Sergipanos curados da Covid relatam lições aprendidas em um ano de pandemia

“Minha percepção hoje é extremamente pessimista. Por incrível que pareça, mesmo um ano depois, com algumas vacinas já aprovadas e a compreensão da doença evoluindo, aqui no Brasil as coisas parecem estar piores do que antes. Na verdade não parecem, elas estão. E, na minha opinião, observando o comportamento das pessoas e, principalmente, a gestão que está sendo feita pelo governo, a situação ainda pode piorar mais ainda”, esse é o relato do sergipano Bruno Vasconcellos, 28, sobre a atual situação da pandemia da Covid-19.

Nessa reportagem especial, o F5 News compartilha os relatos de dois sergipanos que foram infectados e venceram o vírus SARS-CoV-2. Um ano depois dos primeiros casos no estado e da primeira morte registrada, qual a percepção deles sobre a presença do vírus hoje?

Em dezembro de 2019, o mundo registrou o primeiro caso de covid-19 em Wuhan, epicentro da doença na China. O Brasil identificou a primeira contaminação pelo novo coronavírus no final de fevereiro de 2020, após o carnaval. O brasileiro via confirmações de diagnóticos surgindo aos montes na Europa, enquanto as primeiras ocorrências eram noticiadas em solo brasileiro.

“Quando eu descobri o primeiro caso, lembro que fiquei um pouco assustada, mas ainda parecia uma coisa muito distante, parecia algo que não ia chegar na gente”, afirma a jornalista sergipana Gabriella Ferreira.

A Secretaria de Estado da Saúde (SES) de Sergipe informou que no dia 14 de março o primeiro caso de Covid- 19 havia sido identificado – em uma mulher, residente em Aracaju, de 36 anos, que tinha chegado da Espanha.

“Na época eu imaginava que por sermos um estado pequeno, controlariam bem a situação. Infelizmente, eu estava enganado. Por motivos diversos, as pessoas preferiram desacreditar do vírus e o resultado é o que estamos vivendo, tanto aqui em Sergipe, como no Brasil inteiro”, afirma Bruno Vasconcelos.

 

 

O professor universitário Bruno Vasconcellos relata que a evolução discreta da doença na família e entre amigos o fez descuidar das medidas de prevenção ao vírus. Como resultado, ele acabou sendo um dos milhares de infectados.

“Afrouxei alguns cuidados com a higienização dos alimentos e produtos de delivery, sai para visitar familiares e amigos etc. Por esse motivo, hoje eu não sei precisar em qual local eu fui infectado. O fato é que alguns sintomas começaram a surgir e, até então, não parecia algo que eu não pudesse controlar. Febre, dores de cabeça e dores pelo corpo foram os primeiros sintomas. Achei que, se fizesse uso de analgésicos e anti-inflamatórios, em pouco tempo estaria recuperado. Porém, após 10 dias os sintomas ainda persistiam sem quaisquer sinais de melhoras. Foi quando eu optei por ir à urgência”, relembrou Bruno ao F5 News.

 

Ele realizou o teste PCR e foi encaminhado a voltar para casa e prosseguir o tratamento. Porém, os sintomas se intensificaram e ele viu seu quadro piorar de forma significativa. “Eu já não conseguia enviar um áudio para alguém sem me sentir ofegante e, no pior dia, eu me senti sufocado a ponto de chorar e implorar forças para só conseguir caminhar até meu quarto, deitar e não me movimentar mais, pois qualquer mínimo esforço era uma sensação desesperadora”, disse o professor. 

Ele retornou à urgência e teve que permanecer internado, com a probabilidade de ser intubado. Apesar de ter apenas 28 anos e nenhuma comorbidade, ele permaneceu na enfermaria por apenas um dia, depois foi encaminhado para Unidade de Tratamento Intensiva (UTI), onde ficou por sete dias.

“Na UTI, eu era o único paciente não intubado, olhar para os leitos ao lado me fez ter algumas crises de ansiedade no hospital. Aqui cabe um parêntese para mais uma vez meus agradecimentos aos profissionais de saúde e toda a equipe que lá estavam, porque mesmo com o estresse de há um ano conviver na linha de frente, correndo riscos e vivendo as situações mais intensas e tristes, não faltava humanidade e muito carinho com as pessoas que ali estavam, inclusive eu. Enfim, meu quadro evoluiu bem aos longos dos dias e a cada litro de oxigênio que eu não precisava mais, era uma vitória”, disse Bruno com alívio.

 

Mesmo após ter se recuperado da doença, Bruno está tendo que lidar com sequelas da Covid-19. Além da capacidade cardiorrespiratória reduzida, segundo ele, as dores de cabeça se tornaram mais constantes e ele ainda acabou desenvolvendo uma hipertensão.

Já para Gabriella Ferreira, as sequelas deixadas pela infecção vão de  excesso de sono, a um desânimo “horrível”. Além disso, ela sente que sua imunidade está mais baixa e que doenças oportunistas começaram a surgir, como alergias, e as crises de rinite, que se tornaram mais intensas.

“Eu não cheguei a perder o paladar nem o olfato, como algumas outras pessoas perderam. Eu sinto que eu perdi um pouco da minha capacidade respiratória. Às vezes, eu tô andando e eu paro do nada, eu fico com falta de ar, parece que o ar some”, relata a jornalista recém-formada, de 22 anos.

 

A sergipana teve que lidar com o medo da Covid desde sempre. Seu pai  trabalha na linha de frente do enfrentamento à doença, em uma UTI para pacientes infectados, assim, os cuidados em casa sempre foram exigidos ao máximo. “Mas eu precisei voltar a trabalhar presencialmente e entre uma dessas, comecei a encontrar apenas com meu namorado. Em um desses encontros, eu acho que a gente acabou transmitindo para o outro de alguma maneira”, lembra.

Em um ano, ela continua sem abraçar os amigos, sem colocar os pés na sala da universidade, onde acabou se formando de forma remota. “Pelo menos a minha visão e a minha experiência de ter a doença, depois de ter visto os meus pais adoecidos, de ter visto parentes falecerem, continua um pouco parecida com a do começo. Ainda muito assustada e muito descrente de como muitas pessoas não entendem a seriedade desse treco. Acho que todo mundo já aprendeu o que que se deve fazer e o que não se deve fazer. A principal coisa que falta é empatia e responsabilidade com o próximo e com si mesmo”, diz a jornalista.

Para o professor universitário Bruno Vasconcellos, a situação atual o desmotiva sobre o futuro. “São diversas variantes do vírus, algumas mais contagiosas e capazes de infectar mesmo quem já foi ou está infectado. Além disso, o ritmo da vacinação no nosso país está muito lento. Então, pra mim, é difícil acreditar que sairemos dessa situação em um futuro próximo. Mas eu torço para estar errado. Eu gostaria de poder mudar a minha percepção e dizer: ‘Vivemos dias melhores!’”, concluiu.

Edição de texto: Monica Pinto

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