Essa declaração da vice-governadora Eliane Aquino (PT) pode mexer com os bastidores da política, principalmente, do grupo governista liderado por Belivaldo Chagas (PSD), que já afirmou que o ex-presidente Lula não influenciará nas decisões do grupo em 2022.
Na conversa exclusiva ao jornal Fan F1, Eliane não cravou uma disputa para o cargo de deputada federal, mas sinalizou uma maior participação de mulheres na política. “De todo modo, muitas coisas ainda podem acontecer. Então, no tempo certo, tratarei das eleições do ano que vem. O que posso afirmar, sem sombra de dúvidas, é o meu desejo e empenho por uma maior representatividade de mulheres na política.
Eliane também fez uma avaliação do Governo Federal frente à pandemia, falou sobre os seus projetos desenvolvidos para auxiliar pessoas carentes neste momento de crise e explicou que a decisão do Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe, que cassou a chapa Belivaldo Eliane por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2018, não influenciará nas eleições de 2022.
Nesses dois anos e meio como vice-governadora de Sergipe, qual o balanço que Eliane Aquino faz?
É impossível fazer qualquer tipo de balanço sobre a nossa vida social e política sem desconsiderar que o mundo passa por uma pandemia e, em nosso país, ela ganhou ares de tragédia. Para quem, como eu, atua no poder público com cargo no executivo é importante considerar, nesse balanço, o fato de termos mudado planos e adiado projetos em razão da Covid-19 e de suas consequências na vida das pessoas, que passou a ser nosso foco. Mas eu quero crer que, a despeito de todas as dificuldades, essa experiência tem sido fundamental para a consolidação da minha vivência e conhecimento dos mecanismos da gestão e dos bastidores da política, considerando, inclusive, este ambiente de crise sanitária, econômica e sociopolítica. Todo esse cenário, considerando minha maneira particular de ver e encarar a vida, tem sido rico enquanto experiência, e tem ratificado a minha crença de que a política precisa ser usada para a transformação da sociedade, precisar ser em prol do coletivo e com vistas ao desenvolvimento econômico e social.
Em relação a pandemia, qual o seu trabalho desenvolvido no Governo do Estado, principalmente, para auxiliar os mais carentes?
Essa resposta tem total relação com a anterior: minha experiência como vice-governadora de Sergipe foi atravessada pela pandemia, logo, meu olhar, foco e o direcionamento do trabalho da minha equipe se voltou para amenizar o efeito dela na vida das pessoas. Por essa ótica, preciso registrar que o nosso trabalho encontrou acolhida junto ao governador Belivaldo Chagas e se materializou no cartão C Mais – um auxílio emergencial do estado que foi aprovado ainda no comecinho da pandemia, e que segue presente na vida dos mais vulneráveis até hoje. Em paralelo, criamos a maior ação de solidariedade durante a pandemia, a campanha Solidarize-SE, que atingiu a marca de 87 toneladas de alimentos entregues às comunidades mais necessitadas em 2020, e que segue em curso nesse momento, já superando o quantitativo do ano passado. Somente nesta terceira etapa, iniciada em 22 de abril deste ano, já ultrapassamos seis mil cestas básicas entregues a famílias em situação de vulnerabilidade social e insegurança alimentar. Para mim, a Solidarize-SE é um exemplo de como poder público, setor produtivo e sociedade podem e devem estar juntos produzindo cuidado, atenção e ajuda a quem mais precisa. Sou muito grata ao que já produzimos até aqui com essa campanha e a rede de apoio que construímos para torná-la real.

