“Eu não sei se foi sonho, mas quando eu estava intubada, eu tentava gritar para dizer que estava ali, mas ninguém me ouvia. Foi quando me veio a imagem dos meus filhos Davi e Arthur, chorando e me chamando. Nessa hora eu disse: Jesus, eu preciso cuidar dos meus filhos que são pequenos, me dá uma chance. Então comecei a orar e chorar, aí tive a sensação que estava voltando. Não sei se era sonho, só sei que Deus me permitiu estar aqui e o amor que tenho pelos meus filhos me deu forças para lutar”.
Esse relato comovente é de Fabiane Oliveira dos Santos, mãe dedicada e amorosa de Davi, de 13; Arthur de 9; e do pequeno Heitor de quase dois meses e que também faz parte dessa história a envolver muita fé, amor, superação e esperança.
Em Sergipe mais de 4.600 pessoas morreram em decorrência da Covid-19; para se ter ideia, esse número é maior que a população de pelo menos 10 municípios sergipanos. É como se a pandemia tivesse acabado com 10 cidades, e outras já estão perto do fim. O número é alarmante e não para de crescer; em todo país já são mais de 428 mil mortes. Mas é uma história com final feliz, cheia de fé e superação, que F5News quer propagar neste momento.
Fabiane tem 37 anos e trabalha como assessora parlamentar na Câmara Municipal de Malhador, no Agreste do estado, onde mora com o esposo Robson Gomes Oliveira Souza – que tem uma participação importante nesta história; e os três filhos. Mesmo tomando todos os cuidados, usando máscara, higienizando as mãos, evitando aglomerações, ela pegou a Covid-19 e deu à luz enquanto estava intubada.
F5News foi em busca dessa história e conversou nessa quinta-feira (13) com Fabiane que, em meio a tantas notícias ruins, chega para inspirar e levar um pouco de conforto e esperança a tantos corações.

Aos sete meses de gestação, mãe dá à luz intubada em Aracaju
Fabiane diz que ficar grávida na pandemia não foi algo planejado, mas aconteceu e ela se encheu de felicidade para receber o terceiro filho. Em março deste ano, prestes a completar sete meses de gestação apresentou leves sintomas gripais. Na mesma época, equipes da Força Tarefa Covid-19 da Universidade Federal de Sergipe (UFS) realizaram testagem de uma amostra da população no município e ela decidiu participar. O teste rápido deu negativo, mas como ela estava com tosse, foi submetida ao RT-PCR, cujo resultado demora um pouco mais para ficar pronto.
Dias depois a tosse piorou e veio a falta de ar, ela então foi para o Hospital Regional de Itabaiana. Lá foi medicada e liberada, com a orientação de tomar azitromicina. Fabiane retornou para Malhador, mesmo sem se sentir melhor. Cerca de três dias depois, o quadro se agravou, a falta de ar piorou e ela já estava debilitada. Decidiu então ligar para o esposo Robson, que trabalha embarcado e estava na Bahia.
“Eu já não estava suportando, falei com meu esposo e ele retornou correndo. Chegou em casa por volta das 2h da madrugada, quando viu minha situação me levou direto para Aracaju. Ao ser admitida no hospital, fui direto para o oxigênio e começou então a batalha pela vida, tanto para mim como para meu bebezinho”, disse.
Intubação e parto
Fabiane diz que no primeiro dia ainda estava consciente, mas depois não lembra de mais nada. Foram cerca de cinco dias até a intubação, os médicos precisavam também de exames que confirmassem a idade gestacional para seguir com o procedimento e salvar mãe e filho.
“Lembro que antes de ser intubada segurei a mão do médico e disse: pelo amor de Deus, não me deixe morrer, eu tenho três filhos para criar”.
O parto foi marcado para o dia 19 de março, mas no dia da cirurgia o quadro da paciente se agravou. Ela foi transferida às pressas para uma maternidade particular ainda em Aracaju, onde a cesárea foi realizada. E tudo foi como esperado, o pequeno Heitor, prematuro, precisou ficar na Unidade de Tratamento Intensivo Neonatal (Utin), e Fabiane voltou ao hospital para dar continuidade ao tratamento.
Renascimento
Quando Fabiane foi extubada ela não sabia o que tinha acontecido, não sabia sobre o parto. O esposo e a médica intensivista Maria Lizete – que esteve ao lado dela durante todo tempo – se encarregaram de contar o que tinha acontecido.
