2026 será um teste de estresse para a política fiscal brasileira

Em ano eleitoral, a matemática política empurra o Executivo a gastar; a matemática econômica cobra a conta via inflação, juros e crescimento. Em 2026, o Brasil entrará nesse dilema com três tensões latentes: uma política monetária ainda restritiva, expectativas de inflação que teimam em ficar acima da meta e um relacionamento irregular com o Congresso em matérias fiscais e tributárias. A pergunta não é se haverá pressão por mais despesa; é como e a que custo. Juros elevados funcionam como trava e lembrete: qualquer gesto de “criatividade fiscal” encarece o prêmio de risco, desancora expectativas e prolonga o aperto monetário.

O recado implícito ao Planalto é simples: disciplina fiscal hoje abre espaço para cortes graduais de juros amanhã. O contrário também é verdadeiro — e mais rápido. Sem base sólida, a pauta arrecadatória emperra. Cada revisão de renúncia, cada mexida em benefício setorial, cada tentativa de recomposição de receitas encontra um Legislativo fragmentado e caro em concessões. Em clima pré-eleitoral, o custo político de aumentar receita sobe, enquanto a demanda por mais gasto cresce. O risco prático é transformar o arcabouço fiscal em peça de retórica, não de governo.

A regra do arcabouço em limitar o crescimento real da despesa ao desempenho da receita, funciona; desde que se resista a exceções, superestimativas de arrecadação e contabilidade criativa. Em 2026, o teste não é jurídico, é político: cumprir metas com base em receitas recorrentes, contingenciamento tempestivo e veto a “jabutis”. Sem isso, a âncora vira âncora de papel. Nesse contexto, três caminhos se desenham. Primeiro, o cenário da disciplina desconfiada, o mais provável: o Executivo preserva a regra nas margens, acomoda pressões usando instrumentos legais e “fecha as contas” sem folga, enquanto o Banco Central mantém o tom duro por mais tempo. O efeito prático é crescimento modesto, inflação de serviços resiliente e juros caindo apenas tardiamente.

Segundo, o cenário do gasto eleitoral: diante de pressões setoriais e do calendário, o governo expande benefícios e desonerações, amplia exceções no arcabouço e aposta em receitas otimistas. O resultado é prêmio de risco maior, câmbio pressionado, postergação do ciclo de queda de juros e um 2027 que começa em modo de ajuste. Terceiro, o cenário do pacto mínimo pró-receita: Executivo e Congresso costuram um acordo enxuto para recompor bases tributárias e revisar renúncias de forma seletiva, sustentando o primário sem ampliar gasto real; com previsibilidade mínima, abre-se espaço para alívio monetário no segundo semestre, ainda que o arranjo permaneça frágil.

Por que isso importa? Porque juros e crédito dependem de previsibilidade fiscal; ambiguidade prolonga o aperto. Porque o investimento privado precisa de horizonte estável; sem ele, fica contido. E porque as expectativas de inflação são o placar da credibilidade; convergência depende de meta e método. Se 2026 for um ano de tentações, que seja também o ano da escolha adulta. Ou o governo sustenta o arcabouço com disciplina, mesmo quando dói politicamente, ou abraça a lógica do “ganha-se hoje, paga-se caro amanhã”.

Não há terceira via entre popularidade fácil e credibilidade difícil. A linha vermelha é gastar sem base de receita e sem acordo transparente com o Congresso. Os sinais vitais a monitorar são primário recorrente, veto a jabutis, contingenciamento tempestivo e expectativas convergindo. A regra de bolso é direta: cada atalho fiscal vira prêmio de risco; cada gesto de respeito à regra vira ponto na queda dos juros. O país não precisa de bravatas, precisa de coordenação. Se o Planalto escolher os aplausos rápidos, herdará o silêncio caro dos mercados. Se escolher a previsibilidade, talvez não ganhe manchetes, mas ganhará 2027.

 

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