Por Coronel Rocha: “O NORDESTE NÃO FOI ESQUECIDO APENAS POR LULA“!

O vídeo de Nikolas Ferreira, “O Nordeste esquecido”, toca em uma ferida aberta na história brasileira: uma região rica em recursos naturais, cultura, força de trabalho e potencial econômico, mas que ainda convive com problemas sociais que deveriam envergonhar todos aqueles que tiveram, e continuam tendo, a responsabilidade de governá-la.

Mas é preciso ir além da indignação provocada pelas imagens e pelas palavras. É preciso fazer uma pergunta incômoda, que muitos preferem evitar: quem, afinal, esqueceu o Nordeste?

A resposta mais fácil é apontar o dedo para Luiz Inácio Lula da Silva. E há razões para cobrar Lula com dureza. Afinal, ele construiu grande parte de sua identidade política sobre a promessa de representar os pobres, combater a fome e defender os nordestinos. Transformou essa identificação em capital eleitoral, cultivou a imagem de filho da região e fez do Nordeste um dos pilares de sua trajetória política.

Por isso mesmo, sua responsabilidade é enorme. Quem transforma a esperança dos mais pobres em bandeira política assume o dever de apresentar resultados concretos. Não basta discursar sobre a fome, é preciso criar condições para que as famílias deixem de depender de programas assistenciais. Não basta falar em dignidade, é necessário garantir educação de qualidade, saúde, segurança, saneamento, emprego e oportunidades para que os jovens possam construir o próprio futuro.

O Nordeste não precisa de políticos que sobrevivam da pobreza nordestina. Precisa de governantes que combatam as causas dessa pobreza.

E aqui está a contradição que precisa ser exposta, depois de tantos anos de protagonismo político de Lula e de seus aliados, por que tantos problemas históricos continuam presentes? Por que milhões de brasileiros ainda enfrentam dificuldades para acessar serviços públicos de qualidade? Por que tantas cidades continuam sem infraestrutura adequada, enquanto a população é convocada, eleição após eleição, a renovar sua confiança nos mesmos grupos políticos?

Lula tem responsabilidade. Uma responsabilidade imensa, proporcional ao poder que exerceu, às promessas que fez e à confiança que recebeu. Mas seria intelectualmente desonesto atribuir exclusivamente a ele todos os fracassos de uma região inteira.

O abandono do Nordeste também tem endereço nos gabinetes de governadores, nas assembleias legislativas, no Congresso Nacional e nas prefeituras. E tem representantes de diferentes partidos, ideologias e correntes políticas.

É conveniente tratar o Nordeste como uma abstração, uma região sofrida que aparece nos discursos eleitorais, nas propagandas institucionais e nas promessas de campanha. Mas o Nordeste não é uma entidade sem rosto, sem governo e sem representantes.

São nove estados. Nove governadores. Senadores. Deputados federais e estaduais. Milhares de prefeitos e vereadores. São estruturas políticas completas, financiadas com recursos públicos e legitimadas pelo voto popular.

Cada um desses agentes possui atribuições, responsabilidades e instrumentos para transformar a realidade local.

Portanto, quando faltam serviços básicos, quando a infraestrutura não acompanha as necessidades da população, quando a escola não oferece a formação necessária e quando a insegurança impede o cidadão de viver com tranquilidade, a cobrança precisa alcançar todos os níveis de governo responsáveis por essas áreas.

É evidente que as competências são diferentes. Um prefeito não responde por todas as decisões de Brasília, assim como um presidente não administra diretamente cada rua de um município. Mas essa divisão de responsabilidades não pode servir de esconderijo para a incompetência de ninguém.

O presidente não pode culpar eternamente os antecessores. O governador não pode responsabilizar Brasília por tudo. O prefeito não pode usar o estado como desculpa permanente. E o parlamentar não pode passar quatro anos sem resultados e reaparecer na véspera da eleição distribuindo promessas.

O Nordeste não foi governado apenas por Lula. Foi governado por grupos políticos de diferentes orientações, muitos dos quais permanecem no poder há décadas. E todos precisam prestar contas à população.

Quanto mais vulnerável é uma população, maior pode ser sua exposição a promessas imediatistas, relações de dependência e discursos que exploram o medo de perder o pouco que conquistou. Isso não significa que o eleitor pobre seja incapaz de escolher. Significa que sua liberdade de escolha merece ser protegida de toda forma de manipulação.

Programas sociais são necessários para amparar quem precisa. O problema começa quando a assistência deixa de ser uma ponte para a autonomia e passa a ser apresentada como substituta do desenvolvimento, do emprego e da oportunidade.

O cidadão não deve ser condenado a depender eternamente do Estado para sobreviver. Deve ter condições de estudar, trabalhar, empreender, sustentar sua família e conquistar independência.

Um governo verdadeiramente comprometido com os mais pobres deveria desejar que cada vez menos pessoas precisassem de assistência para colocar comida na mesa, não porque tenham perdido o benefício, mas porque conquistaram condições dignas de sustentar a própria vida.

