“Vamos entrando que a festa vai começar! Os pares entram de braços dados no arraiá, damas à esquerda dos cavalheiros. Com os braços atrás das costas, os cavalheiros se aproximam de suas damas e as cumprimentam tirando os chapéus”.
O trecho acima faz referência a uma das principais manifestações culturais de Sergipe, a quadrilha junina. Quem nunca ouviu expressões como anarriê, anavantu, olha a chuva ou grande roda? Todas elas estão presentes nas marcações das quadrilhas juninas, que somadas ao colorido dos trajes, ao movimento dos vestidos rodados, e a alegria contagiante dos integrantes, animam os festejos juninos com tradição, arrasta pé e muita animação.
Pelo segundo ano consecutivo, por causa da pandemia, o “país do forró” não irá realizar os festejos juninos. Na reunião do Comitê técnico-científico realizada na tarde desta quarta-feira (2), foi definida a proibição de realização de eventos no período, de natureza pública ou privada, em qualquer ambiente. Apenas as transmissões de shows online, sem a presença de público, não devem ser afetadas. O governo também definiu que o comércio de fogos e fogueiras será disciplinado e fiscalizado por cada município.
Sem festejos, as quadrilhas não têm onde mostrar seu balanço, não há concursos, nem apresentações em festa corporativas de empresas ou em escolas. Para o presidente do Centro Social São João de Deus, Diego Michell Oliveira dos Santos, responsável pelos festejos na Rua São João, um dos principais palcos da capital sergipana, o vírus mais uma vez prejudica não só a economia, mas a cultura do estado.
“É uma grande tristeza, a Rua São João é considerada o Maracanã das quadrilhas e mais uma vez não teremos o nosso concurso, a festa do mastro e o casamento do matuto. Os ambulantes, e até mesmo moradores que aproveitavam a época para ganhar um extra, não terão pra quem vender suas comidas típicas. Infelizmente esse vírus nos deixa tristes, mas com esperança de dias melhores”, disse ao F5News.
Para quem carrega a paixão pelas quadrilhas no peito é difícil passar por esse período sem pensar em tudo que ele representa. A modelo Ytala Nadia, que há sete anos vive o mundo das quadrilhas juninas, diz que tem saudade do frio na barriga na hora de entrar no arraial e até mesmo das broncas do parceiro, quando ela errava o passo.
“É muito triste saber que não vamos fazer o público se arrepiar, se emocionar com a nossa garra, com a nossa paixão. Dá saudades daquele friozinho na barriga, de entrar no arraial e dar o nosso melhor. Tenho saudades até mesmo dos gritos do meu parceiro me dando bronca. É muito triste essa pandemia, não poder cantar, abrilhantar os festejos, fazer com que as pessoas se emocionem com a nossa apresentação”, lamenta.
Além da quadrilha, Ytala faz alguns trabalhos como modelo, mas há um mês está desempregada. Atualmente ela faz parte da Quadrilha Meu Sertão, do município de Divina Pastora, onde mora. Ela diz que pode matar a saudade em uma live que participou e num concurso de casal junino, realizado por um shopping na região metropolitana de Aracaju.
Ela também citou o especial junino realizado pelo Governo do Estado, por meio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap/SE), com recursos da Lei Aldir Blanc. A programação completa do Encontro Nordestino de Cultura 2021 será lançada oficialmente nesta sexta-feira (4), no Complexo Cultural Gonzagão, em solenidade transmitida virtualmente. Serão 14 dias de eventos, com mais de 90 atrações, em um projeto que envolve mais de 150 profissionais da cadeia produtiva.
“Uma quadrilha se apresenta por dia, mas tem que usar luva e máscara. Infelizmente nós não vamos dançar, porque a mãe da coordenadora está intubada. Mas foi uma forma de manter as quadrilhas em atividade”, explica.

Uma paixão que passa de geração para geração, foi assim com Kessy Rodrigues, que aprendeu com a mãe, tias e primas a dançar e a amar a quadrilha junina. Desde criança sempre esteve envolvida nesse meio e aos 13 anos já estava dançando. Hoje com 23 se emociona ao lembrar dos ensaios e do convívio com os integrantes da Unidos em Asa Branca, grupo do qual faz parte há sete anos.
“Normalmente nós começamos a ensaiar em novembro, com ensaios em quase todos os finais de semana, sempre vendo aquelas pessoas. Com isso, a gente acaba criando uma relação muito forte e com o convívio frequente, a gente acaba virando uma grande família. São sete anos na Unidos, então é muito diferente chegar agora e não ter mais aquele convívio que a gente tinha antes, quando chega final de semana então, não encontrar aquelas pessoas que nós passamos tanto tempo convivendo junto, é um choque, é muito diferente”, disse ao F5News.
Ela lembra que, no primeiro ano da pandemia, passar o São João sem os festejos, foi, de certo modo, mais fácil. Além da mãe, uma prima de Kessy também dança na quadrilha, uma tia costura os vestidos e o pai dela faz os cenários. Com quase toda família envolvida, eles aproveitaram para festejar em casa, com muita comida típica, como não faziam há muito tempo. Ela só não esperava ter que repetir a dose este ano.
“Há muito tempo eu não tinha um São João em casa, comendo milho, comendo as comidas que a gente gosta, porque normalmente, nessa época, a gente está viajando, então foi bom de certo modo, estar com a família em casa, fazendo o que há muito tempo a gente não fazia. mas quando chegou na noite de São João, bateu um desespero, e agora tudo de novo”, completou.
Kessy se emociona também ao lembrar da falta que faz a cantora Fabiana Conceição, vocalista da Unidos em Asa Branca. Ela tinha 39 anos e morreu em agosto do ano passado, vítima da covid-19.
“Pra gente está sendo muito difícil, Fabiana era a voz e o coração da quadrilha. Ela morreu logo depois do São João, então esse vai ser o nosso primeiro São João sem ela, não sei como vai ser”, diz.
Assim como outros quadrilheiros e apaixonados pelos festejos juninos, Kessy espera por dias melhores e que, no próximo ano, o brilho e animação das quadrilhas juninas possam levar emoção e alegria para todo estado.
“Espero profundamente que tudo isso passe logo para que a gente possa se reunir novamente, que a gente possa dançar, porque para alguns, pode até parecer algo banal, mas pra mim, dançar quadrilha é sair da nossa realidade diária, é se libertar e poder se expressar”, comentou Kessy.
Edição de texto: Monica Pinto




