que vim a descobrir ser uma das filhas do senhorzinho, que se chamava Giordano – Meu pai faleceu há duas semanas e encontramos esta carta entre as suas coisas. Acreditamos que seja para você – e me entregou um envelope onde se lia “Para minha anônima companhia”.

Sua morte e sua carta eram inesperadas. Sua filha me explicou que o porta-retratos continha a foto de sua mãe, que havia falecido há 10 anos, e que aquela era a praia na qual passeavam no início do namoro. Para homenagear a memória do meu amigo, esperei o pôr do sol para abrir a carta, sentado na mureta, como fazíamos diariamente:

“Querido companheiro sem nome, sinto muita falta da minha esposa, Claudia. Ela foi o meu primeiro e único amor. Todos os dias a levo, da minha maneira, para ver o pôr do sol que tanto contribuiu com nossa história. Por ser um momento tão nosso, sempre achei uma traição não o honrar, então nunca conversei com você. Pelo nervosismo dos meus filhos, percebi que não tenho muitos dias, então, preciso te dizer algo: obrigado pela presença acalentadora durante esses anos, você apoiou um velho senhor sem pedir uma palavra em troca. Sem saber, tornou meus dias menos solitários”.


Luara Batalha
@_virandopaginas
Com sangue sergipano, sotaque baiano e mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é engenheira civil, mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Sempre dedicou parte do seu tempo a expressões artísticas e desde cedo se descobriu uma leitora voraz, mergulhando em obras de diversos estilos. Apaixonada pelas letras, teve seu conto “Invasão de território” publicado na antologia Soteropolitanos e atualmente trabalha no seu primeiro romance.

 

Fonte: Fala Barreiras

4 respostas

  1. …” sem pedir uma palavra em troca.”
    Maravilhoso.
    “Sem saber, tornou meus dias menos solitários”.
    Perfeito.
    Emocionante.
    👏👏👏👏👏👏👏

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