O Brasil tem atualmente cerca de 15 milhões de trabalhadores desempregados. Se a situação está difícil para a população em geral, imagine para uma parcela em específico, a das pessoas trans, que já é marginalizada no país. A inserção deste público no mercado de trabalho requer a quebra de uma série de paradigmas e de preconceitos já enraizados. Por outro lado, empresas que abrem as portas para a diversidade conseguem atingir um conjunto amplo e mais completo da sociedade.
Para a presidenta da Rede Trans Brasil, Tathiane Araújo, as dificuldades enfrentadas por essa população perpassam por muitos setores, a exemplo da saúde pública. No entanto, a falta de emprego é um dos maiores problemas.
“Por mais que tenhamos demandas cegas na área da saúde, já temos uma política ambulatorial organizada para pessoas trans em mais de 20 capitais brasileiras. Temos ainda deficiências em outras áreas, mas para lidar com a empregabilidade foi preciso criar estratégias alternativas que avançassem além da gestão pública. A gestão tem pensado pouco nisso”, avalia Tathiane.
Ainda segundo ela, os desafios da população trans estão diretamente ligados à cultura social e ao machismo. “A raiz do problema está na cultura machista. É a pessoa trans enfrentar isso na adolescência, e na idade de formação, em que se precisa de referências, você ser expurgada da própria casa. Na escola também não ser reconhecida, e depois isso implica dentro do processo de formação, a desigualdade entre outros pares cisgêneres. E tudo isso acompanha a pessoa até quando chega o momento dela de ir para o mercado de trabalho”, explica Tathiane.
Conforme dados levantados pela Rede Trans Brasil, mais de 80% dessa população está desempregada, e mais de 90% consegue sobreviver da prostituição. Além disso, outra grande parte não tem nenhum nível de escolaridade.
O Projeto “Oportunizar – Ação Nacional de Empregabilidade para pessoas Trans”, desenvolvido pela Rede Trans Brasil e executado desde fevereiro deste ano, visa justamente trabalhar de maneira mais complexa as iniciativas que possam fomentar opções para a empregabilidade de pessoas trans. Na manhã desta quinta-feira (19), as equipes do projeto se reuniram em Aracaju (SE) para uma oficina de formação em ‘advocacy e construção de plano operacional’.
“Queremos promover a empregabilidade. Esse projeto surgiu por meio de emendas parlamentares, após uma longa demanda de vários anos de workshops da Rede Trans. Já tínhamos esse plano e agora estamos executando e promovendo em dez capitais brasileiras. A capacitação do advocacy visa construir uma ligação com a gestão dos estados e com o Sistema S para, através dessas parcerias, conseguirmos vagas de trabalho e também oportunidades de capacitação”, explica a assessora administrativa do projeto Oportunizar.
A diretora de Políticas LGBTs do Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, Marina Reidel, esteve presente no primeiro dia do evento, que segue até esta sexta-feira (20). Segundo ela, as empresas brasileiras estão, cada vez mais, abrindo os horizontes e levantando discussões dos direitos humanos para a integração da população trans em seus ambientes de trabalho.
“No Brasil, atualmente, temos mais de 80 grandes empresas que discutem os direitos humanos, principalmente os direitos LGBTs. Então, essa diversidade que está ocupando esses espaços está sendo mais inserida nas empresas. Hoje, você vê que os profissionais que atuam nas empresas têm um outro olhar, seja da sensibilidade ou seja da produtividade. Você vê que há uma possibilidade de as pessoas estarem inseridas conforme suas características”, analisa Marina Reidel.
No entanto, para que isso se expanda ao país como um todo, é preciso levantar não só oportunidades de trabalho, mas também a capacitação desse público, conforme expôs a diretora ao F5News.
“O mercado de trabalho é competitivo. Então, a gente precisa capacitar essas pessoas. Além de sensibilizar as empresas, para que oportunizem e tenham um olhar para os direitos humanos, também é preciso haver a capacitação. Essa proposta do evento é justamente de oportunizar, sensibilizar e trabalhar com essas frentes que atuarão como coordenação dos projetos. É um convênio que firmamos com a instituição, enquanto recurso público que está sendo colocado”, afirma a executiva. “Para que a gente possa aproveitar e ter bons resultados na frente, é um trabalho de formiguinha. Vamos trabalhar para, daqui a cerca de três anos, termos um resultado positivo”, completa Marina Reidel.
A desconstrução faz parte da luta, conforme aponta Tathiane Araújo. Segundo ela, é preciso que as empresas não só abram as portas e disponibilizem vagas, mas que também trabalhem dentro dos espaços a humanização e relação entre as pessoas. “Não é só criar a vaga e aquele corpo ficar ali abandonado, é preciso criar consciência naquela empresa. Uma empresa que se torna inclusiva está participando da sociedade como um todo. Ela não fica resumida a um pensamento. Eu acho muito racional que as empresas busquem alternativas que se mostrem não só inclusivas para a população trans, mas para diversas outras minorias”, defende Tathiane.
Edição de texto: Monica Pinto
https://www.f5news.com.br/cotidiano/pessoas-trans-ainda-enfrentam-entraves-para-insercao-no-mercado-de-trabalho.html





