“Para mim ele é o satanás em gente”, diz mãe que viu filha e netos serem mortos por Marcos Bomba

Numa casa de aparência humilde, localizada no Conjunto Marcos Freire 3, sentado no sofá da sala está Isaac. Um garoto de 11 anos que sonha em ser goleiro de um grande time de futebol. Com chuteira, luva e duas medalhas no colo, Isaac em nada lembra aquele garotinho de cabelos loiros e encaracolados, que aos quatro anos viu a mãe e os dois irmãos serem brutalmente assassinados a golpes de faca por aquele que tinha a obrigação de protegê-los: seu próprio pai.

Isaac: sonhos nas mãos e uma luta para esquecer o passado
Seu rosto não foi mostrado para preservar a sua identidade

Prestes a completar sete anos, o crime aconteceu no dia 1º de fevereiro de 2014 e, segundo relatos contidos nos autos do processo, Marcos André Andrade dos Santos, de 32 anos à época, conhecido como Marcos Bomba, teria chegado durante a madrugada e assassinado a golpes de faca, a esposa, Vanessa Almeida Sobral, de 31 anos, e os enteados, Thiago Sobral Valença, de 15 anos e Osvaldo Pereira dos Santos Júnior, de apenas nove anos.

Na residência, também estavam Thamires Sobral, de 13 anos, sobrinha da vítima e que teria sido obrigada a ingerir cocaína enquanto Marcos Bomba tentava estuprá-la, e também o único filho biológico dele com Vanessa, Isaac, de quatro anos. Ambos conseguiram fugir do local e pedir ajuda, após Thamires desatar a corda usada por Bomba para amarrá-la enquanto iria sair para comprar mais bebida e drogas.

Casa onde aconteceram os crimes em 1º de fevereiro de 2014

“Naquela noite, naquela sexta-feira, eu não conseguia dormir direito. Dei um cochilo e escutei bater na porta. Perguntei quem era e era minha irmã. Era quase 5h da manhã e eu perguntei o que ela queria tão cedo. Ela mandou colocar um copo de água açucarada para mim e me perguntou se eu achava que tinha sido nossa mãe que tinha morrido e eu respondi que sim, porque ela era muito doente. Ela soltou de uma vez: “André matou Vanessa, Júnior e Thiago”. Eu disse, deixe de brincadeira. E ela disse: “matou de faca, estão todos mortos”, narra a mãe de Vanessa, Josefa Almeida, de 61 anos, conhecida como Nete.

Para Dona Nete, o choro é diário e as lembranças daquele dia não saem da mente

Segundo ela, naquela noite não seriam três mortos na residência localizada na Avenida Perimetral I, mas cinco deveriam ter morrido não fosse a coragem de Thamires, hoje com 19 anos.

“Fui correndo para a casa e não deu para ver, eles estavam sendo colocados na gaveta do carro do IML cobertos com um pano para a gente não ver. Daí para cá, a minha vida acabou. Ficou só o filhinho dela e dele, que não morreu porque Deus deu força à Thamires, minha neta de 12 anos, que estava passando as férias na casa deles. Ele deu droga a ela, queria estuprar, ainda tentou. Ele deixou ela amarrada e saiu para comprar mais bebida e droga, quando voltasse terminaria o estupro e matava ela e Isaac. Se ele voltasse, do jeito que estava, não tenho dúvida de que seriam cinco mortes”, afirma Nete.

A mãe afirma que Vanessa sabia dos erros cometidos por Marcos, mas não enxergava devido à paixão que sentia por ele.

Vanessa era evangélica e muito querida por todos

“Ele bebia muito, usava droga e era muito namorador. Eu falava para ela, as amigas falavam, mas ela era apaixonadíssima por ele, louca e roxa, era Deus no céu e ele na Terra. Poderia chegar um homem pintado de ouro, ela não tinha olhos para ninguém. Ela não via os defeitos dele, nem os erros. Não importava se ele estava desempregado, o importante era que ela estava com ele. No Natal, ela deu quase R$ 200 num sapato bem bonito para ele, uma bermuda e uma camisa. Ela fazia tudo por ele. Depois ele colocou o trailler de conserto de eletrodoméstico, passou a usar droga pesada. Ele ia pegar ela na igreja pelo braço e saía arrastando de dentro da igreja. As pessoas davam conselho a ela, mas ela não ouvia”, lamenta.

Sem conter as lágrimas, Dona Nete narra o que teria acontecido naquela noite de 1º de fevereiro de 2014.

“Ele entrou no quarto, Vanessa estava dormindo. Ele pegou uma faca, começou a enforcar ela e depois a enfiar a faca várias vezes no coração. A faca quebrou, ele foi e pegou outra para continuar a miséria. Foram três facas, mas a polícia só achou duas quebradas. A gente achou depois a outra faca atrás da cama. Depois que ele matou Vanessa, foi para sala matar Thiago. Ele estava de bruços, com o fone do celular no ouvido escutando músicas de Rihanna, que ele era muito fã. Quando ele sentiu, André já estava em cima dele. Thiago começou a lutar com ele, mas ele era forte e Thiago era magrinho, tinha 15 anos. Ele quebrou o braço do menino, machucou ele todo e depois esfaqueou do mesmo jeito que fez com a mãe, no coração. Em Júnior foi uma facada quando ele estava tentando o estupro. Júnior acordou e gritou “pai o que é isso?”. Ele colocou a mão na boca de Thamires para ela não gritar e com a mão esquerda deu uma facada no coração de Júnior, uma só”, conta Nete aos prantos.

