Coleta seletiva: saiba a diferença entre material reciclável e o reciclado

O Dia Mundial do Meio Ambiente é comemorado neste sábado (5) e a data traz vários alertas sobre a crise ambiental e os impactos negativos das ações dos seres humanos sobre os ecossistemas e a biodiversidade. Ela foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1972, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo. No Brasil, desde 1981 ocorre a Semana Nacional do Meio Ambiente, que tem como objetivo promover a participação da comunidade na preservação dos recursos naturais.

 

 

Entre os problemas ambientais, o descarte inadequado do lixo e a falta de acesso à coleta seletiva para todos figuram entre alguns dos principais. Por exemplo, o Brasil, além de ser o quarto maior produtor de lixo plástico no mundo, ficando atrás somente dos Estados Unidos, China e Índia, apresenta uma baixíssima taxa de reciclagem desse lixo.

Conforme dados da Organização WWF Brasil, em 2019 foram gerados 11,3 milhões de toneladas de plástico, enquanto apenas 1,3% desse total foi reciclado. No planeta, essa taxa também é muito baixa, com 9% de reciclagem das 320 milhões de toneladas de plástico produzido no mundo.

Quando se fala em acesso à coleta seletiva há também uma discrepância no percentual de pessoas que contam com o serviço. Em Aracaju, por exemplo, somente 33% da população recebe o serviço de coleta na porta de casa. No Brasil, a pesquisa mais recente realizada pelo Compromisso Empresarial de Reciclagem (Cempre), em 2018, aponta que em 2017 apenas 17% da população brasileira é atendida.

Para piorar, existe um abismo entre o material com potencial reciclável no Brasil e o que, de fato, é reciclado. Há uma diferença grande entre essas duas palavras: reciclável x reciclado, que impacta diretamente na coleta seletiva no país e em Sergipe. O engenheiro de Materiais e professor de Engenharia Victor Teixeira explica que todos os polímeros termoplásticos, que são mais conhecidos como “plásticos”, são recicláveis, no entanto, nem todos são reciclados pela indústria. 

“Eles possuem a capacidade de serem reprocessados e remoldados com o emprego de um processo térmico. Então, desde as garrafas PET, até mesmo o PVC, que é bastante utilizado para encanamentos, e outros, como o PP, utilizado em copos descartáveis, por exemplo, e náilon, são materiais potencialmente recicláveis. Logicamente, com uma certa limitação de reprocessamento porque sempre tem algo que se perde durante esses processos”, descreve o engenheiro.

Sendo assim, a expectativa das pessoas que separam o lixo corretamente e estão engajadas na proteção ao meio ambiente é de que todo o esse plástico passe pelo processo de reciclagem, mas não é bem isso que acontece.

“A questão é econômica. O exemplo mais ilustrativo é o dos copos de plástico. Atualmente, o PP, que é matéria prima para alguns tipos desses objetos, tem um custo de aquisição muito baixo e uma facilidade de processamento muito grande, de modo que acaba sendo bem mais caro reabsorver esses materiais, triturá-los, limpá-los e reprocessá-los. Por conta disso, a indústria acaba deixando a reciclagem de lado, porque não compensa financeiramente”, explica Teixeira.

Para o especialista, o melhor caminho para lidar com a produção de lixo plástico no Brasil é trabalhar a economia circular, que é o reaproveitamento ao máximo de todos os resíduos gerados pela indústria.

“Isso normalmente não vem com uma motivação da própria indústria, mas, de leis firmes e convenções mundiais sobre o tema. Porém, o planeta não tem mais tanto tempo a esperar. Enquanto a indústria vai se preparando para esse modelo circular de economia, um dos caminhos mais curtos para reduzir a poluição seria o de abolir o uso de materiais de uso único e alto potencial poluidor, que acabam não retornando para a cadeia industrial (exceto para os de uso biomédico), com as devidas mitigações das consequências que isso geraria. E, só para acrescentar, é fundamental o investimento em pesquisas científicas que apontem para alternativas na gestão de resíduos”, acredita Victor.

Ainda conforme ele explica, no contexto geral, os materiais são separados entre metais, cerâmicas e polímeros, que são subdivididos entre termofixos, como o exemplo das borrachas, e os termoplásticos.

“Os termofixos, como os pneus, que até hoje não possuem uma destinação específica, podem ser reutilizados na construção civil, por exemplo, em algumas situações para a montagem de pistas. Metais são considerados 100% recicláveis. O alumínio, inclusive, já tem uma reciclagem até bem estabelecida. No entanto, há algumas impurezas químicas associadas a esses metais, tanto o alumínio, como também o cobre e especialmente os aços, a serem reciclados que necessitam de um pouco mais de investimento para viabilizar esses processos de reciclagem e evitar a perda de propriedades. Algo muito próximo também acontece com os vidros. No caso de outras cerâmicas, para além dos vidros, muitos dos resíduos já são reutilizados na indústria da construção civil, mas ainda é muito pouco diante da quantidade de resíduos que ela mesma produz.”, acrescenta.

E continua. “Há inúmeros estudos sobre reaproveitamento de resíduos em materiais já existentes ou mesmo para a manufatura de novos produtos. Novamente, para que isso se torne mais consolidado é necessário, além de maior investimento na ciência e tecnologia das universidades e demais ICTs, a consciência e grande envolvimento das grandes empresas do setor produtivo”, diz ainda o engenheiro Victor Teixeira.

A equipe de reportagem do F5 News visitou uma cooperativa de coleta seletiva em Aracaju para acompanhar todo o processo e amanhã conta a vocês todos os detalhes.

Edição de texto: Monica Pinto

 

 

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