A Morte do Grito: O Batistão sob o Autoritarismo do Silêncio
Emanuel Rocha
A higienização do futebol sergipano: proibindo a festa do povo para vender o silêncio das arquibancadas
O futebol brasileiro vive uma crise de identidade profunda, e o diagnóstico é claro: a teatralização. O que antes era o “país do futebol” está se transformando em um grande auditório de luxo, onde a regra é o silêncio e o comportamento contido. Em Sergipe, esse cenário ganha contornos de um absurdo quase surrealista, onde a lógica da segurança pública parece ter sido substituída por um autoritarismo seletivo que fere a alma do torcedor e ignora a cultura das arquibancadas.
É irônico, para não dizer trágico, que no estado que se autoproclama o “mais seguro do Nordeste”, a Polícia Militar e as autoridades esportivas assinem, semanalmente, um atestado de incapacidade operacional. A proibição de charangas e baterias nas arquibancadas sob o pretexto de prevenção à violência é uma falácia que não resiste a cinco minutos de observação básica. Tratam instrumentos de sopro e percussão como ameaças à ordem pública, como se o som de um trompete ou o ritmo de um surdo fossem os gatilhos para a barbárie, e não a falha crônica na revista e no policiamento preventivo que deveria focar em quem realmente quer brigar.
O que vemos sábado no Batistão é uma contradição que beira o deboche. Enquanto o torcedor raiz é impedido de levar sua charanga para animar o time, o futebol-business permite bandas e shows barulhentos nos espaços instalados embaixo das mesmas arquibancadas. Se o instrumento é o problema, por que ele pode tocar perto do bar, mas é barrado perto do campo? A resposta é óbvia e dolorosa: o que incomoda não é o objeto, mas a festa popular. Estão higienizando o espetáculo e punindo quem mantém a tradição viva.
Quando a polícia proíbe elementos básicos da cultura de estádio, ela admite tacitamente que não consegue gerir uma partida em uma praça esportiva de médio porte. Pelo Brasil afora, vemos estádios pulsando com bandeiras e músicos, onde a segurança é feita com inteligência e não com proibições preguiçosas. Se em Aracaju a segurança depende do silêncio para funcionar, então ela não é robusta; ela é frágil, burocrática e covarde. Proibir é sempre mais fácil do que planejar.
Essa teatralização é um projeto de silenciamento. Querem o torcedor sentado, consumindo passivamente, sem o “barulho incômodo” das massas. Estão matando o futebol raiz em Sergipe para colocar no lugar um produto asséptico, onde a polícia dita o ritmo da música, ou a ausência dela, e a federação assiste de camarote à morte da identidade dos nossos clubes. Se o estado é o mais seguro do Nordeste, por que tem tanto medo de um tambor? O futebol sergipano resiste por teimosia, mas o Batistão sem charanga é apenas um cemitério de cimento armado sem luzes de LED.
- Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor e Repórter fotográfico



