Se me pedissem para escolher um outro tempo para viver, que não o agora, eu não precisaria pensar duas vezes. A resposta, sem dúvida, seria entre os séculos XV e XIX. A escolha do período não é aleatória, estes séculos são bastante utilizados como pano de fundo para os romances de época: livros que narram, na maioria das vezes, histórias românticas fictícias, apresentando os costumes, os trajes e as regras sociais dos anos em questão.
É fácil nos colocarmos em períodos distintos da história, mas sempre esquecemos de que não levaríamos conosco a nossa conjuntura social. No recorte temporal que escolhi, as mulheres possuíam obrigações e papéis que não cabem mais no século XXI, então, dificilmente eu conseguiria me adequar as regras. O que eu gostaria, se possível, era experimentar as coisas do período – ou pelo menos aquelas romantizadas por mim – com toda a autonomia que possuo no agora (com certeza, nem o gênio da lâmpada conseguiria me proporcionar isso). Provavelmente, por conta “dessas dificuldades técnicas” que os romances de época que mais me marcaram foram aqueles com protagonistas com personalidades fortes e que, de alguma forma, questionaram as regras impostas, mesmo que sutilmente.
Um exemplo é o renomado clássico inglês Orgulho e Preconceito[1], no qual Jane Austen nos presenteia com a típica sociedade britânica do século XIX e com uma família desajeitada. Elizabeth (Lizzie) é a segunda irmã mais velha de um grupo de cinco, cujos pai – condescendente ao extremo – e mãe – somente preocupada em casar as filhas – se comportam de forma inapropriada para os padrões da época. Nesse “harém” dos Bennets, Lizzie se mostra a mais centrada e questionadora, sempre tentando ver além do óbvio e, ao longo do texto, acompanhamos o seu amadurecimento. Até então, a descrição da personagem não consegue transparecer nenhum comportamento de destaque, mas para que a minha escolha faça sentido, preciso esclarecer que ela recusou duas propostas de casamento financeiramente interessantes, apesar de não possuir melhores perspectivas de matrimônio. A indignação familiar em relação a essa atitude foi considerável, visto que Lizzie não era tida como prendada, por não saber bordar, desenhar ou tocar bem o piano. Em uma das passagens mais fortes sobre o tema, ela diz que acredita que uma mulher que se enquadre na classificação de prendada seria muito difícil de ser contida, porque para assim ser reconhecida, ela ainda precisava, além do já citado, saber de história, geografia e línguas. Para o período, um pensamento um tanto independente para uma mulher.
O comportamento de Lizzie ainda é contraposto ao das duas irmãs mais novas, que representam a frivolidade feminina do período, pois o único objetivo delas é conseguir se casar. A conduta relapsa do Sr. Bennet, claramente avaliado de forma negativa pela sociedade, incentiva as atitudes condenáveis de Kitty e Lydia, que culmina na fuga de uma delas com um soldado, manchando ainda mais o nome da família.
No mesmo estilo, Mulherzinhas[2], de Louisa May Alcott, publicado em 1868, acompanha a história de quatro irmãs (Meg, Jo, Beth e Amy March), desde o início da adolescência até a fase adulta. Neste romance americano, todas as irmãs merecem atenção, apesar das opiniões e modos tão diferentes, mas a que mais se destaca é Jo, a segunda mais velha, que também não aceita um “bom” casamento e busca alcançar os seus sonhos, que é ser uma escritora de sucesso. Ao contrário de Lizzie, a protagonista desta história questiona as regras de forma direta, chegando a raspar a cabeça e vender o cabelo para se fazer útil e ajudar ao pai ferido na guerra de secessão. Fugindo um pouco do humor ácido inglês, nesta obra também vivenciamos a complicada convivência humana de uma forma leve, vendo nas entrelinhas mensagens de amor ao próximo, perdão e caridade.

Como bons romances de época, essas obras terminam com finais felizes e escondem, mesmo que não intencionalmente, a parte não tão romântica do dia a dia daqueles anos. Se avaliarmos de forma fria, a precariedade sanitária e as condições sociais tornavam, provavelmente, a vida um grande desafio: longas distâncias a serem percorridas a pé, esgotos a céu aberto, sistema de saúde precário, baixa escolaridade da população e cartas que demoravam meses para chegar. Nesta situação, esse texto, por exemplo, poderia nunca ter chegado a você.
Pensando melhor, acho que só quero viver esse período em livros e festas a fantasia.
[1] O livro já foi adaptado algumas vezes para a televisão e para o cinema. A última versão foi a de 2005, em que Keira Knightley interpretou Elizabeth Bennet e Matthew Mcfadyen deu vida a Darcy. A trilha sonora, composta por Dario Marianelli, é uma obra de arte a parte.
[2] Originalmente, o que conhecemos como o livro Mulherzinhas eram na verdade dois: Mulherzinhas e Boas Esposas, que hoje são impressos como um único volume.
O romance foi adaptado para o cinema em 2019, contando com a participação de Emma Watson e Saoirse Ronan. A adaptação, que recebeu o nome Adoráveis Mulheres, não explicou algumas coisas que amarrariam melhor a história, além de ter encurtado o arco de alguns personagens, o que modificou o enredo.
Livro preferido de Rachel Green e um dos únicos lidos por Joey Tribbiani (personagens da série Friends)
Luara Batalha
@_virandopaginas
Com sangue sergipano, sotaque baiano e mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é engenheira civil, mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Sempre dedicou parte do seu tempo a expressões artísticas e desde cedo se descobriu uma leitora voraz, mergulhando em obras de diversos estilos. Apaixonada pelas letras, atualmente trabalha no seu primeiro romance.





6 respostas
Simplesmente amando as colunas de Luara!
Maravilha !!!! Muito orgulho ,leitura leve
“Pensando melhor, acho que só quero viver esse período em livros e festas a fantasia”.
Sua independência desde sempre mostra bem claramente que seria esse um grande sonho.
Esses são simplesmente meus livros preferidos, com destaque para Orgulho e Preconceito!
Sim, Orgulho e Preconceito também é meu preferido
Eu queria ter vivenciado a redemocratização (emoji pensando)