A pobreza não pode ser tratada como patrimônio eleitoral de partido algum. A fome não tem dono. A dignidade humana não pertence a Lula, ao PT, à direita ou à esquerda.

Pertence ao cidadão.

E é justamente por isso que qualquer político que transforme a vulnerabilidade social em instrumento de perpetuação no poder merece ser confrontado.

Mas seria cômodo atribuir toda a culpa aos políticos e absolver completamente a sociedade.

Em uma democracia, o poder não nasce espontaneamente nos gabinetes. Ele passa pelas urnas. Os representantes são escolhidos por nós eleitores, e a possibilidade de substituí-los é uma das ferramentas mais importantes de que dispõe o cidadão.

Isso não significa que o povo seja o único culpado por seus problemas. Seria injusto ignorar a desigualdade, a desinformação, as limitações de acesso à educação, o poder das máquinas políticas e as dificuldades reais enfrentadas por milhões de famílias. Tampouco se pode responsabilizar o eleitor por toda promessa não cumprida ou por toda irregularidade escondida debaixo da aparência de legalidade.

Mas há uma questão que precisa ser enfrentada com coragem: por que tantos políticos sem resultados expressivos conseguem renovar seus mandatos? Por que figuras envolvidas em escândalos, ou que carregam graves questionamentos sobre sua conduta pública, continuam encontrando espaço para pedir novamente a confiança da população?

Ainda assim, o eleitor tem o direito, e o dever cívico, de investigar a trajetória de quem pede seu voto, examinar os resultados apresentados, verificar a coerência entre discurso e prática e avaliar o compromisso demonstrado com o interesse público.

Há políticos que podem estar legalmente aptos a disputar uma eleição e, mesmo assim, não demonstram competência, seriedade ou compromisso suficientes para merecer a continuidade no cargo.

Estar habilitado para disputar uma eleição não significa estar qualificado para receber um novo mandato.

O eleitor precisa deixar de confundir popularidade com competência, carisma com caráter e fidelidade partidária com compromisso público.

Votar é um direito. Escolher conscientemente é uma responsabilidade.

Se o político passa anos sem entregar resultados e volta a receber o voto como se nada tivesse acontecido, o sistema de incentivos que sustenta sua permanência no poder continua funcionando. E quem deseja uma realidade diferente precisa estar disposto a fazer escolhas diferentes.

O Nordeste precisa de investimentos, de infraestrutura, de desenvolvimento econômico, de educação que transforme vidas, de segurança pública eficiente e de uma administração capaz de respeitar cada centavo do dinheiro do contribuinte.

Precisa de lideranças que compreendam que o desenvolvimento não se faz apenas com transferências de renda, nem com grandes obras anunciadas em períodos eleitorais. Faz-se com instituições sérias, ambiente favorável ao trabalho, responsabilidade fiscal, serviços públicos eficientes e oportunidades distribuídas de maneira mais justa.

E precisa, acima de tudo, de representantes que não confundam o mandato recebido com um patrimônio pessoal.

A história do Nordeste não pode continuar sendo contada apenas pela seca, pela fome e pela pobreza. A região tem gente trabalhadora, universidades, polos industriais, agricultura, turismo, energia renovável, cultura, criatividade e enorme capacidade de produzir riqueza.

O que falta, em muitos lugares, não é potencial. É transformar potencial em oportunidades duradouras, com políticas públicas consistentes e governantes que assumam suas responsabilidades.

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Por isso, Lula precisa ser cobrado com rigor. Sua trajetória, suas promessas e o poder político que exerceu justificam uma cobrança proporcional à dimensão de sua influência. Mas também precisam ser cobrados os governadores, os parlamentares, os prefeitos e os vereadores que participaram das decisões, administraram recursos e tiveram oportunidades de mudar a realidade da população.

E o eleitor precisa fazer sua parte, abandonar o voto automático, rejeitar a compra de consciências, desconfiar das promessas milagrosas e exigir provas de competência, honestidade e compromisso.

Não há solução simples para problemas históricos. Há, porém, uma certeza: a pobreza não será superada enquanto a política se contentar em administrar suas consequências e não enfrentar suas causas.

O Nordeste não é esquecido apenas quando Brasília deixa de olhar para ele. Também é esquecido quando um governador ignora suas obrigações, quando um parlamentar troca a fiscalização por conveniência, quando um prefeito abandona sua cidade e quando um político utiliza a confiança popular para se perpetuar no poder.

Lula tem uma parcela enorme de responsabilidade. Mas não está sozinho nessa conta.

A conta também pertence aos que governaram, aos que legislaram, aos que administraram municípios e aos que tiveram poder para agir, mas não entregaram o que prometeram.

E, em uma democracia, ela precisa ser apresentada aos eleitores antes que eles depositem novamente seu voto nas mesmas mãos.

Porque o Nordeste não precisa de mais discursos sobre o sofrimento nordestino. Precisa de menos políticos que dependam desse sofrimento para continuar no poder.

O Nordeste não precisa de donos. Precisa de representantes. Não precisa de promessas eternas. Precisa de resultados. E não pode continuar elegendo o próprio abandono.

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