A crise no transporte público de Aracaju ganhou novos contornos com as recentes declarações de Adierson Monteiro, em entrevista ao jornalista Luiz Carlos Focca. Adierson apontou uma série de decisões e omissões da gestão do ex-prefeito Edvaldo Nogueira como responsáveis diretas pelo colapso do sistema, agravado especialmente durante a pandemia.
Segundo Adierson, a pandemia trouxe uma redução drástica na frota de ônibus em circulação, que operou com apenas 20% de sua capacidade, e causou uma queda de 80% na receita. Nesse contexto, esperava-se que Edvaldo Nogueira, enquanto presidente da Frente Nacional dos Prefeitos, à época, seguisse o exemplo de outros gestores brasileiros e subsidiasse as empresas de transporte público. Entretanto, isso não ocorreu, mesmo com recursos recebidos para a saúde durante o período crítico.

“Ele só começou a pagar subsídio para as empresas de ônibus em novembro de 2023, e a situação já estava insustentável”, afirmou Adierson. Durante esse intervalo, seis das sete empresas sindicalizadas ao Setransp deixaram o sindicato, agravando ainda mais a crise do setor. Adierson relatou que denunciou publicamente os problemas, enfrentando retaliações por parte do superintendente da SMTT, Renato Telles, que retirava linhas da Progresso e da Modelo e as transferia para a empresa Atalaia.
O empresário também destacou as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores do setor. “Os funcionários sofreram muito porque atrasávamos o vale-alimentação e o salário. Muitos não tinham nem o que comer em casa. Eles me falavam isso chorando, e eu chorava junto porque sou humano e sinto a dor do meu semelhante”, desabafou.
Quando buscava diálogo com o ex-gestor da capital para tratar das dificuldades do transporte, Adierson encontrou uma postura decepcionante. “A resposta do ex-prefeito foi que isso é ‘da política’ e que o ‘novo amigo dele era o Alberto da Atalaia’. Isso me fez perceber que tudo foi orquestrado”, revelou. Ele ainda mencionou que todas as irregularidades estão documentadas em uma Ação Civil Pública no Ministério Público.
Críticas à gestão e proposta de CPI
Adierson foi enfático ao defender uma investigação aprofundada sobre a gestão do transporte público. Ele se colocou à disposição para uma eventual Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal de Aracaju. “Se fizerem uma CPI, nem precisa me convocar. Pode me convidar que faço questão de ir lá falar tudo, inclusive com acareação com o ex-prefeito. Até passo por um detector de mentiras se for necessário.”
Polêmica sobre a transferência de linhas
A mudança de linhas de ônibus da Progresso para a Atalaia também foi tema da entrevista. Luiz Carlos Focca sugeriu que a decisão poderia ter sido motivada pela condição mais nova dos veículos da Atalaia. Adierson rebateu, afirmando que os ônibus mais antigos da Progresso são consequência da falta de subsídios. “Na Atalaia, eles recebiam subsídios em Pernambuco, compravam os ônibus e repassavam para cá. Já o que recebemos de subsídio aqui não cobre nem 25% da folha de pagamento dos funcionários. O subsídio repassado por Aracaju para a Progresso é de R$ 0,70 enquanto que a Atalaia recebe 1,00 por passagem”
Impacto na população
Com a precarização do serviço, a maior prejudicada é a população aracajuana, que convive diariamente com atrasos, ônibus lotados e falta de estrutura. Para Adierson Monteiro, a situação não foi fruto do acaso, mas de uma gestão que, segundo ele, “deixou o caos no transporte público propositadamente”. A ironia que marcou suas palavras mostra o sentimento de indignação diante de uma crise que afeta milhares de pessoas e a necessidade de responsabilização e melhorias urgentes no setor.




