As palavras casa e família significam, para muitas pessoas, acolhimento e proteção. Mas para a grande parte da população trans no Brasil, a luta começa dentro de casa e muitas histórias são parecidas: Por conta da incompreensão, da rejeição e do preconceito familiar, muitos jovens acabam saindo do seio familiar cada vez mais cedo, lançando-se no mundo com uma vivência sem suporte e excluídos entre aqueles que mais deveriam apoiá-los.
Na novela ‘A Força do Querer’, exibida pela Rede Globo em 2017 e reprisada atualmente por conta da pandemia da Covid-19, o personagem Ivan (Carol Duarte), passa por um processo extremamente doloroso ao se assumir transexual para sua família.
O roteiro da dramaturgia se baseou em diversas histórias de pessoas reais para inserir o personagem na trama. Durante os capítulos, é possível ver o quanto o apoio familiar se torna algo fundamental para o processo de aceitação do jovem.
Mães pela Diversidade
Surge nesse contexto de apoio o coletivo não-governamental ‘Mães pela Diversidade’. A ONG surgiu na cidade de São Paulo no ano de 2014 e nasceu através de um encontro espontâneo entre mães e pais de pessoas pertencentes à comunidade LGBTQI+. O grupo luta pelos direitos civis de seus filhos e filhas e a sua missão principal é ir contra o bullying, a opressão, a segregação e a discriminação sofrida pela população LGBTQI+.
Atualmente, o “Mães pela Diversidade” está presente em 22 estados do Brasil. Em Sergipe, o coletivo começou a atuar em agosto de 2019 e desde então é responsável por organizar encontros, seminários, oficinas e reuniões de acolhimento entre pais e filhos.
A Coordenadora do coletivo no estado, Alessandra Tavares afirmou que a população trans é a mais vulnerável dentro do grupo LGBTQI+ e que o coletivo vem buscando formas de ajudar nas esferas jurídicas e afetivas.
“São três pais e 22 mães que participam ativamente desses movimentos, uma das atividades mais recentes voltadas para a população trans foram os mutirões de retificação de nome e gênero em parceria com outras casas de apoio a população sergipana. Por conta da pandemia, o nosso trabalho ficou restrito a doação de cestas básicas para pessoas em situação de vulnerabilidade, mas pretendemos voltar as atividades presenciais assim que possível” explicou Alessandra.
“Nosso coletivo começou para dar apoio ao pais e às mães. Pois, muitos pais ao descobrirem que os filhos são LGBTQI+, se assustam por conta da violência que eles podem sofrer. Mas, com o passar do tempo percebemos que precisamos dar apoio também aos filhos, que algumas vezes acabam rejeitados pelos familiares, em especial pela condições de vulnerabilidade no momento em que se assumem para o mundo” relatou.
Alessandra ressaltou também que o acolhimento familiar é importantíssimo, principalmente no caso das pessoas trans. “Sabemos que a sociedade ainda é muito cruel. O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQI+ , onde a média de vida da população transexual é de apenas 35 anos, que corresponde à metade da população cisgênera. Vemos todos os dias noticias como essa no jornal. Nós vivemos no pais do carnaval, no pais das cores e em contra partida somos um dos países mais intolerantes do mundo” disse.
Para o estudante de direito Rafael Sotero, o apoio familiar foi a sua força para enfrentar os desafios sociais impostos para as pessoas trans. “Desde o começo, quando me assumi social e publicamente como homem transgênero, tenho plena certeza que a minha família foi e é uma das coisas mais importantes que me dão força e coragem para enfrentar o dia a dia” explicou Rafael.
Ele também contou que quando se assumiu para sua família, a situação não foi fácil, pois era uma situação nova para todos. “Meus familiares me acolheram e se abriram para percorrer o caminho ao meu lado, errando, perguntando e se refazendo todos os dias. Ser trans e ter a minha família ao meu lado tem sido um processo de aprendizado e fraternidade mútuos, que nos uniu ainda mais, através de muito diálogo, paciência, afeto e até mesmo discussões quando necessárias”.




