Ana Lúcia assume “ruptura” com Iran Barbosa, e se sente forte na luta contra o câncer

É no mínimo triste o drama que envolve o relacionamento – ou o fim do relacionamento – entre a ex-deputada estadual de quatro mandatos Ana Lúcia Vieira de Menezes, 72 anos, e o deputado estadual Iran Barbosa, 55 anos, ambos do PT.

Um fim desproporcional – sobretudo da parte dele? – para dois entes públicos que tinham uma relação institucional  política e sindical que parecia regida por muita cumplicidade, cordialidade e respeito. Afeto, até.

Quem viu nesta quarta-feira, 16, o embate entre os dois numa tenda armada em frente à Alese, à guisa de defender, já em campos opostos, os professores e o Sintese contra projetos de lei que o Governo de Sergipe quer aprovar no âmbito da educação, teve a real dimensão de um drama que vem sendo construído entre ambos desde 2019, quando Iran assumiu o mandato de deputado estadual numa espécie de sucessão a Ana Lúcia. Com o apoio lacrado dela, ele foi eleito em 2018 com 26.961 votos – somente 627 a mais que os 26.334 votos obtidos por ela quatro anos antes, em 2014.

ROMPIDOS ATÉ NO SINTESE – Ali, sob a tenda na frente da Alese na quarta, dois antigos aliados mostraram as garras da ruptura de quem dividiu as mesmas ideias, atos, ações e outras tendas mais sedosas durante cerca de 30 anos – seja na política partidária, seja na política sindical.

Para começo de conversa, Ana Lúcia e Iran têm hoje candidaturas diferentes na disputa pela Presidência do senhor Sintese – o Sindicato dos Professores do qual ambos já foram presidentes. A eleição será entre os dias 4 e 8 de abril.

O mesmo Sintese, a partir do qual erigiram ambos uma carreira política que rendeu a ele mandatos de vereador de Aracaju, de deputado federal e este de estadual, e a ela, quatro mandatos de deputada estadual amealhados em quatro eleições seguidas, nas quais foi credora de 98.656 votos dos sergipanos, e foi ainda secretária municipal de Educação de Aracaju.

CÂNCER “REBELDE IGUAL À DONA” – Debilitada por um câncer “rebelde igual à dona”, na definição bem humorada dela mesma, Ana Lúcia Menezes viu a relação política entre ela e o seu pupilo ir descendo pelo ralo a partir de 2019, quando ele assume o mandato e nutre também o distanciamento real em relação à madrinha política.

Nesta quarta-feira, depois do embate na tenda e da certificação de que que Iran Barbosa lançou uma candidatura ao comando do Sintese, Ana Lúcia juntou os cacos dos informes extraoficiais de que ele estaria deixando o PT pelo Psol, e deu por sacramentado o fim do relacionamento.

“Eu diria que hoje foi pública a ruptura. Eu acho que houve um equívoco imenso de Iran de estar estimulando a criação de uma chapa de oposição, botando uma assessora dele como candidata a presidente. Eu diria que isso é algo de muito equívoco”, disse ela.

Iran deu vida à chapa “Renovação e Transparência”, de oposição, na cabeça da qual está a professora aposentada Lúcia Barroso, oficialmente Maria Barroso Vieira. Desde o começo da mandato em 2019 Lúcia Barroso tinha um cargo em comissão de R$ 8 mil no Gabinete de Iran. Foi liberada desse CC em dezembro do ano passado, para ficar livre para a disputa do Sintese.

COM A MINHA DOENÇA, IRAN SE AFASTOU DE MIM – Os atuais gestores do sindicato veem nisso uma pretensão deliberada de aparelhamento do Sintese por parte de Iran, caso ele ganhe a eleição dali e se reeleja deputado estadual. E com um detalhe: como os gestores do Sintese não são remunerados, Iran se encarregou de nomear no seu Gabinete, com o mesmo salário da professora Lúcia, o esposo dela, Eronildes Queiroz Vieira, que não é da área de educação.

