Durante a pandemia de Covid-19 e necessidade do isolamento social, observou-se uma fragilização nos valores e atitudes espontâneas que aludem ao estar junto. Uma destas é a doação de sangue, um gesto vinculado à solidariedade intrínseca a todos, mas que por muito tempo foi inibida ou restritiva para alguns.
Este argumento se fundamenta no fato de que apenas há um ano, uma decisão histórica rumo à derrubada de políticas discriminatórias vigentes no país aconteceu. Em maio de 2020, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu restrições à doação de sangue por pessoas LGBTQIA+ .
Antes da instituição da medida, apesar de toda amostra sanguínea disponibilizada para doação ser testada para diversas doenças nos hemocentros, apenas o sangue da comunidade LGBTQIA+ era descartado. As autoridades alegavam que o objetivo era reduzir o risco de contaminação por HIV em transfusões. No entanto, heterossexuais não enfrentavam a mesma restrição.
Medida nova, preconceito velho
Essa visão está impregnada no imaginário dos brasileiros desde a década de 1980 e 1990, quando uma epidemia de aids e HIV acometeu fortemente o país e tornou pessoas homossexuais como sinônimos de portadores do vírus. Somente com o desenvolvimento de estudos científicos sobre a problemática, revelou-se que é prática de relações sexuais sem preservativos que se configura como risco, independentemente da orientação sexual.
Para Leonardo Santos, cidadão sergipano que faz parte de uma família de doadores universais, por muito tempo o fato ser LGBTQIA+ o constrangeu durante realização de ato altruísta, e por isso, o mesmo considera que derrubada de restrição assegura que cidadãos sejam tratados de forma igualitária, como se diz na Constituição.
“A estigma histórica ligada ao público e a infecção por HIV ainda perdura em uma sociedade tão resistente ao progresso como a nossa. Hoje já é sabido que mais de 70% dos infectados por HIV no Brasil são homens heterossexuais, mas mesmo assim o esteriótipo só é atribuído à comunidade LGBT ”, argumentou ele.
Orgulho na mente e no sangue
Já na visão da vereadora Linda Brasil (PSOL), a importância de aplicar efetivamente a medida está em garantir a todos o direito de doar sangue, e por consequência, permitir que pessoas LGBTQIA+ tenham orgulho em fazer parte do movimento e se percebam como cidadãos ao realizar ato em relação ao próximo, como a doação de sangue.
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“Essa proibição acarretava em um estigma muito grande né, como se nós, as pessoas LGBQIA+ não pudéssemos contribuir para o bem da sociedade. Essa derrubada é como se fosse o início do processo de diminuição da perseguição, da violência, pois estes comportamentos institucionais contribuem para que nossa comunidade não acesse certos lugares”, comentou a vereadora.
Segundo Linda, com a derrubada da restrição observar um aumento de doações por pessoas da comunidade, bem como um estímulo ao debate da importância da doação.
É necessário desconstruir concepções de que a população LGBTQIA+ é doente, incapaz ou está limitada a certas funções da sociedade como arte, beleza e entretenimento. Essa medida ajuda a diminuir estes esteriótipos, pois a população começa a pensar”, finalizou ela.
Em crise sanitária, toda ajuda é necessária
Segundo informações do Centro de Hemoterapia de Sergipe (Hemose), a crise sanitária acentuou a escassez no número de doações, e com reduções vivenciadas constantemente, é preciso aumentar as doações de sangue de 50 para 100 doações ao dias para atender pacientes em vários tipos de tratamentos.
Sobre a aplicabilidade da derrubada da restrição em Sergipe, o órgão assegurou que o Hemocentro de Sergipe adota as mesmas medidas de segurança para qualquer cidadão e que nunca foi feito descarte de sangue em função da orientação sexual.
Nessa narrativa, em pleno mês do Orgulho LGBT, socialmente falando, comemorar marcos como este faz parte da luta por igualdade e direitos, bem como ressalta que ao fazer referência à doação de sangue, a solidariedade orgânica é composta do amor pelo próximo, independentemente do tipo relação afetiva que este desempenhe.
Via FanF1




