Biodiesel no Brasil: um problema com efeitos cascata

Tanques entupidos, bicos injetores e bombas de alta pressão danificadas, falhas mecânicas e muita sujeira nos reservatórios de combustíveis. Quando esses problemas são diagnosticados por qualquer técnico, hoje em dia, a suspeita se volta primitivamente para o ‘biodiesel’. Desde que o combustível vegetal foi incorporado ao diesel oriundo do petróleo no Brasil, no ano de 2008, com aumento do percentual de composição para 10% em 2018, os problemas citados acima se tornaram comuns na rotina de revendedores de combustíveis e de consumidores que fazem uso do diesel.

A explicação está na qualidade do biodiesel que é fabricado no Brasil, conforme explicações do secretário executivo do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo no Estado de Sergipe (Sindpese), Maurício Cotrin. “Esse biodiesel que é produzido no Brasil tem como base o óleo vegetal, onde 80% desse volume corresponde ao óleo de soja. Esses óleos vegetais têm como características a absorção muito grande da umidade, o que cria de forma mais rápida borras, gerando o entupimento das bombas dos postos de combustíveis, da mesma forma afeta os tanques dos veículos, que tendem a criar essas borras”, critica.

Filtro de combustível é um dos componentes mais afetados pelo biodiesel

A mistura do biodiesel com o diesel acontece ainda nas distribuidoras. O processo está previsto em lei federal e é regulamentado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Quando os postos de combustíveis vão reabastecer seus estoques, já recebem o combustível misturado. Para tentar amenizar o impacto da má qualidade do biodiesel, alguns postos utilizam sistemas de filtragem para impedir o entupimento das bombas.

Josenilton fala dos cuidados dos postos para manter os tanques e bombas sem borra

“Nos nossos postos, antes de descarregar o combustível, nós fazemos análise para saber se aquele produto atende as especificações da ANP. Se estiver dentro das especificações, ele vai para o nosso tanque subterrâneo, onde é submetido a um processo de sucção no filtro de diesel. Toda bomba tem esse filtro, que normalmente tem capacidade entre 200 a 600 litros. Depois desse processo, o combustível ainda passa por outro filtro para tentar entregá-lo na melhor qualidade para o consumidor”, explica Josenilton Feitoza, supervisor de uma rede de postos.

Josenilton destaca ainda que o uso de aditivos é um incremento que alguns postos utilizam como diferencial no diesel. “Todo diesel comercializado na nossa rede é aditivado. Ou seja, além de trabalhar na limpeza e prevenção periódica do nosso sistema, trabalhamos com diesel aditivado. Esses componentes ajudam a fazer a limpeza do sistema, e os resíduos são descartados através da descarga, mas isso não exime o consumidor de realizar periodicamente e preventivamente a troca dos filtros e limpeza do tanque do seu veículo”, acrescenta.

O alerta do Josenilton é corroborado por outros técnicos que trabalham no setor. É que mesmo com todo esforço de alguns postos para ‘purificar’ o diesel e evitar a formação de borras, o consumidor ainda está sujeito a ter problemas em decorrência do biodiesel presente no combustível. É comum encontrar oficinas com veículos movidos à diesel sob reparos. “Normalmente são danos grandes (provocados pelo biodiesel), que geram bastante gastos. Pegamos casos aqui de danificar bomba de alto pressão, bicos injetores, componentes de alto valor. Às vezes, nesses casos, só trocar o filtro não adianta”, afirma o chefe de oficina José Cláudio.  

Claudio diz que gastos são grandes com defeitos provocados pela qualidade do biodiesel

Além da baixa qualidade do biodiesel produzido no Brasil, o produto tem um custo mais elevado que o próprio diesel, conforme informações do Sindpese. Por ser majoritariamente à base do óleo de soja, e considerando que a soja passou a ser mais exportada pelo Brasil, durante a pandemia da Covid-19, causando desequilíbrio na oferta interna, o valor geral do diesel nas distribuidoras e bombas de combustíveis foi puxado pela nova configuração do mercado.

Manutenção periódica do veículo é uma forma de tentar evitar maiores problemas

A soma desses fatores e o impacto negativo que o biodiesel tem provocado no setor, desde à distribuição até o consumidor final, tem mobilizado os revendedores de combustíveis. “Nós, dos sindicatos e da Federação Nacional (dos revendedores) elaboramos um estudo já enviado para ANP comprovando a baixa qualidade do nosso biodiesel, esperando, claro, que a ANP tome medidas no sentido de melhorar o biodiesel, e principalmente melhore a competitividade, porque hoje o preço do biodiesel é muito mais alto que o próprio diesel, provocando custo elevadíssimo na composição e baixa competitividade nos preços do nosso diesel aqui no Brasil”, reivindica Cotrin.

Enquanto mudanças não são adotadas pela ANP, os profissionais do setor fazem instruções para os consumidores. “É manter o abastecimento em um posto de confiança, mas também se orientar, pedir que o frentista indique e mostre a qualidade do diesel na proveta que tem indicação de densidade do diesel, ao lado da bomba de combustível. Geralmente a gente não tem hábito de observar e nem pedir orientação sobre aquilo. E seguir sempre o manual do veículo, para cumprir os períodos certos de troca de filtro, limpeza, revisão”, indica Gamal Tavares, chefe de mecânica.

Escolher um posto de confiança e ficar atento aos indicadores de qualidade são pontos importantes para o consumidor, diz Gamal Tavares

Josenilton Feitoza lembra que as limpezas nos tanques dos postos são feitas a cada 15 dias, mas orienta que os consumidores que utilizam o diesel também façam limpeza em seus tanques. “As concessionárias orientam que proprietário, a cada seis meses, retire o tanque todo e faça a limpeza dessas bactérias (borra). E quem tem veículo à diesel, é importante não deixar o carro na reserva, porque toda aquela impureza que está no fundo do tanque, com a pressão do combustível, vai para os bicos e contamina tudo”, alertou.

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