Por trás do discurso de coerência e fidelidade partidária, a política sergipana frequentemente presenteia o eleitor com espetáculos de contorcionismo ideológico e conveniência eleitoral. O protagonista da vez é o vereador de Aracaju, Josenito Vitale de Jesus (PSD), mais conhecido como Nitinho Vitale.
Para compreender o peso do recente movimento de Nitinho, é preciso recapitular o histórico de benesses e portas abertas que pavimentaram sua trajetória. Nitinho não é um político desassistido. Pelo contrário: presidiu a Câmara Municipal de Aracaju, ocupou posições de poder decisório, teve espaços contemplados na gestão estadual e desfrutou de todo o prestígio e apadrinhamento político concedidos pelo governador Fábio Mitidieri (PSD).
Contudo, a memória política no palanque parece durar apenas até a próxima conveniência.
Incoerência Nacional: Contra a linha do padrinho político

Em um gesto que causou forte mal-estar nos bastidores, Nitinho fez questão de marcar presença e declarar apoio em ato do União Brasil voltado à aliança com o ex-presidente Flávio Bolsonaro.
O contraponto é gritante: Fábio Mitidieri, seu principal fiador político no estado, é um aliado de primeira hora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Nas campanhas passadas, Mitidieri não apenas declarou voto aberto no primeiro e no segundo turno, como empenhou expressivo capital político ao reunir cerca de 50 prefeitos sergipanos para fortalecer a base governista federal.
Enquanto o governador marcha abertamente de um lado, seu liderado de confiança decide cruzar a fronteira e pular no palanque oposto.
A ironia do reencontro com André Moura
A contradição, no entanto, não para na esfera federal. O evento em questão foi chancelado e presidido por André Moura, liderança forte do União Brasil em Sergipe.
Vale recordar que, no passado recente, quando André Moura figurava como o candidato a senador número um e escolha prioritária do agrupamento liderado por Fábio Mitidieri, Nitinho preferiu não marchar ao seu lado. Hoje, desprovido de qualquer constrangimento histórico, surge sorridente no evento comandado justamente por quem renegou quando o grupo mais precisava de coesão.
Entre a conveniência e a fidelidade
O episódio expõe o pragmatismo desmedido que rege certas figuras da política local. Receber cargos, usufruir da estrutura do poder e contar com o aval irrestrito do governador para alavancar a carreira é confortável; retribuir com lealdade nos momentos decisivos, aparentemente, é opcional.

O gesto de Nitinho Vitale deixa no ar uma incômoda reflexão para o eleitorado e para a própria base governista: até que ponto a gratidão política resiste às ambições pessoais quando o jogo eleitoral ganha novos contornos?