Osvaldo Júnior é descrito pela avó como seu príncipe

E acrescenta: “Para mim, ele não é nem um monstro. Não tenho nem palavras para dizer o que ele é. Gente ele não é, os animais têm mais compaixão uns com os outros. Para mim ele é o satanás em gente. Não existe perdão para a minha dor e para a dor de quem ficou. Eu soube que ele vive lendo o Novo Testamento, para quê? Para ir para o inferno? Por que para o céu ele não vai. Ele não tem condições de se regenerar, o instinto dele é de bicho, ele é mau. Se ele tiver que matar naquele momento, ele mata e não quer saber se é preto, se é branco, se é pai de família. Se tiver oportunidade, mata de novo, tudo o que ele fez, fará de novo. Eu não quero ver ele nunca mais na vida. Tenho o pior ódio da vida”.

Thiago era um garoto tímido e muito fã da cantora Rihanna

Atualmente, Dona Nete vive a menos de 100 metros do local onde tudo aconteceu. Ela cria Isaac, filho de Marcos e Vanessa, que, segundo ela, tem muito medo de que o pai deixa a prisão.

“Isaac tem medo do pai. Quando passa alguma reportagem dizendo que fugiu alguém da penitenciária, ele fica olhando o nome para ver se André está no meio. Antes, ele falava assim: “Vó, vamos embora daqui, eu não quero ver aquele homem, ele vai matar nós. Vamos para o Japão, lá ele não acha a gente”. Hoje, ele é muito medroso e qualquer coisa só pensa que é o pai que pode aparecer”, diz ela.

Em relação à filha e aos netos, Dona Nete descreve como era cada um deles: “Vanessa era uma menina alegre antes de conhecer ele. Gostava de fazer amizade e no trabalho dela todo mundo gostava. Antes de conhecer ele, ela trabalhava no Samu. Ela ligava para mim de manhã, ela ligava de noite para saber como eu estava. No sábado pela manhã a gente tinha acertado de ir comprar umas toalhas de mesa, uns panos de prato, mas ela morreu antes. Júnior era um menino muito dócil, era o meu príncipe. Era amado por todo mundo e muito apegado a mim. Eu pelejava para Vanessa me dar ele para morar comigo e ela dizia que não. Ele me dizia que quando crescesse vinha embora morar comigo e que a mãe não iria proibir. Mas, não deu tempo. Já Thiago era mais apegado à outra avó. Ele era um menino mais calado, para fazer amizade tinha que conhecer bem. Ele fazia parte de um grupo na escola empenhado em ajudar a tirar meninos das drogas. Era um menino que só queria o bem. Me lembro quando eu saía do trabalho cinco horas da tarde e ele saía também esse horário, a gente pegava o mesmo ônibus. Quando eu entrava no ônibus já escutava a voz dele no fundo com as amigas”, relembra.

Hoje, Dona Nete e Isaac guardam apenas boas lembranças de Vanessa, Júnior e Thiago. Aliás, todos os dias, nos pequenos detalhes, eles conseguem ter um encontro especial com as memórias compartilhadas ao longo dos anos.

Dona Nete guarda em uma caixinha fotos dos amores de sua vida

“Nenhum deles sai da minha cabeça, principalmente quando eu estou fazendo uma comida que ela gostava. Chega final de ano, vou fazer compras e lembro que ela pedia para eu guardar meus cartões para comprar as coisas. Eu brincava dizendo que ela não esperasse por mamãe. Quando eu faço uma comida que ela gostava, Isaac é o primeiro a dizer que a mãe gostava. Ela gostava de pastel com coca, amendoim. Quando a gente vai na sexta-feira para a feira, ele lembra logo. Quando eu compro farinha, me lembro que ela tinha o costume de peneirar a farinha e comer a parte mais grossa. Tudo que eu faço tem o toque deles”, finaliza Nete.

Em fevereiro de 2017, Marcos André Andrade dos Santos foi levado ao Tribunal do Júri da Comarca de Nossa Senhora do Socorro, onde foi condenado a 85 anos, três meses e 18 dias de prisão pelo triplo homicídio, um estupro de vulnerável e indução ao uso de drogas.

Em 2015, um ano após os assassinatos, este repórter esteve no Complexo Penitenciário Antônio Jacinto Filho (Compajaf), localizado no bairro Santa Maria, onde teve um encontro com o Marcos Bomba.

Marcos Bomba cinco dias após os assassinatos quando foi preso pela Polícia

Naquela tarde, Marcos teria ficado por cerca de 30 minutos calado em uma das celas do presídio, enquanto este jornalista realizava perguntas e relembrava o fato. Em determinado momento, quando perguntado se gostaria de pedir perdão aos familiares de Vanessa e dos meninos, ele foi enfático ao responder que o momento de se arrepender já havia passado.

Levando em conta o que diz o Artigo 75 do Código Penal Brasileiro no tocante ao regramento de limite de penas, Marcos Bomba só poderá permanecer na prisão pelo prazo máximo de 30 anos, quando deve ter a progressão da pena para o regime semiaberto. Portanto, daqui a mais 23 anos ele deve estar em liberdade.

Deixe uma resposta