Também fico muito satisfeita com o trabalho da Secretaria de Assistência e Inclusão Social(SEIAS), que passou a ter uma ação mais efetiva de presença junto aos municípios, sobretudo com a retomada do cofinanciamento estadual, que garantiu a continuidade de serviços essenciais para a população socialmente vulnerável do Estado, e que repassa anualmente cerca de 12 milhões de reais aos municípios para aplicação na área da assistência social. Para além dessas ações, segui com o trabalho junto a áreas como Saúde, Educação e Inclusão desenhando ações intersetoriais para esse momento pandêmico, mas além dele. Esse trabalho, que vem desde janeiro de 2019, gerou o programa que está na minha mente e em meu coração diuturnamente: O Sergipe pela Infância. Ele seria iniciado no final do primeiro semestre de 2020, mas tivemos que adiar devido à pandemia. Agora, após sua retomada, nosso esforço está em colocar em prática um programa geral para a primeira infância, algo que se resume a “cuidar da largada, do começo da vida, para assim produzirmos uma chegada diferente lá na frente”.
No dia 03 de julho, Eliane Aquino foi às ruas de Aracaju pedir o ‘Fora Bolsonaro’ com milhares de manifestantes. A decisão tomada não é contrária ao discurso de evitar aglomerações nesse cenário brasileiro de mais de 500 mil mortes pelo coronavírus?
Eu participei das duas últimas manifestações, mas apoio a decisão desde a primeira. Chegamos num momento em que há uma necessidade premente de mobilização e de sensibilização das nossas deputadas e deputados. Porque tudo que estamos vivenciando possui relação direta com a ausência de medidas do governo federal, que deixou de adotar uma política centralizada e fundamental no combate à pandemia. Nesse quesito, a maior das consequências é o luto coletivo que hoje computa o trágico número de meio milhão de vidas perdidas por um vírus para o qual existe vacina, e o Brasil segue lento em seu programa nacional de imunização. Minha presença na manifestação seguiu os mais rigorosos protocolos de segurança sanitária. E, se a população precisa ir às ruas em meio a uma pandemia, deve ser porque o seu presidente tornou-se mais letal que o vírus.
No cenário nacional, qual avaliação a senhora faz do Governo Bolsonaro frente a pandemia da Covid-19, especialmente, agora com o escândalo das vacinas Covaxin?
Eu trabalho menos com uma avaliação individual e mais com a observação sistemática dos fatos, dos números e da realidade social. E, nessa observação, Eliane é levada a fazer perguntas que não valem pra ela, mas pra sociedade. Que tipo de gestão nacional nós tivemos no combate à pandemia? Tivemos ações efetivas para combater a proliferação do vírus, salvar vidas e diminuir o impacto da crise econômica no país? Existiu de fato preocupação em ajudar os mais vulneráveis nesse momento ou o próprio auxílio emergencial só saiu por força e determinação dos partidos de oposição no Congresso Nacional? Qualquer avaliação séria vai mostrar que não, nada foi feito enquanto política centralizada e sensata que nos impedisse de chegar ao quadro de mais de 500 mil vidas perdidas. E aí agora temos o trabalho da CPI da Covid no Senado Federal que evidencia tudo isso e, o que é pior: aponta para a possibilidade de pessoas do governo federal buscarem se beneficiar do processo de compra de imunizantes. Vejam, estamos falando de uma investigação, mas somente por existir o indício isso já é aterrorizador, cruel demais quando pensamos que funcionários públicos devem servir às pessoas e aos interesses da coletividade, e o Presidente da República é o funcionário público número um do país.
Sobre as eleições de 2022, Sergipe pode ter uma representante mulher petista no Congresso Nacional?
Segundo dados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) 2019, o número de mulheres no Brasil é superior ao de homens. A população brasileira é composta por 48,2% de homens e 51,8% de mulheres. Esse é um dado marcante, sabe o porquê? Porque, mesmo sendo maioria, somos apenas 15% do Congresso, o que mostra a necessidade de termos cada vez mais mulheres na política e nos espaços de poder, em todos os espaços. O mundo carece do olhar feminino nas esferas de decisão, é só pesquisar a performance dos países que melhor combateram a pandemia desde que ela apareceu. São países comandados por mulheres. E sim, acredito que o meu partido, e a sociedade em geral, precisa ter várias vozes femininas no Congresso Nacional.