Ana Lúcia Menezes, que estava rompida com a presidente do Sintese, Ivonete Cruz, preferiu ficar ao lado dela, apoiar a candidatura do vice-presidente atual Roberto Silva dos Santos na disputa e dar as costas, obviamente, ao projeto liderado por Iran. “Eu vou com a chapa Esperançar e Lutar, da atual direção do Sintese. Minhas discordâncias com os gestores atuais não fazem com que eu não reconheça a importância e o papel deles”, disse a ex-deputada.

Está, portanto, bem delineado que as divergências entre os ex-amigos Iran e Ana estão para lá de bem sedimentadas. E insanáveis. Divergências nas cenas políticas e pessoais – no campo do solidariedade humana. “Com a minha doença, Iran se afastou de mim totalmente. Não me foi solidário. Isso não me foi. Aí ele vem a público e diz: “Eu procurei, a companheira é que não quis me atender”. Não é verdade”, diz ela.

“QUANDO MAIS PRECISEI, ELE NÃO DEU NENHUMA ATENÇÃO” – Ana se descobriu com um câncer de pulmão no final de novembro de 2020, em plena campanha eleitoral pelas sucessões municipais. “Logo que terminou o segundo turno, eu já estava com o diagnóstico. Eu não fui nem para a votação do segundo turno, porque eu já estava fazendo aqueles exames todos para começar o tratamento”, informa.

Enquanto o câncer lhe apertava o cerco, lamenta Ana, Iran se distanciava dela no pessoal e no campo político. “Eu acho que ele tem lá – sei lá! – seus limites emocionais, mas não sei porque ele resolveu não me dar a atenção. Iran nunca me disse assim: “Ana, você precisa de alguma coisa que eu possa resolver?”. Porque eu, como ex-deputada, tenho até direito a tratamento pelo Poder Legislativo, desde que a Mesa Diretora autorize”, lamenta ela, em conversa específica com a Coluna Aparte nesta quarta.

“Mas Iran nunca me perguntou nada. Eu sei que ele tem alguns bloqueios com esse negócio de doença. Mas nem isso justifica – e quando estou numa situação dificílima, ele quer me visitar. Porque foi nessa crise que Iran resolve vir me visitar, mas veja que ele estava muito afastado. Eu disse: não quero recebê-lo, porque quando eu mais precisei, ele não deu nenhuma atenção. Ele já estava nessa história de Psol. Foi quando já estavam denunciando que só do Gabinete dele já tinham mais de 10 pessoas no Psol”, lembra a ex-deputada.

Iran Barbosa: o desagarrado das origens e anti-solidário

NUNCA CONVERSOU NADA SOBRE IDA PRO PSOL – Para além dessa “frieza humanitária”, Iran Barbosa, na visão de Ana Lúcia, teria se convertido num estranho dentro do PT e da corrente Militância Socialista, para onde os dois migraram depois de deixar a Articulação de Esquerda. Ela não entendeu porque Iran preferiu “ir aprofundando essa distância e a ação de fortalecimento do Psol e de enfraquecimento do PT”.

“Dessa relação dele com o Psol eu e a vereadora Ângela Melo não soubemos por ele. Soubemos pelo Diretório do PT. Com o pessoal da Articulação de Esquerda, grupo ao qual eu e ele pertencíamos, denunciando. Repare que coisa mais desagradável, pelo amor de Deus”, diz.

E ela chuta uma hipótese para a opção dele pelo Psol. “Eu acho que a ida dele para o Psol é consequência de uma aproximação que todos nós temos com Henri Clay Andrade. No Psol, Henri Clay é hoje hegemônico no âmbito estadual e municipal e Iran acha que ali vai ser uma disputa mais fácil. Mas eu nunca conversei nada com ele sobre isso”, diz. Na quarta, Iran comunicou oficialmente a ao deputado federal João Daniel, presidente da Executiva Estadual do PT de Sergipe, que vai pro Psol.

“NO PSOL NÃO VOTO NELE, DE JEITO NENHUM” – Perante a saída de Iran do PT, Ana Lúcia Menezes, que é vice-presidente estadual da Executiva do partido em Sergipe, prefere louvar a atitude do deputado estadual Francisco Gualberto, outro trânsfuga partidário do PT.