“Eu fui voltando aos poucos, eu não sabia o que tinha acontecido com meu filho, aos poucos meu marido foi me explicando, a doutora Lizete também foi maravilhosa, foi me explicando tudo e que meu filho estava bem, estava na Utin e estava tudo bem”.
Depois da extubação, foram cerca de 15 dias internada até receber alta médica, mas Fabiane ainda precisava de um tempo para recuperar os movimentos e, por isso, não pode conhecer o filho de imediato. Se enquanto ele estava na barriga ela o sentia mexer, e podia vê-lo na ultrassonografia, agora ela contava com outro recurso, que se popularizou na pandemia, a chamada de vídeo pelo celular.
“Meus movimentos ficaram comprometidos, eu não andava, não comia sozinha, meu esposo era quem me ajudava em tudo. Eu estava totalmente dependente. Conheci meu filho por chamada de vídeo, as enfermeiras ligavam e eu podia ver e conversar com ele”, relata.
Fabiane lembra dos momentos difíceis, dos medos, do desespero para conseguir respirar, da insegurança, mas diz que nunca perdeu a fé e a esperança, e sempre pedia a Deus para voltar para os filhos.
Família
Fabiane destaca que o apoio da família foi fundamental durante todo tempo, mesmo antes de ir para o hospital já contava com a ajuda dos pais. Como o esposo trabalha embarcado e com isso passava alguns dias longe de casa, foram os pais dela, idosos, que enfrentaram o medo do vírus para ajudá-la. Depois veio o marido Robson, que largou o emprego para cuidar dela.
“Sei que pra eles também foi muito angustiante, porque as notícias não eram boas, volta e meia chegavam notícias ruins. Meu pulmão chegou a ficar comprometido mais de 80%, e as notícias eram de que eu estava muito mal, e que provavelmente não sobrevivesse. Robson foi primordial em tudo, na minha recuperação e em tudo”.
Ela lembra que, quando acordou, a primeira pessoa que viu foi o esposo, que estava ao lado da cama. Robson dormiu no hospital, passou a ser os pés e as mãos de Fabiane, e só saia para visitar o pequeno Heitor na Utin.
“Foram 15 dias direto cuidando de mim, o tempo todo, ele não saia do meu lado, fazendo de tudo, dando comida, banho, tudo. Ele teve um extremo cuidado comigo e eu sei que hoje em dia isso não fácil”.
Equipe médica
Durante toda entrevista ao F5News Fabiane falou em Deus e na fé que tem. Agradeceu aos familiares, amigos e a todos da cidade pelas correntes de orações. Ela diz que em nenhum momento perdeu a fé e a esperança de que iria voltar para os filhos e para a família, mas reconhece que além da fé contou com apoio e a dedicação dos profissionais da saúde, que acreditaram nela e lutaram juntos pela vida e recuperação daquela mãe.
“Deus foi muito bom comigo e os profissionais que não desistiram de mim. Foi muita luta, mas esse é o sinal de esperança, de que a gente tem que ter fé em Deus e isso eu sempre tive muito, e também na ciência, na medicina e nos bons profissionais. Sei que Deus botou anjos na minha vida, tanto os médicos, enfermeiros, técnicos, toda equipe, sei que eles fizeram o possível e o impossível para me ajudar, claro que sempre à frente de tudo Deus. Sei que se não fossem esses profissionais e Deus junto com eles, eu não estaria aqui para contar essa história”.
Em agradecimento a médica intensivista Maria Lizete, Fabiane a convidou para ser madrinha do Heitor, e ela aceitou.
Superação
A postagem abaixo foi feita pelo médico cardiologista José Augusto Barreto, que conheceu a história da Fabiane no hospital e fez questão de registrar em foto alguns momentos dela com Heitor.
Fabiane diz que ela e o filho são um milagre de Deus, um exemplo de fé e superação. Ela ainda passa por acompanhamento médico por conta das sequelas da covid-19, mas na última segunda (10), um dia após aquele dedicado às mães, ganhou o melhor presente de todos: Heitor recebeu alta médica e os dois já estão em casa.
“A primeira sensação de pegar meu filho foi maravilhosa, de saber que Deus foi maravilhoso em todos os detalhes, além dele me dar uma segunda oportunidade, deu ao meu filho força para lutar e ele foi um guerreirinho também, hoje ele está bem, está aqui comigo. Hoje já consigo pegar meu Heitor no colo, já recuperei a minha independência e sigo com minha fé e com a certeza de que sempre há esperança”, diz.
Edição de texto: Monica Pinto