A senhora já afirmou em entrevistas que disputará as eleições do próximo ano, mas tem preferência em disputar cargos majoritários ou proporcionais? Qual o motivo? Essa resposta tem um link direto com a anterior: defendo uma maior participação feminina na política, isso é um fato. E vou até avançar: as mulheres são as mais atingidas pela pandemia, em todas as áreas, logo, é muito importante que estejamos nos espaços de decisão carregando nossas pautas e vivências. Eu participei de dois processos em chapas majoritárias, como vice. Aprendi muito, inclusive a observar a cena nacional e perceber a importância do Congresso, da sua composição e da história de cada um que lá está. A gente precisa valorizar o voto em parlamentares e mudar a maneira como pensamos executivo e legislativo, ambos são fundamentais numa democracia, negligenciar o parlamento nos fez fragilizar nossa jovem democracia a ponto de vê-la ameaçada nos dias atuais. De todo modo, muitas coisas ainda podem acontecer. Então, no tempo certo, tratarei das eleições do ano que vem. O que posso afirmar, sem sombra de dúvidas, é o meu desejo e empenho por uma maior representatividade de mulheres na política.
Lula afirmou que Rogério Carvalho disputará o Governo de Sergipe no ano que vem. A depender das articulações com os partidos, o PT de Sergipe pode recuar e permanecer no cargo de vice?
Diante do quadro pelo qual o Brasil passa, acredito que a eleição presidencial do ano que vem terá forças para influenciar toda política de aliança nos estados. O Partido dos Trabalhadores hoje conta com o nome que lidera e cresce nas pesquisas nacionais naturalmente e sem fazer qualquer movimento de antecipação de campanha, logo, em meu entendimento, a eleição do presidente Lula é prioridade em todas as unidades federativas.
O senador Rogério colocou seu nome à disposição do partido para a disputa estadual e tem feito um bom mandato no senado, mas avalio ser necessária essa sintonia com o plano nacional e com as alianças que serão engendradas e que, naturalmente, terão reflexos nos estados. Como diz Eclesiastes, tão citado por Marcelo quando falava de processo eleitoral: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”.
Em 2019, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de Sergipe cassou a chapa Belivaldo e Eliane por abuso de poder político e econômico. Atualmente, o processo tramita no TSE, com a possibilidade do resultado final sair neste ano. Se o resultado manter a decisão do TRE-SE, a senhora acredita que influenciará na sua disputa em 2022? Por quê?
Acredito que dois pontos primordiais precisam ser esclarecidos. O primeiro diz respeito ao fato de que o processo ainda está em andamento e, portanto, é necessário aguardar o devido rito processual. Os advogados têm, a cada etapa, buscado comprovar que não houve má fé nos atos em questão. Um outro ponto é que me tornei parte do processo porque fui companheira de chapa e sou vice-governadora ao lado de Belivaldo Chagas. Mas gostaria de esclarecer que não participei dos atos que motivaram o processo. Os episódios que levaram a essa decisão na peça originada pelo Ministério Público Federal em Sergipe dizem respeito a um período em que eu estava cumprindo mandato como vice-prefeita de Aracaju, portanto, não contam com absolutamente nenhuma participação da minha parte. Não participei de nenhuma das agendas que motivaram essa ação. Logo, eu gostaria de esclarecer isso e de dizer que, ao lidarmos com a informação correta e com esse esclarecimento, não creio que esse processo possa trazer reflexo direto na disputa de 2022. Independentemente da decisão da Justiça, é preciso termos em mente dois pontos: o primeiro que o próprio Belivaldo já afirmou por mais de uma vez que não será candidato; o segundo porque, para além de eu não ter relação com os eventos citados, o processo não prevê inelegibilidade para o meu caso.