“Veja o caso de Chiquinho Gualberto: ele brigou lá com o povo do PT, mas desde que assumiu o quinto mandato avisou que não ficaria mais no partido. Chiquinho tirou o povo dele todo, botou aonde quis, não participou mais de nenhuma instância, não contribuiu mais com o partido, mas também não prejudicou. Chegou agora e ele foi-se embora. Iran não. Iran tem mais de um ano que está retirando o povo do partido e enchendo o gabinete dele de gente do Psol, e não comunica nada a ninguém”, afirma.

Por tudo isso e por muito mais, Ana Lúcia admite que eleitoralmente Iran Barbosa é carta fora do seu jogo. Não lhe dará voto. “Se ele ficasse no nosso agrupamento do PT, sim. Ele não diz nada a gente, nem ao agrupamento dele, mas tudo indica que ele vai pro Psol, e no Psol não voto nele, de jeito nenhum. Eu só voto nos candidatos do PT”, diz.

Ivonete Cruz: discordâncias não levam Ana Lúcia a desconsiderar papel dela no Sintese

ADMITE-SE “MUITÍSSIMO BEM TRATADA” POR EQUIPE DO IPES – “Imagine: o PT foi o único partido que eu constituí, enfrentando todas as contradições. Eu pergunto a você e a todos: qual foi o apoio eu tive de estrutura e financeiro do PT em minha de vida? Nenhum. Mas nunca virei vítima. Nunca me rebelei. O pior enfrentamento com o meu partido foi no Governo de Marcelo Déda, com toda a estrutura de Governo contra mim”, reforça.

O caso da sua corrente, segundo ela, teria virando estudo pelo PT nacional. “O nosso agrupamento já está sendo acompanhado pela direção nacional do PT, porque foi esfacelado. A gente não sabe quem ficará e nem quem vai com Iran. É um grupo pequeno, mas a gente vai ter uma conferência no início desse mês de abril, sob a liderança da companheira vereadora Ângela Melo. Mas, eleitoralmente, a gente não tem compromisso com ninguém ainda, a não ser com o partido”, diz.

Apesar do seu quadro de saúde inspirar cuidados – máximos cuidados, sequer pode se operar, por ser a região do pulmão muito vascularizada, tendo de buscar o tratamento clínico -, que ninguém pense que a ex-deputada Ana Lúcia Menezes está desanimada. Muito menos que dê uma de pessoa amarga.

“ACHO QUE NÃO TENHO MEDO DA MORTE” – Ao contrário. Ela falou 20 minutos ao telefone com a Coluna Aparte, tem voz firme, fala da doença com desenvoltura e assume o comando dos emas quase que com hiperatividade naquele padrão Ana. Diz que está sendo “muitíssimo bem tratada” por uma equipe do Ipes e até filosofa sobre a “indesejada das gentes”.

“Eu acho que não tenho medo da morte. Primeiro, eu só penso na vida e em resolver coisas, e tenho enfrentada a morte, que é uma coisa natural. Eu diria que meu tumor é um prenúncio de morte dolorosa, que é uma morte com falta de ar. Mas eu não estou deprimida. Estou trabalhando a minha cabeça desde o início – inclusive para trabalhar a cabeça dos filhos e dos netos, que são muito ligados a mim. Sou acompanhada por uma equipe muito boa. Por uma geriatra, por um psicólogo, uma nutricionista e por uma enfermeira”, revela.

Mãe de um rapaz e de duas moças, avó, Ana Lúcia se reconhece firme até demais diante das exigências do monitoramento à doença. “Eu comecei o tratamento em janeiro de 2021 e tudo foi pesadíssimo. Radioterapias são geralmente sessões de três a cinco minutos. Mas a minha era de 15 minutos, de 30 dias e de cinco vezes por semana. Eu quase morro. Cheguei a ter náuseas e vômito. Desde ontem (terça) estou indo na Alese, tentando ver se abro negociação. O projeto de lei de Belivaldo Chagas é um horror para os professores e para nós aposentados é pior ainda”, diz. É da alma dela não deixar nada barato e não se render.

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