Márcio Vieira, de 46 anos, sergipano e policial militar, deu entrada no hospital com um forte cansaço no corpo, falta de ar e fraqueza em 2019. A princípio, ele acreditava que poderia ser um mal estar, mas a situação era muito mais grave do que imaginava: Márcio estava com os dois rins parados. A condição o fez entrar para um tratamento de hemodiálise e na fila de espera para um transplante de órgão.
“Receber aquela notícia foi difícil para mim. Logo eu, com uma vida ativa, tive que me refazer. Você pensa que está bem e de repente tem que fazer um tratamento pesado, a que inclusive algumas pessoas não resistem. É um grande desafio, porque eu não posso caminhar muito, não posso correr, tive que deixar de andar de moto e jogar bola com meus amigos”, conta Márcio ao F5News.
Ele havia entrado na fila para receber um rim em fevereiro de 2020, no entanto, logo em seguida veio a pandemia da covid-19 e tudo mudou. Somente em agosto de 2021, Márcio conseguiu ser incluído novamente na fila de espera para receber o transplante, onde aguarda ansioso e com esperança.
“Graças a Deus tenho uma família que me apoia, uma esposa que me ajuda muito, e estou aqui, vivendo. Três vezes na semana tenho que fazer o tratamento e estou respondendo bem. Com fé em Deus vou conseguir fazer esse transplante”, disse Márcio ao portal.
Assim como ele, cerca de 650 pessoas aguardam por um transplante renal, segundo dados da Central de Transplantes da Secretaria de Estado da Saúde (SES). De acordo com o coordenador da central, Benito Fernandez, em Sergipe residem cerca de 1300 pacientes em tratamento de diálise, dos quais 50% estão inscritos para transplante.
“Estamos com o Hospital Universitário de Aracaju autorizado para realizar transplante renal, no entanto, a equipe ainda está participando de um treinamento no Albert Einstein, através de uma Tutoria oferecida pelo Ministério da Saúde. Temos também o Hospital do Coração, autorizado a realizar transplante de coração, mas estão aguardando a contratualização com a SES”, disse Benito ao F5News.
No entanto, o transplante de órgão não demanda apenas local e equipe qualificada para realizar a cirurgia. Antes disso, é necessário haver doadores. Conforme dados da Saúde de Sergipe, entre os anos de 2013 a 2021, apenas 200 órgãos entre rins, fígado, coração e pâncreas, foram captados no estado. Em 2020 houve uma queda significativa no transplante de órgãos, em função da pandemia de covid-19. A modalidade de transplante que mais ocorre no estado é o de córnea. Enquanto em 2019 foram realizadas 205 cirurgias, em 2020 o número caiu para 38 – menos 81.4%.
Hoje 340 pacientes aguardam pelo transplante de córnea em Sergipe. Um deles é o professor de Direito Bruno Santana, de 37 anos, acometido por uma infecção neonatal que causou uma cicatriz na córnea do olho esquerdo. Nascido em meados dos anos 90, época em que não havia divulgação a respeito da importância da doação de órgãos e tecidos, somente aos oito anos de idade Bruno conseguiu passar pelo primeiro transplante.
“Aos 19, 29 e 33 anos me submeti a novos transplantes por conta de rejeição e por alguns deles terem sido de forma tectônica, ou seja, temporária. Agora, aos 37 anos, retorno para a fila por conta do falecimento do tecido”, disse o professor ao F5News.
Bruno acredita que a espera é como uma busca pela esperança por uma ampliação da visão, já que é portador da visão monocular. “É como tirar uma cortina para que a luz entre, e uma forma, inclusive, de se aproximar de uma visão normal. Estou há alguns meses na espera, que está maior por conta da pandemia”, relata.
O mês de setembro é marcado pela campanha “Setembro Verde”, de conscientização da população sobre a importância da doação de órgãos, e que se reforça por meio de pessoas como Márcio Vieira e Bruno Santana.
“A doação de órgãos é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna. Não é meramente um ato de solidariedade, mas sim um ato de humanidade. Apesar de vivermos um intenso sistema de desvalorização do ser humano, a doação de órgãos e tecidos é a demonstração efetiva de uma sociedade mais coletiva. Acredito que a solidariedade existe intrinsecamente no povo brasileiro, entretanto nos falta muito chegar ao nível de compreensão do que significa a doação de órgãos.. É factível que já se avançou muito, mas podemos mais, eu sei que podemos, todos juntos somos muito mais fortes para permitir que pessoas, assim como eu, possam ter uma vida efetiva na sociedade”, disse Bruno.
De acordo com o coordenador da Central de Transplantes, Benito Fernandez, pessoas vivas e falecidas podem doar órgãos. No Brasil, a doação é consentida, ou seja, cônjuge ou parentes até segundo grau são os responsáveis pela autorização da doação de órgãos e tecidos.
“A lei divide o doador vivo em relacionado e não relacionado. O relacionado é aquele que tem grau de parentesco até 4 grau e o não relacionado ou é parente com mais de 4°grau ou não tem parentesco algum. Isso para coibir a venda de órgãos. O não aparentado precisa ter compatibilidade além de autorização judicial. O doador falecido também é subdividido em doador falecido com coração parado, que pode doar córneas até 6 horas depois da parada cardiorrespiratória, e o doador falecido com coração batendo, que é aquele com diagnóstico de morte encefálica. Ainda está conectado ao respirador e por isso o coração ainda bate”, explica o coordenador.
Sergipe iniciou os transplantes de córnea, rim e coração na década de 90, sendo pioneiro no Norte/Nordeste a realizar o transplante cardíaco no Hospital Cirurgia. Do ano 2000 a 2020, foi realizado em Sergipe o total de 2.071 transplantes de córnea; três de coração, 108 de rim e 15 de osso.
Edição de texto: Monica Pinto
https://www.f5news.com.br/cotidiano/setembro-verde-cerca-de-990-sergipanos-esperam-por-um-transplante.html






